o órgão que ninguém trata como órgão
Por Dr. Glaycon Michels
Se eu perguntar qual é o órgão mais importante para envelhecer bem, a maioria vai responder que é o coração, o cérebro, talvez o pulmão. Quase ninguém responde “músculo”. E é justamente por isso que ele é o mais negligenciado do corpo humano
Durante décadas, a medicina olhou para o músculo como um acessório: serve para se mover, carregar sacolas, subir escadas; coisa de atleta ou de quem quer ficar bonito no verão. Hoje, sabemos que essa visão está errada.
O músculo é o maior órgão do corpo em quantidade e talvez o mais ativo na comunicação com todos os outros. Cada vez que ele se contrai, libera substâncias que viajam pelo sangue e dialogam com o cérebro, o fígado, o pâncreas, os ossos e o sistema de defesa. Ele não é a máquina que executa ordens. É um dos responsáveis por dá-las.

Um exemplo simples: quando você come, o açúcar que entra no sangue precisa ir para algum lugar. O principal destino é o músculo: quem tem boa massa muscular e a usa com frequência tem um “depósito” grande e eficiente; quem tem pouco músculo tem um depósito pequeno, e o açúcar acaba se acumulando no sangue. É daí que nasce boa parte do diabetes em adultos, da barriga que não sai e da inflamação silenciosa que gasta o corpo aos poucos.
Outro exemplo é a queda. Uma pessoa de 75 anos que cai e fratura o quadril tem uma chance assustadora de não recuperar a vida que tinha antes. Muitas vezes o problema não começou no osso, nem no equilíbrio, nem na visão. Começou vinte anos antes, quando ela parou de subir escada com peso nas mãos, quando parou de carregar coisas, quando começou a “poupar” um corpo que precisava justamente do contrário. Um músculo forte segura o osso, protege a articulação e mantém você em pé. Tem mais. As mesmas substâncias que o músculo libera quando trabalha chegam ao cérebro e ajudam a manter a memória, o humor e a clareza mental.
Não é coincidência que tanta gente relata dormir melhor, pensar melhor e se sentir menos ansiosa depois de começar a treinar força. O músculo cuida da cabeça também.
Existe até um nome para a perda de músculo com a idade: sarcopenia. Ela começa muito antes do que se imagina, lá pelos 30 e poucos anos, e acelera depois dos 50. O detalhe cruel é que ela é silenciosa. Ninguém sente o músculo indo embora, você só percebe quando o pote de vidro não abre, quando a mala fica pesada, quando levantar da cadeira exige apoio das mãos. Nesse ponto, o processo já está adiantado.
A boa notícia – e ela é enorme – é que o músculo é o único órgão do corpo que você consegue reconstruir em qualquer idade. Não dá para fazer um coração novo aos 70 anos. Não dá para pedir um rim novo. Mas dá para ganhar massa muscular aos 70, 80 e 90 anos. Já vi acontecer muitas vezes no consultório. Não é milagre, é biologia respondendo a um estímulo.
E o estímulo tem nome: força. Não é caminhar, embora caminhar seja ótimo para outras coisas. Não é alongar, embora alongar tenha o seu lugar. É empurrar, puxar, levantar, agachar contra uma resistência que desafie você. Duas ou três vezes por semana já mudam a história de uma vida. Somado a isso, comer proteína suficiente – o que a maioria dos adultos, principalmente os mais velhos, não faz – e dormir, porque é durante o sono que o corpo repara o que o treino estimulou.
Eu costumo dizer aos meus pacientes que o músculo é a única poupança que rende mais quanto mais tarde você saca. Ele é reserva para a cirurgia inesperada, para a pneumonia que faz passar duas semanas na cama, para o tropeço na calçada. Quem chega com músculo nesses momentos, sai deles. Quem chega sem, muitas vezes não volta a ser quem era.
Se você nunca treinou, não precisa começar grande. Procure orientação profissional e comece com o peso do próprio corpo, usando elásticos e halteres leves; sente-se e levante-se da cadeira dez vezes sem usar as mãos, suba a escada em vez de pegar o elevador, carregue as compras. O corpo entende rapidamente que precisa se preparar para o que você exige dele.
Envelhecer bem não é ter sorte. É ter reserva. E a reserva mais importante que você pode construir está debaixo da sua pele, à espera de ser usada. Comece esta semana. O seu eu de 80 anos agradece.




