samba da antonieta
- larissashanti
- 16 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
um sonho palpável
Por Pedro Areas
Era um mês de novembro, desses quentes em demasia. Eu retornava da Cidade Maravilhosa para a Ilha da Magia em um daqueles voos promocionais, apertados, de antes do galo cantar. Era um sábado de mais uma exaustiva semana. Em menos de dez minutos, peguei num sono profundo, de roncar.

De súbito, estava numa roda de samba com alguns bambas da pesada, em um boteco do subúrbio carioca, como se fazia antigamente. A mesa era uma porta de madeira descascada, com dois cavaletes instáveis, e as cadeiras dos músicos eram engradados de cervejas distintas, com cores diversas. Estava todo mundo lá, batucada de bamba, na cadência bonita. Sem microfones, sem palco. Povão em volta, cantando e batendo na palma da mão.
No intervalo, perguntei em alto e bom som se alguém ali poderia me ajudar, me salvar. Abstinência. “Vocês sabem se tem algum samba bom, como esse, lá em Floripa?”. Beth Carvalho foi a primeira a manifestar-se: “Menino, o samba da Antonieta é um patrimônio cultural, você mora em Marte? Como ainda não conhece? Vem ver o meu povo cantar, vem ver o meu samba, é assim, amor, você pode provar, depois você conta pra mim”.
Zé Keti olhou-me e cantarolou: “Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro, mas naquela esquina especificamente, da rua Vitor Meireles com a Nunes Machado, eu fico por muito mais tempo”.
Jovelina Pérola Negra relatou-me que “parece a feirinha da Pavuna, numa deliciosa e democrática confusão”.

Paulinho da Viola orientou-me: “Bebadosamba, sem moderações, meu bem. Sabe aquilo tudo que a rapaziada estava sentindo falta? Lá tem”.
Zeca Pagodinho, que sempre deixou a vida levá-lo, guiou-me: “Vá lá logo, porque camarão que dorme a onda leva, meu cumpadi”.
Nelson Sargento afirmou-me que “o samba agoniza, mas não morre, porque essa turma do Samba da Antonieta sempre lhe socorre, aos sábados, antes do suspiro derradeiro”.

Martinho da Vila, em marcha lenta, pediu-me para “apreciar com calma, devagarinho, como um bom vinho, e que, se eu encontrasse a Madalena, para mandar-lhe um beijo bem carinhoso”.
Cartola balbuciou-me que “a Alvorada, lá também é uma beleza, como no morro de Mangueira, sem brechas para a tristeza”.
João Nogueira assegurou-me que “o clube do samba se faz representado pela qualidade da mesa, e que lá o espelho não quebra, jamais. Não precisa ter medo”.
Arlindo Cruz norteou-me para “o bom chopp da Bugio e para o kibe da tradicionalíssima Kibelândia. Aí sim, moleque, pacote completo, que nem lá em Madureira”.
Almir Guineto aconselhou-me: “Deixe de lado esse baixo astral, vá lá hoje, que tem dança do Caxambú, saravá Jongo, samba de terreiro, maxixe, partido alto, sambas antigos, samba dos compositores locais e muito mais. Erga a cabeça e enfrente o mal!”.
Com olhar vago e semblante pasmo, olhei para a parede do boteco e me perdi nos pensamentos, me perguntei quem era a Antonieta…
Luiz Antônio Simas achegou-se e, como um bom historiador deve fazer, instruiu-me: “Antonieta de Barros foi uma professora, jornalista e deputada que tinha como sua maior marca a defesa pela educação em Santa Catarina. Aliás, foi a primeira deputada negra do país. Pioneira. Uma grande Guerreira. Em fevereiro de 2022, dois amigos músicos, Dôga e o Raphael Galcer, montaram um projeto lindo em homenagem a ela. O local ideal para essa homenagem aos bambas e à Antonieta acontecer, seria em frente à escola municipal que leva seu nome, mas que hoje já não…”.

Com um leve tapa no ombro esquerdo fui acordado por uma voz irritante e educada:
— Senhor, chegamos em seu destino, Florianópolis.
— NÃO, NÃO! O Simas estava me contando sobre a roda…
Era uma aeromoça educada, pálida pelo excesso de maquiagem e pelo susto que lhe preguei.
— Você conhece a Antonieta?
Ela respondeu que não era dali, morava em São Paulo e que eu era o último passageiro na aeronave.
Entrei no táxi, pedi para o motorista tocar para o centro, sem pesquisar no Google, e perguntei se ele conhecia o samba. Não, também. Chegando no local, com certo temor, deparei-me com algo real, uma gostosa batucada ao fundo. Encostei devagarinho.
Estavam na roda a Jandira e sua filha, Clara, com vozes doces e firmes, de quem se garante no babado. Galcer, e suas mãos de mágicas, no 7 cordas. Jean e seu cavaco de ouro, com afinação de bandolim. Fabrício regendo a cozinha no pandeiro e na caixa. Dôga e toda sua elegância na conga. Banana no surdo, batimentos firmes de um coração valente. Giovana chorando feliz na cuíca. E o Xuxa trambicando naquele reco clássico de madeira.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Impossível não se emocionar.
Não era um sonho. Era um sonho. Uma roda de samba real, palpável. Com o povão em volta, cantando e batendo na palma da mão. Obrigado, Antonieta de Barros, obrigado a todos os bambas que tanto me ensinaram, estavam todos lá, misturados e bem representados.
Tomara que a aeromoça não venha novamente me importunar. Sem tapas no ombro, por favor, porque sonhar não custa nada, e o meu sonho é tão real…



