do íntimo ao extraordinário
- há 2 dias
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Em um momento em que o cinema brasileiro volta a ganhar projeção internacional, ouvir quem construiu sua trajetória fora dos grandes eixos é uma grande oportunidade. Cineasta catarinense radicada em Florianópolis, Cíntia Domit Bittar fala a partir de um lugar de maturidade. Depois de anos dedicados ao cinema independente e após uma circulação inédita de seus filmes, sua reflexão ultrapassa a própria carreira e se estende ao estado do audiovisual em Santa Catarina
COMO FOI O INÍCIO DA SUA PROFISSÃO?

Cresci em uma família que sempre valorizou o acesso à cultura, com leitura e filmes desde a infância — uma época em que o cinema ainda tinha um lugar central na sociedade. Quando me mudei para Florianópolis, aos 16 anos, em meio a certas dúvidas, optei por cursar Cinema na universidade. O receio sobre a viabilidade da carreira me fez me dedicar ainda mais. Meu primeiro filme profissional foi via edital do Fundo Municipal do Cinema, o “Qual Queijo Você Quer?”, que, felizmente, foi muito reconhecido e premiado. Assim criamos a Novelo Filmes, onde trabalho com minhas sócias Ana Paula Mendes e Maria Augusta V. Nunes, juntas desde a faculdade.
O QUE A ILHA TE DÁ COMO ARTISTA E O QUE ELA TE EXIGE?
“A ilha me dá natureza, dinamismo, uma rede afetiva muito forte. Ao mesmo tempo, me exige resiliência.”
Há um descaso profundo com o audiovisual, apesar do seu potencial econômico, cultural e social. Para uma cidade que teve o primeiro fundo municipal de cinema do país, é frustrante ver a falta de políticas estruturadas.
COMO VOCÊ ENXERGA O MOMENTO DO CINEMA EM SANTA CATARINA?
Há talentos, empresas, cursos, histórias... o que falta é reconhecimento interno e um sistema consistente de fomento que envolva todas as etapas do audiovisual. Enquanto outros lugares avançam, seguimos perdendo oportunidades. Fomentar o audiovisual independente é investir no presente e no futuro.
EM QUE MOMENTO UM FILME REALMENTE COMEÇA A EXISTIR PARA VOCÊ?
Quando é assistido. O filme ganha vida na fruição. Um filme guardado, não visto, ainda não viveu plenamente. Meu fascínio está no que o cinema é capaz de provocar nas pessoas e na sociedade a partir da emoção.

COMO É O SEU PROCESSO CRIATIVO?
Estou sempre em observação: debates sociais, filmes, leituras, exposições, caminhadas pela cidade. Anoto ideias e as deixo amadurecer. Em algum momento, elas precisam se transformar em projetos profissionais, com pesquisa, equipe e fomento. Meu cinema tem uma marca pessoal, mas é profundamente coletivo.
O QUE SIGNIFICA “DAR CERTO” COMO CINEASTA?
Sempre encarei o cinema como ofício. Sucesso é poder exercê-lo com constância, liberdade e autenticidade, com recursos adequados, equipes bem remuneradas e filmes que encontrem seu público. Um grande desafio, já que vivemos em contextos onde o audiovisual não é reconhecido como potência.
O LONGA “VIRTUOSAS” MARCOU UMA VIRADA NA SUA TRAJETÓRIA. O QUE MUDA APÓS ESSE RECONHECIMENTO?
Mesmo com o reconhecimento da qualificação para o Oscar em 2021, com o curta “Baile”, “Virtuosas” marca uma grande virada, tanto por ser um longa de ficção, quanto por alcançar 190 países com o Prêmio Netflix. Essa difusão ampliou o alcance do nosso cinema, facilitando a atração de público, talentos e recursos para novos projetos.

SEU NOVO FILME, “UM DIA EXTRAORDINÁRIO”, ESTÁ ATINGINDO UM PÚBLICO MUITO AMPLO. O QUE VOCÊ ESPERA QUE ELE DESPERTE EM QUEM ASSISTE?


Para quem não conhece, “Um Dia Extraordinário” é um drama familiar, com toque de sci-fi (adoro mescla de gêneros), filmado aqui em SC. Espero que ele desperte um senso de pertencimento, especial ao público catarinense, mas que emocione o Brasil como um todo. O filme é uma coprodução entre a Globo Filmes, a NSC TV (apoiadora) e, claro, nós da Novelo Filmes, criando um formato inédito aqui para o estado. Difundir nossos talentos, paisagens, costumes e sotaques catarinenses para o Brasil é muito satisfatório.
QUAIS SÃO SEUS PRÓXIMOS PROJETOS?
Neste momento, aguardando finalização ou estreia em festivais, temos sob minha direção os longas: “Casarão” (ficção de terror) e “Gugie” (documentário sobre a artista plástica e grafiteira homônima). Já para este ano, filmaremos os longas: “Recanto” e “A Grande Dívida”; fora os projetos que atuo como produtora e montadora. É coisa!



