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sobre a magia e a preciosidade da própria voz

há 7 horas
2 min de leitura

uma leitura de "Brumas da Ilha", de Bianca Furtado

Por Amanda Evangelista

Em tempos de tanta pressa, ler um bom livro com uma história capaz de nos arrebatar pode ser um pequeno luxo. Em “Brumas da Ilha”, a imaginação de Bianca Furtado nos guia pelo misticismo açoriano, o sagrado feminino e os mistérios ancestrais que ajudaram a moldar a alma da nossa Ilha da Magia


Como sempre, se começa pelo mar. Seria mais fácil dizer que é uma história de migração, sobre as condições precárias que atingiram a população das ilhas açorianas na metade do século XVIII e sobre os meses sofridos de uma travessia à terra nova, mas isso seria limitar ao fundo histórico aquilo que resolve conversar com a própria magia da natureza.


Assim, a autora nos conta que, ambas banhadas pelo brilho do mar, tanto Florianópolis quanto a ilha de Corvo abrigaram um dia a secretíssima “Irmandade” – um grupo de mulheres deslocadas de um mundo marcado pela dominância masculina e por uma religião punitiva, mas amadas por uma grande mãe –, sendo seus chãos e seus ares embebidos no que parece ser energia pura. A história fala de amor, de sentir a vida no corpo, de sororidade e solidariedade, da importância de uma mãe que guie e de uma criança que rompa tradições para permitir o movimento.


Mais do que isso, no entanto, a história fala sobre o poder de ter uma voz. Aqui, as brumas são tanto a névoa que protege a ilha de Corvo quanto a neblina que envolve a própria história das mulheres ditas “bruxas”, que agora imagina-se que possam falar por si mesmas.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

A narrativa toma a forma de uma leitura dos escritos de Lunae, a protagonista, que já em seu primeiro contato com a irmandade recebe como bem a ser usado e protegido um caderno:


“Este é o livro de sua vida, de suas escolhas, de seu caminho” [...]. “Escreva, Lunae, não deixe sua vida passar em branco. Comprometa-se com esse meu pedido!” (p. 75).

Mais tarde, também o epílogo nos mostra a importância dos registros de Lunae, resgatados por sua filha. A voz supre a falta imensa de ouvir quem vive o outro lado da história, de pensar quem mora dentro das lendas, e oferece a chance de achar a verdade como uma possibilidade entre tantas.


É ficção o que Bianca nos traz, mas não por isso deixa de tocar firmemente nas bordas da realidade: a voz é privilégio de quem o mundo decide ouvir e, em posse dela, falar é um dever. Como escreve a própria autora, há algo de precioso em poder ser um canal capaz de deixar marcada a própria história, além de muitas outras. Lunae é a prova de que é necessário que estejam juntos o passado e o presente para que haja um futuro.


Brumas da ilha é um bom respiro de leitura para se sentir de novo dentro de um mundo que escuta e de uma vida que não é sozinha, mas parte de um ciclo integrado a outras pessoas e outras magias. O livro é o primeiro volume da trilogia Brumas, e pode ser encontrado em livrarias da ilha, em livrarias online ou pelo site da autora, www.biancafurtado.com. Boa leitura.

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