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Yago Dora: o gigante da ilha

  • larissashanti
  • 16 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura
Por cadu Zahran

Ouvir Yago Dora falar sobre sua trajetória revela uma serenidade rara. Mesmo no meio do furacão que virou sua vida após o título mundial, ele mantém um tom centrado, maduro e tranquilo, como quem lida com a pressão desde sempre. Sua postura reflete uma fidelidade única às suas raízes e ao estilo de vida da ilha. Para alguém apaixonado por surf, como eu, Yago encarna uma autenticidade moldada pela cultura do esporte e pela força da base familiar, que o mantém conectado ao mar e à própria essência. Sua chegada na ilha, no início da infância, marca o começo dessa história, dessa paixão, desse sonho. Foi Floripa quem fez a mágica, plantou nele a semente do surf. Entre o futebol e o mar, a energia de moleque foi virando disciplina e resiliência, fundamentos da trajetória que viria. Aos 14 anos, sentiu que o surf poderia ser mais que diversão. Treinado pelo pai na Aprimore Surf, ao lado de feras como Adriano de Souza, transformou a pressão em rotina. No Pico da Cruz, em Floripa, encarou mares pesados que o prepararam para o mundo, levando-o ao topo em Fiji. Foi lá, quando o mar silenciou, anunciando o título mundial de 2025, que o menino que chegou aos quatro anos na ilha viu aquele sonho realizar-se. Para o futuro, mantém “a vontade de se provar” viva no peito, comprovando que a ilha segue formando gigantes



COMEÇO, INFÂNCIA E FUTEBOL


  • Como foi sua infância? Você já era obstinado pelo esporte?


Sempre fui muito apaixonado por tudo o que eu fazia. No futebol, antes do surf, eu passava o dia inteiro jogando, era completamente viciado. Se não estivesse em uma quadra ou em um campo, estava dentro de casa driblando cadeiras, sofá, fazendo golzinho na sala. Quando faço algo, respiro aquilo e dou meu melhor. Acho que sempre fui assim.


  • Você jogava campo ou salão? Qual era sua posição? E ainda joga?


Jogava futsal e campo, alternava, mas a posição que eu mais ficava era zagueiro. Quando pequeno, preferia o futsal, afinal, o campo parecia infinito. Com o tempo, fui gostando mais e mais do campo. Ainda amo futebol, mas não jogo mais pelo risco de lesão. A gente sabe que qualquer bobagem pode machucar o joelho ou o tornozelo, então evito.


  • Traçando um paralelo entre a ansiedade eletrizante de um jogo de futebol da infância, e a pressão de remar em um mar de consequências para decidir o rumo da sua carreira como foi agora em Fiji, quais lições ou influências daquela época no futebol você acha que foram decisivas para te impulsionar até onde chegou?


Mesmo criança, os campeonatinhos pareciam gigantes. Na minha perspectiva de moleque, era a coisa mais importante do mundo. Existia pressão por desempenho e fui aprendendo a lidar com isso. Hoje, a competição virou rotina. Às vezes bate o nervosismo, mas você normaliza. Sabe que terão baterias mais tensas que outras. Com o tempo, isso vira parte do processo.


  • No começo, crescendo na ilha, cidade que não era sua ainda, como foi a adaptação? Alguma memória marcante?


Eu era muito pequeno, tinha quatro anos, então não tive uma adaptação difícil. Não lembro muito dos primeiros anos, mas lembro da escola, de fazer amizade rápido... muitos desses amigos continuam ao meu lado até hoje.


  • O que você aprendeu em casa que carrega para dentro d’água e para a vida?


Minha família sempre foi muito presente. Passávamos bastante tempo juntos. Minha personalidade foi muito formada ali, dentro de casa. Claro que outras influências também moldaram quem eu sou, mas ter uma base familiar forte é algo que sempre carreguei comigo e levarei para a vida toda.



  • Ao crescer no ambiente da Aprimore Surf, criada pelo seu pai, você conviveu de perto com outros jovens surfistas cheios de talento. Como era essa dinâmica de amizade e competição entre vocês? De que forma essa mistura moldou quem você é hoje, como atleta e como pessoa?


Foi muito especial crescer com um pai treinador e com acesso a surfistas de alto nível antes mesmo de me profissionalizar. Isso me guiou muito. Conviver com o Lucas Silveira, o Ricardinho dos Santos, depois o Adriano de Souza… esse contato foi fundamental para formar o atleta que sou hoje.


O CAMPEONATO MUNDIAL DE SURF (WCT)

O Circuito Mundial de Surfe (WCT) acontece todos os anos e reúne os melhores surfistas nas melhores ondas do planeta. Em 2025, foram 12 etapas realizadas em janelas de tempo flexíveis, afinal, o surf depende da natureza. Em cada etapa, os atletas acumulam pontos que definem o ranking mundial. As disputas acontecem em rounds e baterias, onde os juízes analisam técnica,

radicalidade e fluidez das manobras. Em 2025, no final da temporada, os cinco surfistas melhores

classificados chegaram ao dia decisivo, realizado na onda de Cloudbreak, em Fiji. Yago venceu a grande final, conquistando o título mundial.



O SURF


  • Quando você sentiu que o surf poderia virar profissão?


Essa virada aconteceu quando eu tinha uns 14 anos. Foi quando começamos a correr atrás de patrocinador, alguém que acreditasse em mim, para viajar e competir mais. Assim nasceu a ideia de que o surf poderia virar minha vida.



  • Já pensou em desistir em algum momento?


Do surf, nunca. Sempre fui e sigo apaixonado. Mas em diversos momentos já pensei em desistir da competição. Minha carreira, no início, fluía naturalmente para o freesurf e dava certo. Mas eu queria me provar na competição, explorar o meu lado competitivo. Não conseguir botar o surf que eu já tinha familiaridade dentro das baterias, em muitos momentos, me frustrou. Me frustrava perder. Mais de uma vez, a dúvida surgiu na minha cabeça: “será que eu sigo mesmo esse caminho?”. No freesurf talvez fosse mais fácil. Mas a vontade de competir falou mais alto, então insisti.

  • Você tem mais medo dentro ou fora d’água?


Depende. Às vezes sinto medo antes de entrar. Aí entro e percebo que está tudo bem. Outras vezes é o contrário: acho que está tranquilo e o mar surpreende. O oceano é imprevisível.

  • Tem algum ritual antes de competir?


Meu ritual é básico. Gosto de acordar bem cedo, diariamente. Nos dias de competição, antes de amanhecer, faço uns 20, 30 minutos de yoga, com respiração, meditação e alongamento. Depois, entro no mar para pegar uma ou duas ondas, só para sentir a água, pisar na prancha. Antes da bateria, aqueço ouvindo música e termino com uma oração, onde peço proteção, conexão com o mar e que Deus guie minhas decisões.


  • E fora do surf? Tem algum hobby?


Sempre fui apaixonado por vários esportes, mas evito muitos por causa do risco de lesão. O que mais faço, hoje, é basquete. Claro, sem jogar “valendo”, brinco mais de arremesso na cesta. Sem riscos.


  • Que lugar do mundo mais te desafia? Alguma onda de Floripa te preparou?


Existem muitas ondas desafiadoras no circuito, bem diferentes das que temos aqui. Mas os mares mais desafiadores que surfei em Floripa foram na frente de casa mesmo, no Pico da Cruz. Quando entra ondulação grande, o mar fica pesado, difícil de passar a arrebentação. É um tipo de condição que te testa. Talvez seja o que temos de mais semelhante com o que encaramos lá fora.


  • No freesurf: fish ou pranchinha? Direita do Campeche ou esquerda da Joaca?


No freesurf, fora de temporada, gosto muito de fish, porque ela deixa tudo mais divertido, menos focado em performance. Prefiro a direita do Campeche. A Joaquina tem mais constância, claro, mas de qualidade, fico com o Campeche.



  • Como a cultura do surf da ilha te ajudou?


Floripa respira surf. Tem muitas praias, muitas opções, ondulações diferentes, ventos diferentes. Isso foi precioso. Todo dia dá pra achar um lugar para surfar. É um privilégio enorme ter crescido em um ambiente assim.


INFLUÊNCIAS E REVERÊNCIAS


  • Você homenageou o Ronaldo com o corte Cascão. De onde vem essa admiração?


O Ronaldo era meu ídolo no futebol quando eu era criança. Tenho uma memória afetiva do Penta. Eu tinha seis anos, mas lembro das pessoas felizes na rua comemorando, a galera pintada de verde e amarelo, dos dois gols dele na final e, claro, do cabelo do Cascão. Fiz uma promessa nas finais do Circuito Mundial de Surf de que, se eu ganhasse, teria que fazer o corte do Cascão em homenagem ao número 9 do Ronaldo.


  • Seu pai foi uma referência enorme. Hoje, já consolidado como surfista e também como pessoa, de que maneira essa herança familiar ainda te guia? E o que você acredita que virou uma marca totalmente sua, construída pela sua própria vivência?


Tive muita sorte de ter um pai surfista e, depois, treinador. Ele entendia a técnica, sabia filmar, assistia os vídeos comigo, depois me corrigia, discutia… me fez evoluir. Isso foi fundamental para chegar onde cheguei, não só de conquistas em si, mas no nível que consegui alcançar no surf. Com o tempo, é natural

amadurecer e criar a própria marca, se separar da imagem dos pais. Hoje, aprendendo mais sobre mim, conquistando minha individualidade, sinto que encontrei meu jeito, minhas decisões, minha consciência. Esse processo tem sido muito bom.


  • Sempre vemos a sua equipe durante a transmissão das etapas do mundial e o seu manager Daniel Cortez é figura onipresente. O que marca essa parceria?


O Cortez está comigo há, mais ou menos, 14 anos. Ele é apaixonado por surf, vive isso comigo. É muito bom ter alguém assim do lado, que entende o mercado, entende o esporte. Seguimos aprendendo um com o outro. A estrada muda, a gente se adapta. Nossa trajetória tem sido especial.


  • O Rio Tavares é berço do seu amigo e multicampeão mundial de skate Pedro Barros. Agora, você também conquista um campeonato mundial e se lança entre os grandes da história do surf. Como você enxerga a influência de ter crescido nesse ambiente? E o RTMF, como esse movimento se dá no skate e no surf por aqui?


Crescer no Rio Tavares, ter esse contato com o skate, foi muito significativo. Conheci o Pedro quando eu tinha 13 para 14 anos e ele já era um monstro, um ídolo. Nesta época, ele já estava ganhando mundiais de skate, era uma referência, não só no nosso bairro, mas no mundo do esporte. Também tive contato com o Vi Caquinho, o Leo Caquinho, toda a galera que frequentava o Rio Tavares, a Hi Adventure. Surfar e andar de skate com eles marcou a minha personalidade e influenciou meu estilo até hoje. Eu sempre tirei muita inspiração do skate.


O TÍTULO


  • Yago free surfer, Yago world champion. Em qual momento sentiu que poderia sair de um universo e vencer no outro?


Quando fiz a transição, meu sonho não era ser campeão mundial, ainda. Queria me provar, puxar meu surf para um nível acima. A competição sempre foi combustível para evoluir. Com os anos, com experiência e espaço no circuito, percebi que talvez pudesse buscar algo maior.


  • Como lida com a pressão do Brasil inteiro torcendo por você?


É uma responsabilidade grande carregar um país nas costas, principalmente sendo o último brasileiro na competição. Mas me senti pronto. Sabia que o momento estava chegando. O carinho dos fãs foi incrível, tanto antes, quanto depois do título.



  • Relembrando o dia do título. Relembrando o dia do título, no último minuto, quando o mar já indicava que não mandaria mais nenhuma onda para o line up, e que o título de fato era seu, consegue traduzir o sentimento e emoção daqueles instantes finais?


A sensação durante o último dia da competição era de que foi tudo muito rápido. Especialmente porque foi só uma bateria que tive que vencer. Para algo que eu imaginava ser tão grande e tão importante, parecia ter acabado em um segundo. Logo depois começou a vir um filme, na minha cabeça, das memórias do decorrer do ano, de todos os momentos de altos e baixos que eu tive. Aí, fui capaz de enxergar toda a trajetória que trilhei: foram os últimos 30 minutos de uma temporada super longa, de muito trabalho, muita dedicação, muito foco. Quando comecei a fazer essa retrospectiva, consegui sentir,

real, a emoção.


  • E agora, depois da festa e do barulho, de onde você tira motivação para recomeçar o processo todo novamente? Quais são os sonhos futuros?


Do mesmo lugar de sempre. Continuo a mesma pessoa, o mesmo cara obcecado pelo surf. Quero evoluir, voltar melhor todo ano. Tenho o sonho de conquistar uma medalha olímpica, vencer mais títulos. O surf ainda me motiva do mesmo jeito que motivava antes do título acontecer.


  • Você postou uma foto de um caderno de notas datado de 30/01/25, com suas metas para o ano, um passo a passo de como você se tornaria campeão mundial pela WSL. Foi a primeira vez que escreveu seus objetivos, ou é de praxe um ritual em todo início de ano?


Escrevi esse bloco no primeiro dia da temporada. Já fiz isso algumas vezes no passado. Às vezes dá certo, outras não. Mas esse ano foi exatamente como escrevi. Muito louco pensar isso.


  • E como é olhar para esse caderno hoje?


Ele ficou guardado na mochila a temporada inteira. No fim do ano, encontrei, abri… e tudo tinha acontecido. A sensação é inigualável.


BRASIL, A TERRA DO SURF
A vitória de Yago em 2025 não é um raio isolado. É mais um capítulo de uma história que o Brasil vem escrevendo com consistência impressionante no Circuito Mundial. Em onze anos, o país acumulou oito títulos mundiais, um domínio improvável para quem, por décadas, via a elite do surf concentrada entre australianos, havaianos e norte-americanos. A transformação ganhou o apelido de Brazilian Storm, a tempestade brasileira, um nome que parecia exagero no começo, mas que hoje descreve com precisão o impacto dessa geração.

Adriano de Souza abriu o caminho com disciplina e uma determinação quase teimosa, conquistando um título histórico em 2015.

Gabriel Medina elevou o padrão técnico e emocional do tour, vencendo três mundiais e mudando a forma de competir.

Filipe Toledo adicionou velocidade, estilo e uma fluidez que só quem cresce no litoral brasileiro entende, somando dois títulos.

Ítalo Ferreira incendiou o tour com potência e espontaneidade, conquistando o mundial de 2019.

E então chega Yago. Não como repetição, mas como expansão dessa era. Enquanto seus antecessores carregam a marca da intensidade, ele traz um outro sotaque: um repertório eclético, com linhas longas e um estilo que mistura skate, arte e música. Ele é, talvez, o campeão brasileiro mais próximo do que entendemos de soul surfer. A Brazilian Storm continua. Mas com Yago, ela ganha uma nova expressão.

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