a primavera vem zunindo por aí
Muitos de nós crescemos aprendendo a associar abelhas a ferroadas. Com isso, acabamos conhecendo pouco sobre o universo das espécies nativas sem ferrão, fundamentais para a regeneração das florestas e para a manutenção da biodiversidade. Aproveitamos a estação das flores para conversar com Stefânia Hoffman, engenheira ambiental e fundadora da URBEES
AS ABELHAS SÃO FREQUENTEMENTE APONTADAS COMO ESSENCIAIS PARA O EQUILÍBRIO DOS ECOSSISTEMAS. DE FORMA SIMPLES, POR QUE ELAS SÃO TÃO IMPORTANTES?
Ao coletar os recursos que precisam, as abelhas realizam a polinização, um serviço ecossistêmico essencial para a produção de frutos, sementes e a regeneração das florestas. São as melhores polinizadoras da natureza, e por isso são consideradas insubstituíveis e os animais mais importantes do planeta.

A JATAÍ, mais indicada para iniciantes. Muito dócil, adapta-se facilmente a quintais e ambientes urbanos e gosta de locais sombreados.
Suas características são:
Antenas para detectar cheiros, sons e vibrações no ambiente.
Dois grandes olhos compostos com reflexo esverdeado e três ocelos (olhos simples) no topo da cabeça para auxiliar a visão.
O ferrão é atrofiado e não funcional; a defesa ocorre por meio de mordidas leves ou grudando própolis nos invasores.
Três pares de pernas, sendo as traseiras
modificadas com uma corbícula (cesta de pólen) preta ou marrom-escura para transportar pólen e resinas.
DENTRO DESSE PROCESSO, O QUE TORNA AS ABELHAS NATIVAS SEM FERRÃO TÃO ESPECIAIS?
Elas evoluíram junto com a nossa flora por milhões de anos e são as polinizadoras mais eficientes dos nossos biomas; 90% das espécies nativas da Mata Atlântica são polinizadas por abelhas nativas, por exemplo. Além disso, muitas espécies não representam perigo, podendo ser criadas em ambientes urbanos e aproximando as pessoas da natureza de uma forma muito rica.
COMO NASCEU O TRABALHO DE VOCÊS E QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS INICIATIVAS DESENVOLVIDAS ATUALMENTE?
A URBEES nasceu da vontade de aproximar as pessoas da nossa biodiversidade através das abelhas nativas sem ferrão. Hoje trabalhamos com a venda de colmeias, cursos, desenvolvimento e implantação de meliponários, assessoria técnica e ações de educação ambiental para escolas, empresas, coletivos etc.
QUAIS SÃO OS SINAIS DE QUE UM AMBIENTE ESTÁ SAUDÁVEL PARA AS ABELHAS? E O QUE COSTUMA INDICAR QUE ELE PERDEU BIODIVERSIDADE E PRECISA SER REGENERADO?
Um ambiente saudável para as abelhas tem disponibilidade e diversidade de recursos ao longo do ano e está longe de áreas de contaminação (uso de agrotóxico, indústrias, aterros sanitários etc). Ter abelhas no quintal é um convite para plantarmos sempre que possível e cultivarmos ambientes saudáveis; dessa forma, todos saem ganhando.
É POSSÍVEL CRIAR ABELHAS SEM FERRÃO EM CASA OU ATÉ APARTAMENTOS? O QUE É NECESSÁRIO E QUAIS BENEFÍCIOS ESSA CONVIVÊNCIA PODE TRAZER?
Sim, muitas espécies vivem muito bem em quintais e até em sacadas de apartamentos. O importante é escolher uma espécie adequada e proteger as colmeias do calor e vento excessivos.
QUEM NÃO PODE INSTALAR UM MELIPONÁRIO AINDA ASSIM PODE AJUDAR? QUAIS ATITUDES FAZEM DIFERENÇA NO DIA A DIA?

Com certeza. A melhor forma de ajudar as abelhas é plantar, sempre que possível, espécies melitófilas – que fornecem recursos para as abelhas: néctar, pólen, resina – e nativas ao bioma em questão. Além disso, claro, preservar áreas verdes e valorizar produtores comprometidos com uma produção livre de veneno.
QUANDO FALAMOS EM REGENERAÇÃO, NORMALMENTE PENSAMOS NA NATUREZA. COMO AS ABELHAS TAMBÉM AJUDAM A REGENERAR RELAÇÕES ENTRE PESSOAS, COMUNIDADES E CIDADES?
As abelhas nos ensinam sobre cooperação e interdependência. Quando ampliamos nosso olhar para o entorno e melhoramos o ambiente para elas, todos os seres que coexistem nesse ecossistema saem ganhando. Essa é a mágica da meliponicultura urbana: o jardim do vizinho é tão importante quanto o meu, e preservar uma área verde nas redondezas é essencial. Quando o ambiente está bom para elas, está bom para nós.
O QUE MUDA QUANDO CRIANÇAS E ADULTOS PASSAM A CONHECER MELHOR AS ABELHAS NATIVAS? EXISTE ALGUM MITO SOBRE ELAS QUE VOCÊS GOSTARIAM DE DESCONSTRUIR?
A introdução da espécie exótica Apis mellifera (a abelha europeia africanizada) e a ocorrência de alguns acidentes por volta da década de 1960 disseminou mais medo do que conhecimento, acabando por colocar um universo enorme de espécies dentro de um estereótipo em que abelha significa ferroada, que quer dizer perigo. Logo, acabamos por perder o conhecimento sobre nossas abelhas nativas, que herdamos de muitos povos originários (e que por isso também são chamadas de “abelhas indígenas”).
Quando disseminamos conhecimento e trazemos elas para nossos quintais, abrimos espaço para o encantamento. As pessoas descobrem que existem centenas de espécies de abelhas sem ferrão e passam a compreender a importância delas para nossa vida e nossos ecossistemas.
OLHANDO PARA A TRAJETÓRIA DE VOCÊS, QUAIS RESULTADOS OU CONQUISTAS MAIS MOSTRAM O QUANTO ESSE TRABALHO REALMENTE FAZ DIFERENÇA?
Mais do que todo o trabalho desenvolvido até aqui, o que mais me emociona é ver pessoas mudando sua relação com nossas abelhas nativas, valorizando seus produtos e espalhando abelhinhas por aí. Hoje temos centenas de famílias, escolas e instituições ajudando a conservar as abelhas e disseminando esse conhecimento para mais e mais gente.
QUAIS ESPÉCIES DE ABELHAS NATIVAS DA REGIÃO DE FLORIANÓPOLIS VOCÊS GOSTARIAM QUE AS PESSOAS CONHECESSEM E POR QUÊ?
Todas as espécies são importantes. Cada região tem suas abelhas de ocorrência natural e elas nos dizem muito sobre ambiente, clima e vegetação. Quanto mais conhecemos, mais conseguimos entender as inter-relações entre as espécies.
ESTAMOS NA PRIMAVERA. QUAL CONVITE VOCÊS FARIAM PARA QUEM VIVE EM FLORIANÓPOLIS E DESEJA CONTRIBUIR PARA UMA CIDADE MAIS BIODIVERSA?
Além das abelhas sociais (que vivem em colônias), temos uma biodiversidade imensa de abelhas solitárias – que são coloridas, enormes ou minúsculas, mas sempre importantíssimas para a polinização – que acabam sendo confundidas com moscas e vespas. A primavera é a melhor época para observar essa diversidade nas flores. Aproveite para ampliar seu olhar e, sempre que possível, plante!
QUAL ABELHA COMBINA COM O SEU ESPAÇO?

GUARAIPO
Uma das espécies mais dóceis. Prefere ambientes úmidos, sombreados e bem preservados, sendo ideal para áreas com boa cobertura vegetal.

MIRIM-GUAÇU
Perfeita para hortas e jardins. Pequena, discreta e excelente polinizadora, também é muito utilizada em ações de educação ambiental.

URUÇU-
AMARELA
Para quem já tem alguma experiência. Forma colônias maiores, produz bastante mel e exige mais espaço e cuidados no manejo.

MANDAÇAIA
Outra excelente opção para começar. Mansa, de fácil manejo e grande polinizadora da Mata Atlântica, adapta-se muito bem às cidades.




