o que é sucesso para você?
Por Demian Moraru
Uma nova visão sobre empreendedorismo coloca saúde, tempo, propósito e longevidade na equação do sucesso
Durante muito tempo, ensinaram ao empreendedor que cuidar bem da empresa era a receita para o sucesso. Hoje, acredito que a maior lição seja entender que cuidar de si também é cuidar do negócio. Por décadas, o empreendedor foi incentivado a trabalhar mais, dormir menos e acreditar que sacrificar a própria vida fazia parte do caminho para construir um negócio de sucesso. O problema é que esse modelo se mostrou falho: a empresa é um reflexo de quem a lidera; a forma como o líder pensa, decide e reage à pressão aparece na cultura e na maneira como as pessoas trabalham. Muitas vezes, o primeiro ajuste precisa acontecer em quem conduz tudo isso.

O relatório State of the Global Workplace 2025, da Gallup, mostra que os gestores respondem por cerca de 70% da variação do engajamento das equipes. Apenas 21% dos trabalhadores no mundo estão realmente engajados, enquanto o baixo engajamento representa um prejuízo estimado em US$ 438 bilhões por ano para a economia global. Empreender nunca foi uma corrida de 100 metros, mas sim um “esporte” de resistência, e sono, alimentação, atividade física, recuperação, disciplina e flexibilidade também fazem parte da estratégia. Um líder cansado decide mal e perde capacidade de ouvir, criar e resolver problemas. Existe uma romantização do empreendedorismo que precisa ser revisitada: nem todo mundo nasceu para empreender, e isso não diminui ninguém. Empreender significa conviver com incerteza, responsabilidade financeira, pressão e decisões difíceis.
Antes de empreender, talvez as perguntas sejam: “Por que eu realmente quero fazer isso?” ou “Será que apenas gosto da ideia de ser visto como empreendedor?”
Nos últimos anos, percebi que o conceito de sucesso mudou. Durante muito tempo, sucesso significava bens materiais; hoje, para mim, é mais do que isso. É tempo para estar com a família, com os amigos e fazer as coisas que eu gosto, estar presente e cuidar da saúde – e, claro, tempo para pensar no próprio negócio. Muitos empreendedores são engolidos pela operação e deixam de refletir sobre a própria empresa. Não precisamos trabalhar mais horas, mas sim de forma mais inteligente, sendo no tempo aparentemente “improdutivo” onde surgem alguns dos melhores insights.
Essa mudança aparece também nas pesquisas. O McKinsey Health Institute, no estudo “Thriving Workplaces” (2024), mostra que empresas que investem no bem-estar de colaboradores e lideranças registram ganhos em produtividade, inovação, retenção de talentos e desempenho financeiro. Cuidar das pessoas passou a ser também uma estratégia de negócios, e alta performance não significa produzir o máximo todos os dias, mas acessar sua melhor versão quando necessário e recuperar corpo e mente para continuar performando.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ansiedade e depressão geram uma perda de aproximadamente US$ 1 trilhão por ano em produtividade para a economia mundial – é também uma questão de competitividade e longevidade dos negócios.
Respiração consciente, meditação, atividade física, alimentação e práticas apoiadas pela neurociência também são ferramentas de liderança.
“Malhar” o cérebro é tão importante quanto malhar o corpo. Pesquisas da American College of Sports Medicine (ACSM) associam a atividade física regular à melhora da função cognitiva e à redução do estresse. O esporte também me ensinou sobre empreendedorismo: persistência, desconforto, vitória e derrota, recuperação, flexibilidade e respeito ao processo. Você não vira um campeão treinando uma única vez. Também não constrói uma empresa em uma única tacada.
Organizações consistentes evoluem sem comprometer sua essência. O mesmo vale para quem empreende. Crescer não pode significar perder a saúde, a família ou a capacidade de aproveitar aquilo que está sendo construído.
Alta performance sustentável é saber acelerar quando necessário e, principalmente, recuperar-se para continuar performando amanhã. A grande evolução do empreendedor moderno está em deixar de perguntar apenas “Quanto minha empresa pode crescer?” e começar a perguntar “Que vida quero construir por meio dela?”, porque o sucesso não deveria ser medido apenas pelo tamanho da empresa que construímos, mas pela qualidade da vida que conseguimos viver enquanto o fazemos. Empresas existem para gerar impacto, lucro, empregos e inovação, mas também deveriam ampliar aquilo que temos de mais valioso: o tempo.




