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experiência única e intransferível

  • há 6 horas
  • 5 min de leitura
Por Fábio Perin

Nos últimos tempos tem surgido uma preocupação maior com a saúde mental, o que tem aumentado a curiosidade sobre áreas afins, especialmente a psicologia e as neurociências. Contudo, essas são áreas muito vastas de conhecimento interdisciplinar e acabam abrigando muitas outras ciências sob seus guarda-chuvas. Estudo psicologia e neurociências há mais de 30 anos e considero que ainda tenho muito a aprender, surpreendendo-me constantemente com a velocidade com que essa área se desenvolve. A curiosidade que me moveu e me envolveu nessa jornada pelas ciências é um dos aspectos que, acredito, atrai outras pessoas a simpatizarem com esses conhecimentos.


Quero dar atenção a alguns conceitos que são importantes na minha prática profissional e que considero serem relevantes também para as pessoas interessadas em entender melhor suas escolhas. Para isso, gostaria de explicar e explorar o conceito de “experiência”, e o motivo pelo qual ele é de extrema importância para o meu trabalho.

Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes
O MITO DA MENTE SEPARADA DO CORPO

No senso comum, é frequente a percepção de que a psicologia é uma ciência que estuda a mente, mas muitas pessoas ficam surpresas ao saber que muitos psicólogos não acreditam em “mente” e não consideram este um termo adequado para explorar ou explicar nossas escolhas ou o nosso comportamento. Nossa crença na perspectiva mentalista deriva de um viés que nos leva a acreditar, intuitivamente, que conseguimos acessar nossas mentes e que elas são nossa agência e essência. No cotidiano, nossa experiência se organiza a partir de uma perspectiva dualista, que gosto de chamar de “público/privada”. Ou seja, temos acesso a eventos que são públicos — no sentido de muitas pessoas poderem ter acesso a eles também — e outros privados, nos quais só a própria pessoa tem acesso.


No dia a dia, tendemos a atribuir alguns desses eventos privados à nossa “mente”; nossas emoções ou pensamentos, que são percepções exclusivas de quem os experimenta, por exemplo. Normalmente, os eventos públicos são aqueles que percebemos como externos a nós e que podemos compartilhar com os outros. Essa dicotomia aparente faz com que a ideia de uma entidade interna – destacada do que chamamos de corpo, onde se encontrariam nossa consciência e nosso ego – seja percebida como nossa essência.


Por outro lado, gosto de destacar que nossa experiência é absoluta. Como estou imerso na experiência — na leitura deste texto, por exemplo —, tenho acesso a eventos públicos, como as sensações relacionadas ao objeto (neste caso, o jornal e o papel de que é constituído) e às letras, que são estímulos visuais que se tornam audíveis. Ao mesmo tempo, o texto ativa nossas memórias, pensamentos e talvez até algumas emoções, na medida em que nos identificamos com o assunto ou criamos aversão. Se a leitura for interessante, é possível que ela consiga filtrar outras sensações e manter nossa atenção exclusiva; mas, se o texto for desinteressante, é provável que a atenção flutue para outros estímulos.


A EXPERIÊNCIA É ÚNICA E INTRANSFERÍVEL

Para cada pessoa, sua experiência é individual, única e intransferível. Não temos acesso às experiências de outras pessoas senão pela linguagem — nossa capacidade fantástica, porém limitada, de compartilhar vivências. A linguagem, ou comportamento verbal, garante que a fala de alguém possa ativar as experiências armazenadas na memória do ouvinte e, a partir delas, gerar imagens para que seja possível compreender o que o outro diz. Mas essas imagens não são a experiência de quem fala, e sim um arranjo das experiências de quem ouve para tentar reconstituir o relato do falante. Essa situação cria um paradoxo aparente, pois só conseguimos entender a experiência alheia a partir da reorganização da nossa.


Essa forma de conceber a experiência é essencial para a prática da psicoterapia. Entender que a imagem que o terapeuta faz do seu cliente não necessariamente representa a experiência do cliente é uma pressuposição importante no processo de análise. Essa perspectiva permite que a psicoterapia ocorra em condições onde a análise e as avaliações sejam feitas de forma crítica, porém acolhedora. Além disso, permite que os sistemas de crenças, regras e valores possam ser explorados de forma cuidadosa e validante.


Para entender isso, precisamos destacar que essa percepção de que a experiência é absoluta deriva de uma perspectiva monista, que se opõe ao dualismo comum em muitas filosofias ocidentais (em especial no cartesianismo). O dualismo tem como consequência considerarmos o organismo a partir de uma percepção essencialista, como se ele fosse algo destacado do ambiente, e como se o ambiente fosse algo externo ao organismo.


Essa percepção de que o organismo e o ambiente são indiferenciados — que deriva da ideia de que a experiência é absoluta — tem um impacto na maneira como se avalia a tomada de decisão e quais fatores a influenciam. Gosto de dizer que todo nosso comportamento é determinado pelo ambiente.

Mas isso ganha outro sentido quando se considera que o organismo é o ambiente. Essa proposta leva em conta que o ambiente são os dados externos, aqueles que são públicos (o que costumamos chamar no cotidiano de “ambiente”, mas aqui chamaremos de Ambiente Externo), mas também leva em conta os dados privados (Ambiente Interno e Ambiente Cognitivo). O ambiente interno é o que comumente chamamos de corpo e seus processos fisiológicos e metabólicos; já o ambiente cognitivo constitui nossas experiências armazenadas e a forma como as acionamos e atualizamos para responder às demandas.


QUEM DECIDE: EU OU O AMBIENTE?

Por isso, quando levamos em conta a forma como tomamos decisões, dizemos que elas estão sob controle do ambiente. Mais especificamente, entendemos que nosso estado metabólico e fisiológico é uma variável a ser considerada. Além disso, nosso ambiente cognitivo (pensamentos e emoções) faz parte do nosso repertório de comportamento, e a disponibilidade desse repertório é um fator decisório importante. Obviamente, o contexto externo, com seus arranjos e disponibilidades, completa essa tríade que explica como as decisões estão sob controle ambiental.


Portanto, a tomada de decisão, frequentemente, não é um processo deliberado e fruto de uma reflexão elaborada, mas sim o resultado de um conjunto de acionamentos automáticos que dependem de parâmetros biológicos, das contingências do ambiente externo e, em especial, das nossas memórias.

O que a psicoterapia propõe é uma reorganização das experiências individuais de forma mais analítica, buscando rever como tomamos decisões e nossa capacidade de lidar com as consequências delas, para ampliar nosso repertório e aumentar a flexibilidade cognitiva. Esse olhar sobre a experiência permite que o cliente vá adquirindo mais ferramentas para organizar sua vivência e conquiste mais autonomia nas suas decisões.



Fábio Perin é formado em Psicologia pela UFSC, mestre em Neurociência e Comportamento pela mesma instituição e especialista em avaliação neuropsicológica pelo CEPSIC-HCFMUSP. Atualmente é diretor clínico na clínica Living Brain, além de psicoterapeuta.
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