um reino onde o nada é infinito
- 21 de mar.
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Fundadores do projeto, nascidos em Florianópolis, Laurinho Linhares e PH falam sobre origem, processo criativo, independência e a construção de uma comunidade em torno do som do Reis do Nada
COMO FOI O COMEÇO DO PROJETO E QUANDO A MÚSICA DEIXOU DE SER BRINCADEIRA?
No início, éramos três primos: nós dois (Laurinho e PH) e o Rafa. O Laurinho tocava à noite, tinha banda e já tinha ido para São Paulo, ou seja, conhecia a cena. A gente se juntou com vários amigos e formamos a Coisaraba Clube de Som, só de cover, sem identidade nossa. Em uma viagem pro Rio para ver o Stevie Wonder, veio a virada: “vamos fazer uma banda nossa, com nossas músicas”. Montamos um estúdio improvisado em uma sala do pai do Laurinho e começamos a gravar. Nosso primeiro show foi no antigo Double Seven, no Centro. Foi ali que sentimos: agora é de verdade. O Rafa saiu antes do primeiro álbum, foi morar em Curitiba, mas muitas músicas nasceram com ele e seguem na nossa história.

O QUE “REIS DO NADA” SIGNIFICAVA NO INÍCIO E O QUE ELE REPRESENTA HOJE?
Sempre foi sobre uma riqueza que não é material: amigos, tempo, estar junto, viver em um lugar inspirador. Nos sentíamos rei mesmo tendo poucos recursos financeiros. Hoje esse “nada” virou comunidade, encontros, fãs que viraram amigos, músicos que entraram na banda. A gente brinca que o nada é infinito e esse reino segue se expandindo.

FLORIPA APARECE DE FORMA SUTIL NAS MÚSICAS DE VOCÊS. DE QUE FORMA A ILHA ATRAVESSA O SOM?
A ilha entra mais como vivência do que como tema literal. O mar, os deslocamentos, os encontros, a família espalhada pela cidade. No começo, evitávamos a regionalidade. Não é mais uma preocupação, afinal, a ilha está na gente. Às vezes a música nasce em uma praia específica, mesmo que no final ela fale do sentimento, não do lugar.
COMO NASCE UMA MÚSICA DO REIS DO NADA? EXISTE UM PONTO DE PARTIDA?
Não existe regra. Pode nascer no violão, no estúdio, ou de uma ideia antiga. Produzimos muito e muita coisa fica guardada por anos. O processo é orgânico; quando a música comunica o que precisa, a gente sente que está pronta.
AS LETRAS DE VOCÊS SÃO MAIS SENSORIAIS DO QUE EXPLICATIVAS. ISSO É UMA ESCOLHA?
Veio com o tempo. Antes escrevíamos de forma mais direta. Hoje preferimos deixar mais espaço. Nem tudo precisa ser entendido, só sentido. A melodia guia muito a letra.

ALGUMAS MÚSICAS VIRARAM PORTAS DE ENTRADA PARA NOVOS OUVINTES. VOCÊS SABIAM DISSO QUANDO LANÇARAM?
Não. Isso só ficou claro depois. “Proibiram as Flores”, produzida durante a pandemia, foi uma virada, ela resgatou nossas versões musicais mais orgânicas. Depois vieram “Banho de Mar” e “Trama”. Nenhuma explodiu. Todas cresceram devagar, naturalmente, e seguem sendo ouvidas.
TEVE UM MOMENTO EM QUE VOCÊS SENTIRAM QUE A TRAJETÓRIA MUDOU DE RITMO?
Sim, tiveram dois. O primeiro, na pandemia,
quando voltamos para uma essência mais simples. Outro momento foi em um show no Floripa Eco Festival, no Sítio das Águas. Estávamos em um palco secundário, mas a galera foi toda para lá. Ali tivemos a estreia da formação atual. Aquilo nos marcou muito.
O QUE O SHOW AO VIVO REVELA SOBRE O REIS DO NADA QUE O STREAMING NÃO MOSTRA?
O show mostra tudo. É difícil explicar nosso som em palavras. A energia, o groove, a banda. Apesar de sermos um duo criativo, ao vivo o projeto é coletivo. Cada músico traz uma linguagem diferente: jazz, groove, sopros, vozes, percussão. Isso molda completamente o som e a experiência. Quando a pessoa vai ao show, ela entende. É no palco que a nossa identidade aparece.

O QUE SIGNIFICA SER ARTISTA INDEPENDENTE HOJE?
Liberdade. A gente não abre mão de decidir o que lançar, quando e como. Mas isso tem um custo enorme. Produzimos de tudo: som, estética, clipe, estratégia. O mais difícil é fazer a música chegar nas pessoas. Não é sobre qualidade, é sobre alcance.
UM DIA PERFEITO EM FLORIPA PARA VOCÊS?
Praia com a raça. Um dia de sol, família, amigos. Um belo banho de mar, surfando, jogando uma altinha, tomando um negocinho. Um dia sem muita preocupação. Acho que a paz tá nisso.
E OS PLANOS PARA O FUTURO?
Temos músicas pra lançar, parcerias pra sair, e, se tudo der certo, um acústico pra resgatar faixas que já existem de um jeito mais nosso. A vibe para 2026 é realização.



