top of page

tesouros de Florianópolis

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

cuidar das restingas é cuidar de nós

Por Erika Guisande Rojas

Vivemos em Florianópolis, uma cidade que, marcada pela convivência intensa entre pessoas, natureza e turismo, tem, todos os anos, suas áreas naturais ocupadas por aqueles em busca de lazer, descanso ou o simples contato com o ambiente costeiro. Esse movimento, parte da identidade da ilha, nos convida a refletir sobre como usamos os espaços naturais que tornam Florianópolis um lugar único.


Entre esses espaços estão as restingas, frequentemente confundidas com áreas vazias de faixas de areia. Na verdade, elas são ecossistemas vivos, essenciais para o equilíbrio ambiental da cidade. Quando caminhamos pelas praias, seja passeando com nossos animais de estimação ou não, nossas escolhas impactam diretamente esses ambientes.


Feita de um tipo de vegetação que cresce em áreas arenosas do litoral, formada pela ação do mar, suas plantas são adaptadas ao solo pobre em nutrientes, à alta salinidade e aos ventos fortes. Para nós, que vivemos na ilha, a restinga funciona como um verdadeiro berçário de vida, uma barreira natural de gramíneas, arbustos e árvores que protegem a costa.


Nós dependemos das restingas mais do que imaginamos. Elas ajudam a fixar as dunas, reduzindo a erosão causada tanto pelo vento quanto pelas ressacas, filtram a água da chuva e contribuem para o reabastecimento dos lençóis freáticos. Além disso, abrigam uma biodiversidade rica: aves migratórias, pequenos mamíferos, répteis, anfíbios, insetos, assim por diante, encontram nesses ambientes locais seguros para alimentação e reprodução. Quando essas áreas são degradadas, todo o equilíbrio natural da ilha é afetado.


Nosso modo de lazer também precisa ser pensado com responsabilidade. Muitos de nós passeamos com pets pelas praias. É claro que estes animais fazem parte da família, nos proporcionam companhia e bem-estar, no entanto, quando circulam sem supervisão, entrando em áreas de preservação como as restingas, podem causar impactos não intencionais à fauna silvestre.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes
“Ao agir com responsabilidade, garantimos que a ilha continue sendo um lugar de beleza, equilíbrio e vida para as gerações que virão.”

Sem controle humano, cães domésticos podem se tornar ferais, retomando comportamentos instintivos de caça. Estudos científicos, como os realizados por Galetti & Sazima, mostram que esses animais predam aves, roedores e outros vertebrados silvestres. Mesmo quando não há caça direta, o simples odor dos cães pode afastar espécies nativas, alterando hábitos naturais da espécie, criando o que os pesquisadores chamam de “paisagem do medo”.


Nós também precisamos considerar outros riscos envolvidos nessa interação. Ao acessar áreas naturais, nossos próprios animais ficam expostos a picadas de cobras, animais peçonhentos, parasitas e doenças do ambiente silvestre. Além disso, cães podem transmitir enfermidades como raiva ou cinomose para animais silvestres, colocando em risco populações já vulneráveis. As fezes não coletadas podem contaminar o solo com parasitas, afetando, inclusive, a saúde humana, como ocorre no caso do bicho geográfico.


Para conciliar lazer, turismo e conservação ambiental, Florianópolis avançou na regulamentação do uso das praias. A Lei Complementar no 785, de 08 de janeiro de 2026, permite a presença de cães apenas nas áreas devidamente sinalizadas. Atualmente, há trechos autorizados na Praia do Campeche, no sul da ilha, e na Praia dos Ingleses, no norte.


Nós precisamos lembrar que as áreas de preservação permanente, como as restingas, permanecem protegidas por lei, não devendo ser acessadas. Respeitar essas regras é uma forma de cuidado coletivo com a cidade.


Com atitudes simples, todos nós podemos fazer a diferença. Manter nossos pets sempre na guia, respeitar as áreas permitidas, recolher as fezes, não abandonar animais, comunicar a presença de cães soltos em áreas protegidas são ações que ajudam a evitar danos ambientais.


Quando protegemos as restingas, cuidamos de Florianópolis, de sua biodiversidade e de nós mesmos. Ao agir com responsabilidade, garantimos que a ilha continue sendo um lugar de beleza, equilíbrio e vida para as gerações que virão.


Erika Guisande Rojas é bióloga, mestre em ecologia e doutora em biodiversidade pela Unesp, além de amante da natureza, mãe, surfista e moradora do Rio Tavares há aproximadamente 10 anos. Atualmente atua como professora de biologia
bottom of page