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o surf como oração diária

  • larissashanti
  • 16 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Cabelos brancos ao vento, prancha debaixo do braço e um sorriso sereno. Aos 65, Rico segue riscando as ondas, mostrando que juventude é estar em movimento


Quem mora ou passa pelo Rio Tavares já cruzou com ele. Rico é uma daquelas figuras que já se tornaram parte da paisagem, como uma lenda viva, símbolo do espírito livre que ainda resiste na ilha.


Nascido em Curitiba, ele é da segunda geração de surfistas de Florianópolis e carrega na pele o sal, a sabedoria de quem fez do surf um modo de existir.


“Eu nasci em 59 e, logo em seguida, nos mudamos para Florianópolis. Cresci em uma praia chamada Bom Abrigo. Vivíamos como índigenas: saía de casa de manhã, voltava à noite. Todas as mães cuidavam de qualquer filho”, lembra. Aos seis anos voltou a Curitiba, mas a imagem daquele paraíso ficou.


Começou a andar de skate e a surfar quando conseguia. “Ia pra Ilha do Mel de carona, com autorização do DNR para levar prancha no ônibus. Ficava largado, sem comida. Roubada de moleque.”


Aos 17 anos, decidiu: “Vou morar em Floripa”.


Chegou em 1976 e mergulhou de cabeça no surf. “Morei numa casa açoriana no Canto do Engenho, depois num barraco no morro por dez anos, sem luz elétrica”, conta com ar de quem não troca a simplicidade por nada.


Hoje, o surf é remédio. “Quando moleque, queria ser o cara, o melhor na água. Hoje, pego um pedaço de pau e destruo o ego. Eu agradeço ao universo por tudo o que vi. Sempre acordo cedo e caminho pela manhã, às vezes remo até o costão, encontro a raça e já volto diferente.” Ele cita Gerry Lopez: “O melhor surfista é o que mais se diverte na água”.

E sorri. Essa é a essência.


Rico não gosta do localismo. “Vajei o mundo e, onde cheguei, sempre com respeito, fui acolhido. Mas entendo quem defende o pico.” Da primeira geração, cita Agenor, Buda e Thomas, “o melhor da Joaquina, sem cordinha, nos mares gigantes”. Ele se vê na segunda geração, com Lima e outros tantos que consolidaram o surf na ilha.


A vida foi uma aventura sem mapa: chá de cogumelo, experimentos, surf, skate, voo-livre. Quem conhece Rico a muitos anos não se cansa de rasgar elogios quanto a suas habilidades. “Todos os esportes que ele pratica são bem executados. Ele tem uma habilidade natural extraordinária”, comenta um amigo próximo. Em um dado momento, criou a Dédalo, primeira escola de asadelta de Santa Catarina. “Vi numa revista um cara voando no Havaí e mentalizei: vou fazer isso também.” Com isso, escreveu importantes capítulos do voo livre de Floripa com seu pioneirismo. Na Indonésia, viu Uluwatu ao vivo e materializou mais um dos seus sonhos. “Quando se emana do coração, as coisas acontecem.”



Há vinte anos, Rico se dedica ao xamanismo. Faz buscas de visão e rituais espirituais. “Temos um ritual em que ficamos quatro dias na montanha, sem comida. Ali se descobre o valor da vida. Depois de uma experiência dessas, o camarada sai muito mais resiliente pra encarar o futuro.”


Sentado em sua varanda no Rio Tavares, cercado por flores e com vista para as dunas da Joaquina, ele canta a letra implacável de “Time”, do Pink Floyd: “And you run and you run to catch up with the sun, but it’s sinking… The sun is the same, in a relative way, but you’re older”.


Rico sabe que o tempo passa como as ondas. Vem, quebra, e se desfaz. Por isso, ele aprendeu a não correr atrás do sol, mas a se deixar aquecer por ele.

Todos os dias, ao amanhecer, ele caminha pelas ruas do bairro, prancha debaixo do braço, cabelos longos ao vento. Presente. Inteiro. O mar, paciente, o espera.

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