Floripa mil grau - a cidade sem filtro
- larissashanti
- 16 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Surgiu do improviso, no meio de uma greve de ônibus em Florianópolis. Os fotógrafos registraram os motoristas de forma cômica e, de repente, aquilo virou combustível para memes que ninguém sabia onde publicar. Foi assim que nasceu a página Floripa Mil Grau, no Facebook.
A cidade estava pronta para rir e para se ver refletida, mesmo que com ironia. Quatorze anos depois, o meme virou linguagem, virou crônica, virou negócio, equipe, estrutura. Mas não perdeu o instinto de rua.
Hoje, o Floripa Mil Grau tem 23 integrantes, trabalha com os principais anunciantes do país e do mundo, atinge mais de 32 milhões de contas todos os meses e soma cerca de 340 milhões de visualizações. Mas continua, de algum jeito, sendo aquela esquina digital onde a cidade se reconhece: sem filtros, com ironia, afeto e uma dose de caos
COMO É O PERFIL DA EQUIPE HOJE?
Tem de tudo. Da menina prodígio que descobriu um asteroide e quer ser astronauta, ao integrante que reprovou no teste da carteira de motorista, tem dificuldades na escola e prefere passar o tempo livre com gente simples, falando de vida diária. A gente tenta dar espaço para esses dois mundos: o que discute economia, cultura, transporte público, e o que fala do espelho da casa que está enferrujando, do portão que não abre, do cupim que entrou pela janela.
Floripa é isso: o macro e o miúdo. E todo mundo anda no mesmo ônibus, afinal, estamos na mesma praia.

COMO VOCÊS CONSEGUEM SE MANTER TÃO IMEDIATISTAS E POR DENTRO DAS NOTÍCIAS?
O Floripa Mil Grau não é só nosso. Ele é construído com quem vive aqui. As pessoas enviam vídeos, fotos, relatos. Se ninguém mandasse nada, não teríamos metade do conteúdo. Ao longo do tempo, a cidade virou um organismo vivo, uma consciência coletiva. A gente cria um vínculo com o público, mas o público também cria o conteúdo. É uma troca.
COMO VOCÊS LIDAM COM O FEEDBACK DO PÚBLICO?
Produzir conteúdo é viver na duplicidade entre encantar e incomodar. Às vezes o post emociona, noutras provoca. O elogio mais apaixonado pode virar decepção. Ou o contrário, o hater mais duro, depois de amadurecer, volta com afeto e até vergonha do que escreveu.
Aprendemos com quem realmente pensa no impacto a longo prazo. Mas, o mais importante é que, na equipe, nos damos o direito de ser humanos: errar, agir por impulso, mudar de opinião. Aprendemos a respeitar nosso processo de aprendizagem, e o erro faz parte.
TEVE ALGUM ERRO MARCANTE NESSE CAMINHO?

Sim. Antes de 2014, publicamos sobre as “piscinas naturais" da Barra. Na mesma época, o lugar lotou e aconteceram afogamentos. Pessoas nos alertaram: “não chama aquilo de piscina”. O nome já existia, não começou com a gente, mas entendemos o peso da palavra. Desde então, sempre lembramos: “ali é costão, é perigoso”. Erramos, ouvimos e aprendemos.
PORQUE O ANONIMATO DOS INTEGRANTES DA EQUIPE, ISSO É UMA PROVOCAÇÃO
OU UMA MEDIDA DE SEGURANÇA?
As máscaras nasceram na primeira entrevista. A gente sabia que explodir e fracassar depois poderia destruir vidas reais. Não queríamos virar celebridade, nem carregar uma narrativa no rosto de alguém. Com o tempo, viraram mistério. Hoje, quem chegou depois já não tem tanta necessidade de se esconder, então parte da equipe tira, parte mantém.
O mais importante é que a máscara nos lembra: Floripa Mil Grau pode ser qualquer pessoa. Não somos autoridades. Somos uma interpretação da cidade. O público é quem precisa pensar se concorda ou não.
E ISSO JÁ TROUXE PROBLEMAS?
Muitos. Alguns lugares proibiram as máscaras, redes já bloquearam nosso perfil. Uma vez, gravando uma campanha da Uber no Morro da Cruz, homens armados ameaçaram a equipe ao ver os integrantes mascarados filmando. Saímos ilesos, mas ficou marcado. Mesmo assim, a máscara virou símbolo, inspirando outros perfis e empresas a usarem personagens, em vez de rostos.
DEPOIS DE TANTOS ANOS NOTICIANDO FLORIANÓPOLIS, QUAL O SENTIMENTO
E A VISÃO DE FUTURO QUE VOCÊS TÊM PARA A ILHA?
Floripa reúne pessoas de diferentes lugares do mundo e desperta nelas um sentimento de propósito, como se aqui pudessem contribuir com seu destino. Muitos sentem essa energia única da ilha. Os moradores têm um perfil característico: desejam menos construção, mais preservação e buscam manter viva a memória da cidade de antigamente. Ao mesmo tempo, pensam de forma prática no desenvolvimento econômico, na chegada de novos moradores e em como garantir que a vida prospere aqui — sempre com a preservação como base, especialmente diante dos desafios da gestão pública no Brasil. Viver em Florianópolis é ser constantemente surpreendido pela natureza e pelas pessoas. Também é entender que a ilha apresenta grandes desafios e que é preciso colaboração para superá-los coletivamente.
ENTRE TANTAS HISTÓRIAS SURPREENDENTES, TERIA ALGUMA QUE VOCÊS GOSTARIAM DE COMPARTILHAR CONOSCO?
As que não conseguimos terminar de contar: pessoas anônimas, bem-intencionadas, que dão o seu melhor todo dia. O motorista que espera o passageiro, o cobrador que cumprimenta um por um.
A ilha tem gente gigante (Pedro Barros, Yago Dora, empreendedores) mas também quem refloresta, limpa praias, segura a onda no bairro: “pessoas em outro nível de altruísmo”. Esse é o verdadeiro “mil grau”.



