olhar para trás, pensar o futuro
Falar de contemporaneidade significou, por muito tempo, projetar um futuro independente do passado. Ficou famosa a palavra “visionário”, imaginaram-se negócios inovadores, ferramentas revolucionárias e grandiosidades à la carros voadores que deixaram para trás, no entanto, a ideia de voltar-se ao que passou como base, como a terra fértil de onde brotam novas sementes.
E tudo bem, cada tempo é um tempo – às vezes escolher deixar o que já não tem mais utilidade é também uma forma de avançar –, mas parece ter algo nos ares de hoje que pede desesperadamente uma mudança.
É porque, vejam bem, já estamos na era das máquinas do tempo: visualizar o futuro não é difícil com a ajuda de todos os dados que guardamos do passado, e visitar outras épocas é um exercício cotidiano de acessar o que está guardado em fotos, vídeos, livros, áudios e na memória de quem não permite mais que a velhice seja classificada como decadência.

Hoje, o valor está em saber perceber que passado, presente e futuro coexistem. É projetar uma casa pensando em como será seu passado no futuro, é dar futuro a uma peça de roupa vendo seu passado em cada costura, é valorizar o diálogo entre quem está começando a vida e quem já viu muita coisa, é ir atrás das próprias raízes enquanto se sonha com que frutos elas ainda podem dar.
Pensando na imagem da semente, não é à toa que a primavera é tida como época de transformação: ela é uma ponte entre a calma invernal e o movimento do verão, tirando vida verde do que já parecia seco e sem folhas.
No hemisfério norte, a primavera vem junto do novo ano astrológico, marcada pelo nascimento gradual das florzinhas na grama e de tudo o que foi coberto por um tapete de neve; aqui, estamos começando a reconhecer o que é nosso – mas não menos transformador – no vento que traz a chuva, na chuva que lava o chão e no chão que se faz mais fofo, quebrando a dureza de um inverno todo nosso para preparar o que vem para o novo ano. É, inevitavelmente, tempo de plantar o que vamos colher daqui para frente.
É tempo de tomar decisões. De olhar para trás, ver o que a memória nos conta do que já foi e pensar em como ver o que vai ser.
Há de se olhar para o passado com carinho, com a generosidade de quem consegue ver não só o que precisa mudar, mas o que deve ficar como está para impulsionar o bem que pode trazer; há de se olhar para o futuro com a empatia de quem vai dividi-lo, de quem vai olhar ao redor e se perceber em comunidade, fazendo parte das mudanças que quer ver no mundo.
Abram as janelas, arejem quartos e guarda-roupas e mentes; o que vem por aí? Onde estão fincados meus pés e por onde correm minhas raízes? De onde venho e de quem quero cuidar? Por onde quero que passe quem ainda não chegou?
É primavera, Floripa. Preparem-se, que com a chuva que chove o que já foi rio vem a água do que vai ser planta.



