águas abertas
Por Larissa Shanti
A terra em que pisava não era a sua. O ar que respirava também não era o seu. Até mesmo a secura que a abraçava parecia estranhar sua pele. Depois de 18 horas de voo e a incompreensível experiência de ver o sol nascer duas vezes no céu, Camila havia chegado ao outro lado do mundo.
A viagem não foi fácil. Com a tendência a querer ser mais velha, de sentir que precisava ser mais velha, de lidar com as expectativas de um mundo que a obrigava a ser mais velha, Camila havia viajado entre aeroportos e aviões sozinha. Sem adultos, sem saber a língua, sem companhia.
Ela ainda sentia nos ossos o nervoso trêmulo da corrida para atravessar o aeroporto de Doha. Ainda via os ladrilhos e a reta infinita e o detector de metais e o olhar de julgamento da imigração.
Mas chegara, conseguira.
À medida em que olhava aquele mar azul turquesa, a praia de areia grossa, os lagartos coloridos, as flores robustas e oleosas, o céu azul e o som de bocas conversando papos que seus ouvidos curiosos não conseguiam inteiramente destrinchar, pensou ela: “E agora, o que faço?”
Entenda uma coisa: em todos os planos de independência e experiência de vida que Camila buscava, ela só tinha uma certeza, a de ser uma manezinha que queria conhecer águas abertas. Depois disso, não tinha plano nenhum.

Não que não soubesse o que queria fazer da vida, mas o mundo empresarial consegue ser excepcionalmente difícil para aqueles com sonhos excêntricos. Ou seja, Camila sabia e não sabia o que queria para seu futuro. Desejava, mas não tinha nenhuma resposta, nenhuma confiança, nenhuma certeza. Onde ia ser sua faculdade, o que estudaria, como passaria, todas essas perguntas, todas essas confusões pesavam em seus 16 anos de vida.
Mas uma coisa ela conseguira: pisara em águas abertas.
— Are you all right? — Perguntou a garota de olhos azuis que a recebeu em sua casa. Com o inglês quebrado, de taquara rachada, Camila respondeu que sim, que achara a praia linda.
No dia seguinte ela foi para a aula. Explorou as muitas salas cheias de quadros de pintura, maquinários de fotografia, mesas de carpintaria... Encantou-se com a beleza da arquitetura e do coração das pessoas que cruzaram seu caminho. Conheceu tantos rostos que no final do dia não sabia mais distinguir os mullets das camisas de surfistas.
Na semana seguinte conseguiu um trabalho. Serviu muitos cafés em um espacinho pé de areia, respondeu a perguntas curiosas sobre seu sotaque e aparência. Foi ganhando conforto naquela vida nova, aprendendo a rotina dos colegas, fazendo amizades e dando um “quengo” — um mergulho daqueles de pular do trapiche e cair de bomba na água — entre intervalos do trabalho.
Sim, “quengo”, porque, mesmo que estivesse em solo internacional, a palavra manezinha parecia não sair do vocabulário de Camila. Camila não apenas entrava na água, Camila dava um “quengo”: um pulo que espirra pingos em todos ao redor, que cheira a verão, praia e infância.
Assim fazia também na vida: jogava-se inteira. Talvez por isso no final do primeiro mês começou a caminhar com confiança pelas ruas, desenrolando a língua fácil por trás dos dentes.
Não demorou muito para ganhar vida naquele lugar, para unir-se a protestos e revoluções, acudir corações de amigas depois de términos, subir em telhados de casas abandonadas e aprender da pior maneira possível a correr de magpies.
No final do terceiro mês já sabia todas as ruas de cor. Entrava nas suas lojas favoritas, colecionava pedaços de vidro de navios antigos encalhados na praia, conhecia as sirenes de alerta de tubarão e os rostos dos regulars do trabalho.
Como que em um estalar de dedos, Camila encontrou na terra estranha um novo conforto com a paisagem, no mar exótico uma certa serenidade e na própria individualidade uma força que antes não conhecia.
Quando finalmente voltou para casa, não teve mais medo da reta infinita do aeroporto de Doha, conversou animada com estranhos que esperavam seus voos e nem por um segundo pensou na imprevisibilidade do futuro.
Bem no fim, Camila ainda não sabia que rota seguiria, que faculdade cursaria ou empresa trabalharia, mas dentro de Camila existia uma certeza: que coragem ela tinha e isso era tudo o que precisava.
Não se sentia mais velha. Não estava mais velha. Mas algo dentro de si encontrara paz na incerteza das águas abertas.




