o território como matéria-prima
- larissashanti
- 16 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
nos projetos do Bloco B Arquitetura
“Se fecharmos os olhos e pensarmos em Floripa, a cena que surge é uma praia no fim da tarde. Os garapuvus balançando ao vento, barcos retornando da pesca e o mar refletindo um pôr do sol alaranjado que tinge tudo de cobre. As crianças correm na areia enquanto o cheiro de mar se mistura ao perfume das árvores e ao som distante da cidade logo atrás do verde. Cidade e natureza intrinsecamente entrelaçadas.”
É nessa convivência íntima entre paisagem e cotidiano que as arquitetas do Bloco B encontram a principal matéria prima para seus projetos
Com dez anos de atuação, o Bloco B ainda se reconhece jovem. A inquietação que move suas arquitetas – Camilla Ghisleni, Gabriela Favero, Júlia De Fáveri e Júlia Kosciuk – nasce dessa necessidade quase natural de pesquisar, questionar e experimentar, uma maneira de trabalhar que reflete o olhar de uma nova geração de arquitetos em Florianópolis. Como tal, elas não se apoiam em fórmulas prontas: orientam-se pela curiosidade, pelo questionamento e pela vontade constante de repensar padrões.

Essa forma de trabalhar já rendeu ao Bloco B nove prêmios nacionais de arquitetura. Muitos desses reconhecimentos destacam justamente o diálogo sensível que o escritório estabelece com a natureza e com o cotidiano brasileiro, traduzindo um ideal presente desde o início: reduzir o impacto da arquitetura e criar espaços que respeitem o terreno, a vegetação, o clima e a cultura local. Nessa visão, sustentabilidade não é apenas tecnologia ou desempenho, mas pertencimento. É pensar a arquitetura a partir do contexto, é observar o que existe e projetar a partir dessa escuta.
Um dos projetos que melhor traduz essa visão nasceu à sombra de uma figueira centenária na Lagoa da Conceição.

No edifício Figueira da Lagoa, da incorporadora Engenho, a árvore não se tornou um obstáculo: ela é a própria origem de tudo. O empreendimento foi dividido em dois blocos para preservá-la, criando entre eles um espaço de convivência comunitária. Uma casa na árvore celebra memórias dos antigos moradores e abre espaço para novas histórias. Até o lazer se conecta ao território: um barco fará a travessia dos moradores até a lagoa, valorizando modos de vida tradicionais. Nesse caso, a arquitetura não contornou a natureza, nasceu dela.
Um modo de projetar que nasce da relação intensa das arquitetas com Florianópolis. Elas surfam, velejam, fazem trilhas, se deslocam de bicicleta, ou seja, estão sempre ao ar livre. Essa experiência cotidiana molda sua sensibilidade projetual e influencia a forma como imaginam o futuro. Projetar em Floripa, defendem, é pensar na cidade que desejam criar para seus filhos: uma cidade generosa, conectada com a paisagem e desenhada para quem a vive.
Não se pode ignorar, porém, que as transformações da capital catarinense também são sentidas de perto. O trânsito mais carregado, a pressão sobre o saneamento, as praias lotadas, tudo o que indica uma cidade em expansão acelerada. Mas, para o Bloco B, o problema não é expandir, e, sim, como expandir. Acreditam que densificar com responsabilidade é essencial, e que isso exige infraestrutura pública, planejamento urbano e respeito ao território. Copenhague, Singapura, Medellín e Curitiba surgem como referências possíveis, exemplos de cidades que mostraram novos caminhos e reforçam o papel da arquitetura nesse processo.




