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hi, this is Harry

  • larissashanti
  • 16 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Um olhar sobre a Hi Adventure, berço do skate em Florianópolis, e um ensaio sobre a vida de Harry Jumonji, lenda viva que fez do asfalto, sua tela e da vida, um improviso

Por Cadu Zahran

A cena core do skate, com seu tempero punk, sempre me atraiu. Diferente da minha vivência com o surf, em que figuras como Gerry Lopez eram referências, o skate me apresentou um outro universo de expressão. A superfície dura e implacável do concreto, o som seco das rodinhas cortando as pistas e a energia das manobras contrastam com o silêncio e a solitude dos lineups do mar. Mas, mais do que qualquer volta ou manobra memorável, o que realmente me instigou nesse mundo foi a atitude dos seus personagens mais emblemáticos.



Foi com meu filho, que por um tempo andou nas pistas da Hi Adventure, um espaço que mistura pousada e centro de skate no Rio Tavares, que entrei nesse universo. Ali, entre o concreto e a maresia, entendi um pouco sobre essa comunidade, sua linguagem, valores e forma de estar.


Meu amigo Dranho, skatista e surfista, fundador da icônica marca Drop Dead Skateboard, ao lado do seu irmão Eduardo, me apresentou esse território. Nos anos 80, ele chegou em Floripa e fincou seu pé no Rio Tavares, quando tudo ainda era mato, ajudando a levantar um movimento consistente sobre o concreto das pistas. Junto a André Barros e Raphael Bandarra (o visionário por trás da Hi Adventure) construíram as bases do profissionalismo do skate brasileiro. Campeonatos, eventos, patrocínios. Criaram cultura e pertencimento.


A Hi Adventure é, de certa forma, um dos pulmões desse movimento. Erguida na cara do gol, no Pico da Cruz, é uma escola de estilo, um santuário de liberdade. Dali, saíram campeões mundiais e se moldou uma geração que transformou o skate em linguagem global.


A pousada e todo o complexo estão em fase de transformação, mantendo o espírito original, mas ganhando novo significado e ampliando seus contornos. Dranho está à frente dessa atualização, dando vida à visão dos novos responsáveis, Pedro Barros e Alisson Paz, que assina um centro de treinamento inovador. O espaço também ganhou um spa e um novo restaurante, o GOMA, que traz um cardápio exclusivo e eleva o nível gastronômico da vizinhança.


Durante uma tarde acompanhando as aulas do meu filhote, me dei conta do que esse lugar representa. Crianças aprendendo a cair e levantar. Skatistas lapidando linhas. No meio deles, uma figura que parecia condensar toda a história do skate em um corpo só: Harry Jumonji.


Harry anda como quem pinta. Desenha com o corpo. Grafita o ar. Mistura o surf à radicalidade do skate com naturalidade selvagem. É improviso puro, como uma jam session sobre rodas. Uma espécie de Miles Davis do asfalto. Ele é uma lenda viva da primeira geração do skate brasileiro.

Aos sete anos, em Ubatuba, uma revista com Jay Adams acendeu o pavio. A mãe o ajudou a comprar o primeiro skate. Aos 13, venceu um campeonato como semi-pro. Ganhou patrocínio, respeito e identidade.


Naqueles anos, andar de skate era um soco contra o sistema, e ele se identificou com isso. Aos 14, foi para os Estados Unidos. Nova York não tinha pistas, mas Harry tinha fome. Fez do concreto sua tela. Moldou o street style e virou ícone. Andou com os Beastie Boys, apareceu em clipes, frequentou o estúdio de Warhol, conversou sobre arte e caos. Dividiu noites com Basquiat; há quem jure que ele já teve um affair com a Madonna. “This is where I long to be, La Isla Bonita”, dizia ela. Talvez não fosse San Pedro e, sim, Floripa.


Jazz, R&B, poesia e ruído. Seu layback misturava punk, pop art e poesia de rua.


Quando Nova York apertou, partiu para a Califórnia. Trabalhou, competiu, viveu. Influenciou Dogtown com seu flow brasileiro. Ganhou respeito de Tony Alva e de todos que viam no skate um grito de liberdade. Mas a estrada era dura: drogas, prisões breves, solidão e recomeços. Forjou-se na queda.


“Skate não é só manobra”, diz ele. “É estilo. É espírito.”

Hoje, Harry vive em Florianópolis, entre o mar e o concreto da Hi Adventure. Às vezes o encontro sentado na areia, olhando as ondas do Pico da Cruz, com o corpo trincado e as tatuagens contadas como capítulos. Ele segue com um olhar firme de quem viu tudo e ainda acredita. “Sand, sun and surf.” É assim que Harry vive.


No fim, concluo que a Hi Adventure e o Harry Jumonji são parte de uma mesma força: a de transformar o que é queda em estilo, o que é dureza em movimento, o que é vida em arte.



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