a vida assimétrica
- larissashanti
- 16 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Por Cadu Zahran
Já se imaginou surfando com uma prancha assimétrica? Essa experiência revela que, às vezes, nem o surf, nem o corpo e nem a vida pedem uma perfeição simétrica

Este ano realizei um desejo antigo de surfar ondas perfeitas numa prancha assimétrica. Foi o Felippe dal Piero, meu amigo e colecionador de shapes pouco convencionais, quem insistiu para que eu experimentasse uma das suas na nossa última viagem. Na primeira onda, senti algo que nunca tinha sentido: a prancha parecia abrir caminhos invisíveis na parede, pedindo linhas novas, oferecendo mais possibilidades.
“A gente não é simétrico”, disse Felippe. “Por que a prancha seria igual dos dois lados?”. A frase ficou comigo.
De volta a Florianópolis, aquela sensação me faltava. Até que cruzei, em um acaso digital, com um vídeo do surfista Yuri Gonçalves deslizando em uma prancha que me chamou de imediato. Era obra de Álvaro Anguita, o Alf, argentino radicado em Garopaba e um dos nomes que mais têm explorado o potencial das assimétricas na região.

A história do Alf começa cedo, em um porão improvisado na Argentina, quando ele surfou pela primeira vez uma fish feita por um amigo. “Bastou uma onda para minha cabeça explodir”, ele conta. Influenciado pelo avô, pintor, aprendeu a criar com as próprias mãos e nunca mais largou essa inquietação.
Anos depois, viajando pela América Central, encontrou uma velha prancha assimétrica dos anos 70. A ideia ficou latente até amadurecer, de vez, no litoral catarinense, quando decidiu largar os trabalhos de administração e viver da arte e do shape.
Para Alf, o segredo das assimétricas está em assumir o óbvio: de que o corpo funciona de forma diferente no frontside e no backside.
Rails, rocker e quilhas acompanham essa lógica. Twin na frente, quad atrás; liberdade de um lado, controle do outro. “A prancha pode parecer estranha parada, mas na onda tudo se encaixa. Ela funciona como o corpo pede.”
Ele diz que quem procura esse tipo de prancha é gente que quer se divertir e sentir de novo aquele brilho de novidade. Porque, no fim, o surf é feito de linhas que não existiam até alguém decidir desenhá-las.



