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Tanto já vivi para chegar até aqui,

  • há 6 horas
  • 3 min de leitura
Por Flávia Rubim

Tanto a viver para chegar até lá.

No peito uma janela, a alegria.

No umbigo, labirinto.

Sou múltipla em tantas vidas, faces, fases.

Nos olhos, cores.

Mudo o tom da existência cada vez que pouso o olhar na presença.

Nas mãos, doação.

Sem, sem dúvidas, sem amarras, sem apegos, nas mãos tenho e entrego meu coração.

Nos pés, estradas.

Força e tensão em exercício de equilíbrio.

Me manter em pé é compromisso comigo.

A gente olha assim e é difícil acreditar que temos origem estelar.

Pois é, somos material cósmico plasmado em ossos e órgãos.

Luz condensada em corpo humano.


E assim nascemos, respiramos, andamos.

Caminhamos sobre o grande fio que se desenrola pulsante.

Laços de vísceras e sangue.


Nascemos nus e vamos nos vestindo.

Trazemos a matéria prima na bagagem e vamos, a cada passo, tecendo a veste de nossos personagens.

Não é de moda nem de tendência essa roupa.

É de improviso e autenticidade.

 A ilustração foi criada durante atendimentos terapêuticos conduzidos pela artista. Feita de olhos fechados, os traços surgem de forma intuitiva e espontânea, revelando paisagens internas, emoções e campos sensíveis acessados em estado meditativo. Fonte: arquivo pessoal
A ilustração foi criada durante atendimentos terapêuticos conduzidos pela artista. Feita de olhos fechados, os traços surgem de forma intuitiva e espontânea, revelando paisagens internas, emoções e campos sensíveis acessados em estado meditativo. Fonte: arquivo pessoal

Há quem ame as rosas

Há quem se encante com as pequeninas margaridas

Há quem treine saltos ornamentais

Há quem se embrenhe em trilhas

Há quem dedilhe violões clássicos

Há quem solte o braço na bateria


Você com seus sentidos

Eu com minha busca

Ela com coragem

Ele com confiança.


Você com seu destino

Eu com minha fé

Ela com entrega

Ele com esperança.


Você com seu vazio

Eu com meu silêncio

Ela com suor

Ele com lembranças.


Colecionamos vivências e abastecemos nossa alma de encontros.

Que seria de nós se não fosse o outro, que amplia nossa força construtiva?

Que nos enlaça no afeto ou desafeto e nos convida a tecer mais um fio de sentimento.


Observando as cores dos encontros, ajeito as linhas e compreendo as texturas da minha individualidade.

Busco saber quem sou por toda a quilometragem dos anos de vida percorrida.

Percebo este grande centro, onde a realidade concreta e o mistério se aglutinam.

E me pergunto:


O que estou fazendo?

O dia amanheceu, e agora?

Planto mudas no meu quintal ou pego um avião pelo mundo afora?


Sei que estou aqui.

Pertenço ao chão e dele colho o néctar da abundância.


Me aprumo feito teto que estala, seguro o dilúvio.
Expando a luz de amar no gesto cotidiano do amor.
Falo com a voz cadenciada dos olhos que pulsam no meu coração.

Me separo da doença do mundo em passos miúdos.

Não há placas, não há orientação possível.

Procuro pelo buraco da fechadura, pequenina vigília, a aproximação da fenda que arde a passagem do tempo e vejo por inteiro o território circundante.

Vejo o que sinto, na hora que sinto.


É preciso lapidar a paz no terreno duro e sólido dos dias.

Do que desvio? O que recolho?


Setas e destinos

Por dentro, o brilho.

Paisagens e estradas

Aqui dentro, o brilho.

Sentidos à flor da pele, enxergo tudo o que cresce e comigo sinto, o brilho.


Resplandece o tempo, vagueia morna a memória.

O timo vira clarão.

Contorno onde estou de amor e assim brilha o que sou.


Sou o movimento cíclico da terra e do céu.

Sou o amanhã do ontem, sou o passado do futuro.

Sou o presente que paira, que vibra, que sente.

Sou a plenitude do tempo.

Sou o coração que bate agora.

E agora. E agora.

Transcendo o que houve e o que haverá.

Sou, não os olhos, mas

O brilho vivo do olhar.


Aquilo que permanece é a mudança, o movimento contínuo.

Descubro o prazer de habitar meu corpo de pele, sangue, olhos, ossos.

Há vida em todos os minutos, do acordar ao dormir.


Povoo de beleza o entorno dos meus olhos

Miro nos pontos luminosos que insistem em aparecer nas tardes frias.

Reservo um punhado de energia para minha recomposição

Desfruto da calma e da delicadeza de cada camada do desabrochar.


Amanheço com afeto disponível e

molho a palavra no mel.


Pergunto à terra sobre o pulso dos meus próximos passos.

Escuto as estrelas sobre o mistério que guarda meus desejos.

Aprendo com a floresta sobre a sobrevivência das mais raras espécies.

Noto o fluir das águas, molho as mãos e abençoo a mim mesma na certeza da nascente que mora em meu peito.

Desperto a cor das borboletas na minha aura.

O giro da baleia na minha saia.

Evoco o canto dos pássaros para ecoar a liberdade da minha alma.

O perfume das flores se sente melhor ao fechar os olhos.

Pois agora os abro e vejo o horizonte...

Dali veio e ali se põe o sol.


FLÁVIA RUBIM é atriz, escritora e terapeuta. Mora em Florianópolis e cria vivências expressivas que investigam a arte como força criadora presente em cada ser humano.
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