top of page

ervas da ilha

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Minerva Esther entrou pela porta da redação dando um pequeno salto. Os dois pés tocaram o chão ao mesmo tempo: “Nem direito, nem esquerdo, para equilibrar as energias”, explicou, natural, como quem fala de um hábito cotidiano.

A conversa aconteceu do lado de fora, no jardim. Antes mesmo de começar, ela acendeu um defumador natural feito de alecrim, arruda e outras ervas protetoras. A fumaça densa atravessou a mesa devagar enquanto ela falava sobre intuição, sonhos, plantas medicinais e saberes ancestrais. Em determinado momento, disse acreditar que Florianópolis é um ponto de encontro de almas. Ninguém ousou discordar. Existe nesta ilha um fio invisível entre natureza e espiritualidade que insiste em sobreviver, a despeito da pressa e das notificações incessantes no celular.


Minerva trabalha com benzimentos, plantas e cartas, enxerga a cura através da percepção; respeita o ciclo das estações e afirma que estamos na época ideal para aprender a ouvir o que normalmente passa despercebido. “O inverno é o trazer para dentro”, ensina. É tempo de chá quente, escalda-pés, banhos aromáticos, silêncio, descanso, casa. E foi naturalmente que a conversa chegou ao seu conhecimento sobre as ervas.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes
De dentro de sua cesta, ela puxou um ramo de macela — erva tradicionalmente utilizada pelos povos indígenas, conhecida por suas propriedades calmantes e anti-inflamatórias.

Minerva contou sobre rituais feitos no Campeche durante a Sexta-feira Santa, antes do nascer do sol, quando a macela é colhida e banhada na água sagrada do mar para rituais de purificação.


Em seguida, tirou do cesto a erva-baleeira – planta típica do litoral catarinense, usada há gerações para aliviar dores e hematomas –, dizendo: “Ela cura qualquer pancada”. Falamos também do poejo-do-mato, encontrado nas trilhas da Ilha: basta amassar um pedaço da sua raiz para que o aroma forte, muito parecido com a cânfora, suba e abra o peito quase instantaneamente. “Muita gente passa por elas nas caminhadas sem notar sua potência.


Talvez este seja justamente o ponto central. Há plantas que continuam existindo apenas para quem aprendeu a olhar com presença. Minerva acredita que há uma conexão entre nós e elas, e que aquilo que nasce espontaneamente no quintal não surge por acaso. A chamada “erva daninha” talvez brote ali precisamente por existir uma necessidade urgente, seja na casa, no corpo ou no espírito. Por isso, ela sugere caminharmos pelo mato em estado de atenção pura, percebendo qual aroma desperta uma memória esquecida: “Siga sua intuição e repare no que insiste em aparecer para você.

A conversa fluiu. Falamos sobre a espada-de-são-jorge, cujas lanças verdes limpam as negatividades do ambiente e purificam o ar, liberando oxigênio na calada da noite e que, segundo Minerva, “É excelente para o quarto, mas deve ficar guardando um canto do cômodo, e nunca colada à cabeceira da cama, para que sua energia imponente não agite o sono.”; debatemos a arquitetura defensiva dos cactos, cujos espinhos funcionam como verdadeiras antenas e escudos energéticos, rebatendo fluxos pesados e isolando o ambiente de ruídos externos; conversamos sobre a alquimia do limão, cuja acidez corta a névoa mental e traz lucidez imediata aos pensamentos. E, por fim, o mistério do sal grosso: poderoso para descarregar os excessos da alma, mas que deixa o campo áurico totalmente aberto, exigindo o recolhimento logo após o uso para que a energia se recomponha no silêncio protetor da casa.


Fonte: Carol del Lama
Fonte: Carol del Lama

Antes de ir embora, Minerva prometeu que, dependendo da lua e do estado energético do momento, voltará em breve para benzer a redação. Por aqui, a promessa ficou ecoando pelos cantos. Recebemos seus saberes não como superstição, mas como um sopro de lucidez. Um lembrete de que existem mistérios antigos que não precisam de explicação científica para curar; basta que a gente silencie a mente para permitir que eles operem.


E, enquanto a proteção de Minerva se assenta sobre nós, o inverno cai manso por sobre a ilha.


ERVAS DE PODER:

• Macela para acalmar

• Erva-baleeira para curar pancadas

• Poejo-do-mato para abrir o peito

• Espada-de-são-jorge para proteger a casa

• Limão para trazer clareza

• Sal grosso para descarregar excessos

bottom of page