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o outro lado da rede

há 2 horas
6 min de leitura

Tem um som que quem já jogou tênis nunca esquece. Não é bem o baque da bola na raquete, é o instante antes dele, quando se ouve o som da quicada seca no chão, o corpo que se ajusta e a respiração desacelera por uma fração de segundo enquanto o resto do mundo simplesmente para de existir. Ali cabe uma vida inteira de gente diferente fazendo essencialmente a mesma coisa: tentando não deixar a bola cair

Em Florianópolis esse som ecoa em lugares muito diferentes. Ecoa nas quadras de clube, onde um professor que já viu três gerações de alunos passarem por ali segue ensinando o mesmo gesto que aprendeu quando ainda era criança; nas manhãs de uma adolescente que troca a festa de fim de semana por um torneio, tentando construir ponto a ponto o sonho de um dia jogar um Grand Slam; ecoa em quadras de lugares distantes, onde um empresário apaixonado pelo esporte descobriu que jogar tênis pode ser também uma forma de conhecer o mundo; e ecoa até em quadras esquecidas por anos, quando alguém que largou o esporte na juventude decide voltar e descobre que a paixão continuava ali, intacta.


Lilo, com alunos do Formando Cidadão. Fonte: reprodução
Lilo, com alunos do Formando Cidadão. Fonte: reprodução

São histórias diferentes que se cruzam o tempo todo, porque todas elas começam do mesmo jeito, com alguém que um dia pegou uma raquete pela primeira vez e não largou mais.


Foi assim com Maurilio Valmiro da Silveira, o Lilo, hoje uma das figuras mais carimbadas do tênis em Florianópolis. Começou como boleirinho aos 10 anos e já dava aula aos 15, mas virou paixão mesmo quando ele passou a treinar sério e a jogar campeonatos locais, porque, como ele mesmo diz, ensinar é tão gostoso quanto jogar. Décadas depois ainda dá para ouvir no seu relato o mesmo entusiasmo de quando começou. “Tudo que conquistei, minha família, minha casa, veio do tênis. Não tem como não gostar.” É esse tipo de gente que sustenta um esporte por dentro, sem alarde, e que guarda histórias como troféus. Guarda a caneta que um aluno lhe deu de presente no Dia dos Professores, dizendo que era para escrever coisas boas; guarda a lembrança do aluno especial que, respondendo sobre seu ídolo, não disse Guga, disse o nome do próprio Lilo; e guarda, com o orgulho de quem sabe contar uma boa história, a memória que faz questão de ter para sempre de um garoto chamado Guga. Jogaram três vezes, Lilo venceu duas, perdeu a terceira quando o adversário tinha 13 anos e decidiu ali, na hora, que aquele seria o último encontro dos dois em quadra. “Falei: não jogo mais com ele, estou na frente, dois a um”, conta sorrindo com aquele jeito manezinho, garantindo até hoje a vantagem sobre o maior tenista que o Brasil já produziu.


Lilo. Fonte: arquivo pessoal
Lilo. Fonte: arquivo pessoal

Lilo também guarda lembranças de uma cidade em transformação. Quando começou, eram poucas quadras e poucos professores, e o tênis era muito restrito a clubes; hoje tem escolinha em parque público, projeto social, gente de todas as idades e classes sociais, muitas delas atraídas durante a pandemia justamente pelo fato de ser um esporte individual. “O elitizado ficou no passado”, resume, sem hesitar. O que não muda, segundo ele, é o que o esporte ensina para quem se dedica de verdade: paciência, resiliência e respeito.


Você aprende a lidar com frustração, a ter foco ponto a ponto, e fora da quadra isso vira disciplina, autocontrole e fair play na vida.

Parte dessa mudança tem a assinatura do próprio Lilo. Foi no Canto da Lagoa que ele criou o Formando Cidadão, projeto que por anos deu aula de tênis a dezenas de crianças da comunidade, de graça, três vezes por semana, num terreno baldio, sem qualquer estrutura, quase de chão batido. Aos poucos aquele improviso virou rotina, e a rotina virou resultado. O trabalho voluntário chamou tanta atenção que a Prefeitura acabou construindo ali, no mesmo terreno onde tudo começou, uma quadra de tênis pública, hoje usada por gerações de moradores do bairro que talvez nunca tivessem chance de encostar numa raquete se não fosse por ele.


Duda Carbone. Fonte: arquivo pessoal
Duda Carbone. Fonte: arquivo pessoal

É curioso como a mesma quadra que carrega décadas de memória para uns é, para outros, um território ainda a ser conquistado. Maria Eduarda Carbone, a Duda, tem 15 anos e já vive uma rotina que poucas adolescentes conhecem, entre treinos, viagens, torneios e escola, tudo espremido em uma agenda que exige, nas palavras dela, muita disciplina e uma boa administração do tempo. Entrou no esporte pelo pai, também treinador, e hoje joga por razões que vão para além do resultado, principalmente por si mesma e pela família. Nunca pensou em desistir, e tem uma relação com a derrota que soa mais madura do que sua idade sugere. “As derrotas me ensinam que o tênis parece com a nossa vida, um dia a gente perde, no outro ganha, e devemos seguir.” O sonho, para ela, já tem contorno definido: estar entre as melhores do mundo e disputar Grand Slams. Mas o que ela mais quer que o esporte lhe dê não cabe em um placar. É conhecer novos amigos e novas culturas, para que possa se desenvolver como pessoa.


Quem treina essa vontade toda é o próprio pai. Nado Carbone descobriu o tênis aos 13 anos, quando a mãe trabalhava como doméstica na casa de um professor do esporte, e dali em diante nunca mais saiu de uma quadra. Formou cerca de 300 alunos, entre sociais e competitivos, antes de assumir o papel mais delicado da carreira, ser o treinador da própria filha do início ao fim. “É uma relação de aprendizado o tempo todo”, diz. “Mas preciso ser o pai para conseguir acessar o treinador, é uma relação de confiança mútua.” Na Duda, ele enxerga algo que nem sempre encontrou em outros atletas, que é uma vontade de melhorar a cada treino, com uma resiliência fora do comum. E se pudesse escolher uma única coisa para o tênis deixar para ela, independentemente dos resultados, seria só isto: que sempre existe um novo começo.


Nado também guarda uma história para lembrar do tamanho que Guga tem na cidade. Quando o santa-catarinense ganhou seu primeiro Roland Garros, um aluno de 40 anos chegou até ele dizendo que queria treinar para conquistar o mesmo torneio. Quando perguntamos sobre seu próprio ídolo no tênis, não hesita: “Minha filha, Duda Carbone.


Germano. Fonte: Douglas Silveira
Germano. Fonte: Douglas Silveira

Tem também quem tenha se afastado do tênis e voltado como quem reencontra um amor antigo. É o caso de Germano, que jogou torneios regionais quando garoto, parou na faculdade, tentou retomar ao chegar em Florianópolis e se afastou de novo depois de uma lesão. Ficou doze anos longe de uma quadra até topar, em 2016, com um torneio de brincadeira dentro do próprio condomínio. A paixão da infância voltou inteira, e com ela vieram títulos catarinenses e uma história para nunca esquecer. Aos 13 anos, vencendo um senhor por 6/0, 5/0 e 40/0, achou por bem ser gentil e deixá-lo fazer ao menos um game. Perdeu a partida inteira. “O Seu Hugo acabou me dando uma aula que eu nunca mais esqueci.”, diz, e ri até hoje da prova de que no tênis nada está ganho até o último ponto.


Se para uns o tênis é memória e para outros é futuro, para André Sada é sobretudo um jeito de se conhecer e de conhecer o mundo. “Quando você entra em quadra, não existe influência, posição social ou poder econômico que faça você vencer. Ali não existe mentira.”, diz. É um dos grandes paradoxos do esporte, solitário dentro das quatro linhas e profundamente social ao redor delas.


“Você joga uma hora com alguém e, quando termina, parece que conhece aquela pessoa há muito mais tempo.”

Foi essa percepção, de que viajar para jogar tênis é radicalmente diferente de viajar como turista, que fez André criar o Tennis Hunter, um projeto que usa o esporte como fio condutor para descobrir lugares extraordinários, gastronomia, hospitalidade e pessoas. “Você deixa de simplesmente conhecer um lugar e passa, de alguma forma, a vivê-lo.

André Sada entre algumas das quadras que encontrou pelo mundo. Fonte: Filipe Chepp
André Sada entre algumas das quadras que encontrou pelo mundo. Fonte: Filipe Chepp

Sobre Florianópolis, ele não tem dúvida do potencial. A cidade tem qualidade de vida, natureza, a sede da própria Confederação Brasileira de Tênis e, claro, o nome que aparece em toda conversa sobre o esporte por aqui: Gustavo Kuerten, que colocou Florianópolis no mapa mundial do tênis. Não é coincidência que Guga seja citado por quase todo mundo que fala sobre tênis em Florianópolis. Por Lilo, que já dividiu quadra com ele. Por Duda, que o tem como maior inspiração. Por Nado, que viu de perto o que seu nome desperta na cidade. Por André, que o cita como o motivo pelo qual Florianópolis entrou no mapa mundial do esporte.


Essa é, no fim, a verdadeira força do tênis. A mesma bola, o mesmo som, o mesmo silêncio antes do saque significam coisas completamente diferentes para cada pessoa que entra em quadra: para uns, uma vida inteira; para outros, um sonho recém-começado; para outros ainda, uma forma de amor disfarçada de treino, ou um passaporte para o mundo. Cada um carrega também o seu placar preferido, como um dez a oito que só quem esteve em quadra naquele dia vai entender. E, para quem nunca jogou, fica a curiosidade de experimentar esse instante de silêncio antes do primeiro ponto e descobrir do que se trata, afinal, essa história de ter sempre alguém do outro lado da rede.

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