viver muito e viver bem
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Por Daline Hällbom
A longevidade, a nível mundial, já não é mais tanto uma projeção distante quanto uma realidade em curso: segundo as Nações Unidas, mais de 770 milhões de pessoas no planeta têm hoje 65 anos ou mais, e esse número deve ultrapassar 1,7 bilhão até 2050. No Brasil, essa transição acontece de forma ainda mais acelerada. Estamos diante de uma mudança estrutural profunda, que desloca o debate para além da expectativa de vida e nos obriga a refletir sobre como estamos nos preparando para viver melhor o tempo que conquistamos.
Apesar dessa transformação, ainda operamos com modelos de vida que não acompanham essa nova realidade, estruturados para ciclos de vida mais curtos. Hoje vivemos mais, mas muitas vezes de forma desconectada, em ambientes que não favorecem a convivência, sentimentos de pertencimento ou continuidade de propósito. Além disso, persiste uma narrativa que tenta suavizar o envelhecimento quando, na verdade, essa pode ser uma das fases mais ricas e produtivas da vida.
A geração que hoje chega aos 60 anos apresenta comportamentos, níveis de atividade e autonomia muito mais próximos daqueles que, há duas décadas, eram associados aos indivíduos de 40 anos – trata-se de um público mais ativo, saudável e conectado, que está redesenhando padrões de consumo, trabalho e, principalmente, de moradia.

Ao longo da minha trajetória internacional, especialmente na Suécia, observei como outros países vêm lidando com essa realidade de forma mais estruturada. Nos países nórdicos, o envelhecimento é tratado como uma etapa natural da vida, que exige planejamento e adaptação. Foram criados, assim, modelos de moradia para pessoas acima dos 55 anos que combinam autonomia com suporte progressivo, sem abrir mão da independência, com foco na vida em comunidade, integração com a natureza e serviços que acompanham o tempo.
Essa abordagem se conecta diretamente a um dos temas mais urgentes da atualidade: a solidão. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece o isolamento social como um dos principais riscos à saúde global, com impactos comparáveis ao hábito de fumar até 15 cigarros por dia. Estudos publicados pela The Lancet indicam que o isolamento social pode aumentar em cerca de 50% o risco de demência, além de elevar significativamente a incidência de depressão e doenças cardiovasculares. Pesquisas conduzidas pela Universidade de Harvard reforçam que a qualidade das relações sociais é um dos fatores mais determinantes para saúde e longevidade.
Diante desse cenário, a saúde do futuro deixa de ser apenas física e passa a ser também social. É nesse contexto que surge o conceito de NOLT – New Older Living –, que propõe uma nova forma de viver a maturidade baseada em conexão, pertencimento, autonomia e propósito.
Adaptado à nossa realidade, é fácil identificar que Florianópolis reúne características que a posicionam de forma natural nesse movimento: a combinação entre qualidade de vida, natureza e um ritmo urbano mais equilibrado atrai um público alinhado com esse novo comportamento; além disso, a população 60+ no Brasil já movimenta cerca de R$ 1,6 trilhão por ano, evidenciando o potencial econômico desse segmento.
No entanto, esse cenário também exige responsabilidade, pois a cidade vive hoje uma tensão entre crescimento e estrutura. O avanço de novos empreendimentos ocorre, muitas vezes, sem o devido acompanhamento em infraestrutura, especialmente em mobilidade e saneamento. Não se trata de ser contra o desenvolvimento, mas de questionar como ele está sendo conduzido: não é possível discutir novos modelos de moradia sem considerar, de forma integrada, os sistemas que sustentam a cidade.
Experiências internacionais mostram que cidades bem-sucedidas são resultado de planejamento coordenado entre setor público e iniciativa privada, com visão a longo prazo. O desenvolvimento imobiliário precisa fazer parte de uma estratégia maior de cidade. Mais do que construir empreendimentos, o desafio é construir ambientes que sustentem a vida ao longo do tempo, promovam conexão, reduzam o isolamento e integrem diferentes gerações – a longevidade deixa de ser apenas uma questão individual e passa a ser um vetor do desenvolvimento urbano.
Florianópolis tem potencial para liderar esse movimento no Brasil, mas isso não acontecerá de forma automática. O envelhecimento populacional é inevitável, mas a forma como nos adaptamos a uma nova realidade ainda pode ser construída.




