Marília
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Por Larissa Shanti
Marília um dia gostara de salmão. Daqueles bem fresquinhos, com a casquinha dura embaixo, cheio de maracujá e sal. Gostara. Passado. Gostara antes dos dentes apodrecerem, da carne flácida e da aridez dos olhos solitários. Gostara. Para o Presente, Marília vivia presa na rotina das enfermeiras. Da cama para a cadeira, da cadeira para a cama. Como se a vida no asilo não definisse ainda mais o seu corpo. Como se a vida de comidas úmidas e sem sal não matasse ainda mais a sua língua.
E que língua Marília tinha... daquelas que não perdia a oportunidade de dar uma chicotada nas pobres visitantes que apareciam de vez em quando. As netinhas, pequenas, há muito já tinham desistido de esperar por palavras de amor. Pelo menos era assim que Marília se sentia, como se o amor estivesse, também, no Passado. No Presente, ficaram apenas as reclamações dos filhos, aquelas de como era difícil visitá-la, quão trabalhosa era sua presença, quão cortante era sua língua. No Presente, Marília tinha apenas a TV preta, na parede branca, no quarto pequeno, no sofá velho, no corpo semi-morto de Marília.
“Foi avistada, essa manhã, uma grande baleia-franca com filhote passando em frente ao costão do Morro das Pedras, na cidade de Florianópolis”, falou o noticiário na telinha da única companhia de Marília.
Quantos anos se passaram desde a última vez em que ela vira uma baleia? Marília não se lembrava, mas lembrava do sabor do sal, do salmão e do barco do pai que rodava entre a Ilha do Campeche e a costa da Armação. Marília lembrava do amor pelo azul, da beleza das baleias.

Talvez fosse a lembrança — a eterna rememoração da sua mente parada dentro de um quarto –, ou talvez fosse o desejo por um Presente com um cenário levemente diferente que fez Marília, naquela noite, não tomar os remédios para dormir.
Fugira de fininho, desafiando a todas as enfermeiras que achavam sua bunda velha demais para fazer algo além de ficar em uma cadeira.
Pulara o muro do lar de idosos e, com seu pequeno moedeiro, pegara um ônibus até a Armação. Chegando lá, Marília lembrara o que era uma boa língua. Sem chicotes e sem durezas ela cortejou os pescadores antes mesmo do sol nascer.
E no Presente, como Marília sentira-se viva.
Ela e os estranhos, todos com pele queimada de sal, foram até o meio do mar, esperar pela rota das baleias. Estando lá, o enjoo no estômago, o sono e o cansaço dos ossos velhos a fizeram duvidar se não era de fato feita para a sala branca, a TV preta e a rotina de camas e cadeiras. Mas, no Presente, na luz do nascer do sol, Marília viu não uma, mas duas grandes francas arrastarem-se sob a água na mesma velocidade que Marília arrastava-se sobre o chão. E, pelas calosidades em cima do grande corpo das baleias, Marília pode reconhecer que as duas eram as mesmas que vira em sua tela na noite anterior.
Mais tarde, quando Marília já tinha sido encontrada pela polícia local, ela contou para as netas alegremente sobre a grande baleia mãe e baleia filha que vira durante a manhã. No Agora, a língua de Marília lembrou as palavras amorosas. No Presente, Marília encontrou-se viva. Mas e no Futuro?
No dia seguinte, Marília, aos 91 anos de idade, inscreveu-se em uma aula sobre animais marinhos na faculdade próxima a seu asilo. E, como prometido pelos filhos, uma vez por semana Marília é levada até a Armação para comer salmão ao molho de maracujá e, quem sabe, ver baleias.




