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essa mulher está me olhando

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

É assim que Cadu Zahran, publisher do OFFLINE, se refere a um dos murais de Danka Umbert, no final da Osni Ortiga, a caminho da Lagoa da Conceição. A força do olhar daquela musa virou brincadeira recorrente na redação e também o ponto de partida para a escolha do artista desta edição. Espalhadas principalmente pelo sul e leste da ilha, suas obras fazem parte do cotidiano de Florianópolis. Abaixo, um relato em primeira pessoa de sua própria história

Antes que me perguntem, Danka é meu nome mesmo. Com o tempo, ele virou marca, assinatura, identidade. Muita gente lembra do nome antes da obra, eu gosto disso. É simples, direto, diferente. Combina comigo. É assim que eu me apresento pro mundo.


Sou ilhéu, com orgulho. Acredito que esse contato direto com a natureza de Floripa me atravessou e moldou não só o meu olhar, mas também o meu corpo, meu ritmo e a minha forma de existir. A ilha me ensinou a observar, a sentir, a escutar. Eu nunca escolhi ser artista, mas fui entendendo, com o tempo, que não existia outro caminho possível. A arte sempre esteve ali, pedindo espaço, ocupando tudo: meus cadernos, minhas pranchas, camisetas pintadas à mão, os muros do bairro.


Desde criança, desenhar era quase uma necessidade física, um jeito de entender o mundo.

Fonte: Renato Leal
Fonte: Renato Leal

Minha primeira pintura na rua foi aos 17 anos, em 2007. Dois amigos, Driin e Paulo Gouvea, me incentivaram. Eles sempre diziam que a arte urbana era o melhor cartão de visita para qualquer artista. Foi assim que nasceu, se me lembro correto, uma pintura com dois rostos fundidos, misturados a alguns elementos surreais.


Mas o clique, de fato, só aconteceu aos 18 anos, quando fiz uma exposição. Vendi uma ou duas telas. Me lembro muito bem da sensação. Foi ali que eu percebi que aquilo podia ser mais do que expressão: podia ser vida. Aquela sensação ficou no corpo e nunca mais saiu. Eu queria viver das minhas obras.


Já fiz colaborações com marcas como Audi, Red Bull e Corona, mas um trabalho que me toca profundamente é um mural, de quase 100 metros, que fiz em Lisboa, em 2023. Levei elementos e representações do Brasil para um país que historicamente explorou e dizimou povos indígenas brasileiros.


Viver de arte em Florianópolis, para mim, é resistência. Ainda sinto que a cidade é um pouco careta no consumo de arte e cultura, se comparada a lugares como São Paulo ou Rio; mas é minha cidade, respeito ela como é, sempre continuando a ocupar os espaços possíveis. Ter trabalhos na rua, feitos de forma independente, é reflexo disso.



Quando a arte ocupa o espaço público, tudo muda. A obra deixa de ser objeto e vira experiência. Ela passa a fazer parte da cidade, da memória das pessoas. O sol altera as cores, o vento desgasta, as conversas ressignificam. A obra evolui sem mim.


Minhas musas nunca foram pessoas específicas, nunca foram rostos, são forças, fragmentos ancestrais: do feminino selvagem, do mar, da mata, daquilo que desperta algo emocional em mim. Muitas vezes encontro esses arquétipos em mulheres reais, mas o que eu retrato, no fundo, são sentimentos revelados, principalmente, através dos olhares. Minha linguagem nasce dessa pulsação intuitiva. Existem símbolos que sempre retornam: panteras, figuras femininas, grafias, natureza. Eles fazem parte do meu vocabulário visual.


Quando alguém cruza com minhas obras eu desejo que sintam essa força, essa ancestralidade, essa coragem, essa vida. Que consigam enxergar, ali, um instinto, um chamado, um reflexo. Se uma obra minha toca alguém por dois segundos, já valeu.


A produção das minhas obras também surge através de um processo emocional e intuitivo. Eu gosto de deixar as referências fluírem, experimentar técnicas, testar caminhos. Quem acompanha meu trabalho percebe: estou sempre criando novos conceitos, explorando materiais diferentes, mudando.


Minhas influências vêm do jeito que eu vivo, dos filmes que assisto, da música que escuto quase de forma obsessiva, do surf, das viagens, das relações, do convívio com outros artistas. Nesse meio, a gente absorve muitas linguagens diferentes.


A arte é o meu jeito de existir. É como eu amo, como eu curo, como eu lembro e como eu esqueço. É a forma que encontrei de conversar com o mundo. Tudo o que faço — cada mural, cada pintura, cada série, cada personagem — é uma tentativa de traduzir aquilo que não consigo colocar em palavras. Bem no fim, minha obra é a minha vida aberta na parede.

Confira no jornal a arte colecionável e clique aqui para ver outros trabalhos do artista!


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