a pista é a rua
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À frente do Sounds in da City, o DJ Allen Rosa transformou a vontade de ocupar as ruas em um movimento cultural que, há mais de uma década, leva música para o espaço público em Florianópolis. Nesta conversa, ele nos fala sobre o que acontece quando a cidade vira pista

A Kombi e o sistema de som que ela carrega são símbolos de tempos "old school", mas hoje marcam presença regular no repertório cultural da cidade. A escolha de modelo foi artística, estratégica ou casual?
As escolhas foram casualidades da vida que acabaram se reunindo como expressão da minha identidade e personalidade. A Kombi era um sonho de infância. Meu avô tinha uma nos anos 90, e eu adorava brincar de dirigir e passear com a família. Ela sempre esteve associada a momentos de coletividade e boas histórias, o que se conecta diretamente com o projeto. O sistema de som vem do início da minha história com a discotecagem, com a cultura do soundsystem e do drum and bass. Com o tempo, esses elementos se encontraram e se tornaram parte da identidade do projeto.
A ideia de "música livre ao ar livre" também pode ser vista como uma crítica à necessidade de encaixar os sons em diferentes gêneros, categorias e espaços?
O tom não é de crítica, é mais a representação do que sempre buscamos. A frase surgiu no começo do projeto, em 2010, a partir de uma inquietação com a falta de espaços para tocar e vivenciar determinados estilos musicais na cidade. Naquele momento, praticamente não se vivia música na rua em Florianópolis, nem mesmo em espaços privados ao ar livre. A cultura musical era mais direcionada à noite, em casas noturnas e espaços de shows.

Qual é a sensação de tocar na rua e ver o espaço se ajustar para acomodar uma massa dançante?
É a forma mais plena de me conectar com o presente, com as emoções e com a música, esquecendo o tempo. O sentimento de realização é enorme ao ver tantas pessoas diferentes interagindo em um mesmo espaço.
Sinto como se a música fosse um fio que passa por cada um, costurando as pessoas e criando uma ponte de troca de boas energias, onde cada um conversa através do corpo e da dança.
Existe um lugar que, pra você, representa mais o Sounds em Florianópolis?
Florianópolis tem muitos pontos de vista e diferentes olhares, tanto no cenário urbano quanto na natureza. Mas, pra mim, um dos espaços mais emblemáticos na história do Sounds in da City é o Largo da Alfândega, que reúne história, beleza e significado.
O Sounds faz questão de se mostrar como um conjunto de muita gente competente. Como é poder abrir espaço não só para a divulgação, mas também para a formação da cena local de DJs?
Fico feliz com essa percepção. Vejo isso como o resultado de ideais bem definidos e de um alto nível de exigência com a qualidade. Hoje, o projeto é formado por um time de DJs que constroem e representam a identidade musical dos eventos. O Sounds in da City nasceu também da falta de espaço para tocar estilos mais alternativos, e, ao longo dos anos, pessoas com a mesma vontade foram se aproximando e passando a fazer parte dessa construção.
Como foi o processo e o impacto da aprovação no Programa de Incentivo à Cultura (PIC) de Santa Catarina?
Durante 15 anos de Sounds in da City, sempre existiu o sonho de ter uma estrutura mais sólida, tanto física quanto de equipe. Nesse período, os eventos eram viabilizados por um modelo arriscado, com custos pagos principalmente pela venda de bebidas. Depois da pandemia, isso ficou muito mais difícil. A inscrição no PIC foi uma última tentativa — pensei que, se desse certo, continuaria, e se não, encerraria ali. E deu certo. Receber essa notícia depois de tanta luta foi realmente especial.
E com esse apoio, o que foi diferente nesta última temporada, encerrada no final de maio?
Essa última temporada foi um grande aprendizado. Depois de mais de 500 eventos realizados, foi possível estruturar melhor a operação, me permitir delegar mais e encontrar um equilíbrio maior entre criação e gestão. Ao mesmo tempo, foi desafiador manter a essência do projeto sem perder a espontaneidade e a liberdade que sempre fizeram parte do Sounds in da City. A equipe se fortaleceu, ampliamos as possibilidades artísticas e conseguimos realizar uma temporada muito especial.

O Sounds completa, em 2026, 16 anos de luta e boa música. Como estão os olhos no futuro e para o que vem por aí?
Os sonhos são mutantes e não param. Ao longo da trajetória, surgiu a vontade de levar o Sounds in da City para outros lugares. Isso já aconteceu de forma independente – fizemos o projeto duas vezes em Curitiba, por exemplo. Agora a ideia é expandir e levar para outras cidades do Brasil.



