a sabedoria viva das crianças guarani
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Enquanto a Grande Florianópolis se expande em asfalto e tecnologia, prédios e telas, uma resistência colorida pulsa nas margens da BR-101. Na aldeia Tekoá Yynn Moroti Wherá (“Reflexo das Águas Cristalinas”), em Biguaçu, a infância é o centro de um universo sagrado. Através do espaço Kyringue Arandua, a cultura Guarani irradia seus ensinamentos e prova que proteger o brincar é, na verdade, proteger a sociedade


O nome “Kyringue Arandua” revela uma cosmovisão onde o conhecimento nasce do corpo e da convivência. “Aprender é um caminho vivido na relação com a terra e com os mais velhos”, explicam as realizadoras do projeto, Silvana Minduá e Karina Figueiró. Para os Guarani, as crianças são deuses e a infância é um tempo sagrado, onde o brincar livre é o fundamento da educação.
No Kyringue Arandua, construído coletivamente com bioconstrução, as crianças trocam as telas pelo barro, pelo fogo e pela mata. “O brincar livre é onde o aprendizado acontece de forma mais íntegra”, afirmam. Subir em árvores ensina coragem, modelar o barro fortalece o vínculo com a mãe-terra e o silêncio, tão valorizado, ensina a escuta profunda — um contraste marcante com o ritmo acelerado das cidades.

RESISTÊNCIA EM TERRITÓRIO FRAGMENTADO

Com grande luta de 2000 à 2003, as lideranças conseguiram a demarcação do território da Aldeia Yynn Moroti Wherá. “Conforme a história contada pelos não indígenas, a aldeia possui pouco mais de 30 anos, mas sabemos que o povo Guarani está aqui há muito mais tempo - apesar do território ter sido delimitado apenas em 1999 e homologado em 2003”, conta Silvana.
A aldeia se organiza de forma coletiva: há professores indígenas, agentes de saúde e pesquisadores universitários que transitam entre a aldeia e a cidade, levando saberes ancestrais para dentro da academia. Mas o desafio é constante, a pressão urbana e o sedentarismo trazido pelos eletrônicos ameaçam a oralidade. “Manter a língua viva é manter viva a forma de sentir o mundo”, ressalta Silvana. O Kyringue Arandua é um espaço de memória viva, encontro e fortalecimento da cultura da infância e do patrimônio imaterial Guarani.
O LEGADO DOS ANCIÃOS


A força da Tekoá Yynn Moroti Wherá está enraizada em figuras como o saudoso Seu Alcindo Wherá Tupã, liderança espiritual que viveu 115 anos, e Dona Rosa Potydja, guardiã dos sonhos e das curas. Hoje, essa linhagem de força feminina continua com a cacica Celita Antunes (Djatchuka), que une a gestão política à preservação da espiritualidade e do artesanato. A arte, aliás, é o fio que une os mundos. Cestaria, cerâmica, grafismos não são apenas objetos de venda, mas ferramentas de cura, de comunicação. “Para fazer uma obra de arte é preciso viver um amor”, dizem os jovens da aldeia.

UM CHAMADO PARA A CIDADE
O que a infância Guarani pode ensinar a quem vive em Florianópolis? Talvez a lição mais urgente seja que educar não é acelerar ou controlar, mas cultivar vínculos. A relação da aldeia com a cidade é de respeito, com limites claros contra o olhar que tenta transformar a cultura em objeto de consumo.
“O brincar livre é onde o aprendizado acontece de forma mais íntegra”, afirmam. Subir em árvores ensina coragem, modelar o barro fortalece o vínculo com a mãe-terra, e o silêncio, tão valorizado, ensina a escuta profunda.

Ao defenderem a língua, a casa de reza (Opy) e o direito de brincar na terra, os Guarani estão defendendo a vida de todos. Como ensinam os mais velhos: “A palavra não mora no papel, ela vive no coração”. Enquanto houver uma criança correndo descalça na Yynn Moroti Wherá, o reflexo das águas continuará brilhando, lembrando-nos de que o futuro, para ser sustentável, precisa ser ancestral.
GLOSSÁRIO GUARANI
NHANDEREKO: O “modo de ser” Guarani. É o conjunto de princípios, espiritualidade e costumes que regem a vida coletiva.
TEKOÁ: O lugar onde se vive o modo de ser Guarani; a aldeia, o território sagrado.
OPY: A casa de reza. É o coração espiritual da aldeia, considerada a “primeira escola” da comunidade.
ARANDUA: Sabedoria. Um saber que não se separa da vida, da escuta e da relação com a terra.
JURUA: Termo usado para se referir aos não indígenas.
O PROJETO KYRINGUE ARANDUA
O que é: Um centro de propagação da cultura da infância e do patrimônio imaterial Guarani.
Reconhecimento: Premiado pelo IPHAN (Prêmio Rodrigo de Melo, 2025) e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SC, 2025) pela sua bioconstrução pedagógica.
Ações: Realização de festivais, pesquisas sobre o brincar tradicional e publicações de livros bilíngues (Português-Guarani).





