top of page

a capitã, o céu e o mar

há 2 horas
4 min de leitura

Chegamos ao Pântano do Sul no começo da tarde de uma sexta-feira. Enquanto o movimento do restaurante estava tranquilo, dona Zenaide olhava atentamente para a praia e para o mar. Filha de pescador, uma das primeiras mulheres a pescar tainha e fundadora do tradicional restaurante Pedacinho do Céu, ela aprendeu que algumas respostas só aparecem quando a gente desacelera

Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

Antes mesmo de começar a entrevista, dona Zenaide resolveu fazer uma observação, dizendo que nunca teve estudo, mas sempre gostou de aprender. Assiste às reportagens, acompanha o que acontece no mundo e, aos 81 anos, faz questão de não perder a curiosidade. Depois, falou sobre uma cena que, segundo ela, se tornou comum demais: “Às vezes, hoje, a gente está com o restaurante cheio, famílias inteiras reunidas, e ninguém conversa. Está todo mundo olhando para o celular. A gente precisa de gente.


Era a primeira resposta de uma entrevista cuja primeira pergunta ainda nem havia sido feita. Percebemos aos poucos que dona Zenaide não responde perguntas, ela conta a vida.


Nasceu em 1944 e nunca saiu do Pântano do Sul. Filha de pescador, cresceu aprendendo que o mar exige respeito. Era a filha mais velha, ajudava o pai a fazer redes, preparar os materiais de pesca, organizar tudo antes de sair para o costão, e com ele aprendeu a pescar; com a mãe e com a avó aprendeu a cozinhar, fazer renda, lavar roupa e transformar trabalho em afeto.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

Anos depois, já separada e com oito filhos pequenos, precisou aprender outra forma de sobreviver. Foi então que montou um pequeno quiosque na praia. Não havia dinheiro sobrando, mas havia disposição para trabalhar: “Eu nunca tive estudo, nem tinha dinheiro, mas tive muito amor.”, diz ela, em uma frase simples que talvez explique mais sobre o Pedacinho do Céu do que qualquer receita do cardápio.


Aliás, o nome do seu restaurante também nasceu em um instante silencioso. Ela conta que estava sentada olhando para o céu, e o mar estava tão parado que seu pai diria que parecia um pasto; naquele momento, decidiu que aquele lugar só poderia se chamar Pedacinho do Céu. Nunca mais mudou.


Já a “Capitã” surgiu por acaso, quando um dos filhos lhe deu um boné para usar no trabalho. No fim da tarde, quando fechava o quiosque e atravessava a praia empurrando um carrinho de mão, os turistas argentinos começaram a gritar: “Comandante! Comandante!” Ela riu, e o apelido ficou. Vieram outros bonés, presentes de clientes de diferentes lugares do Brasil e do mundo. Hoje, muita gente chega ao restaurante sem saber seu nome verdadeiro, perguntando apenas pela Capitã.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

Embora tenha construído sua vida servindo comida, dona Zenaide fala muito mais do mar do que da cozinha. Foi uma das primeiras mulheres do Pântano do Sul a pescar tainha, em uma época em que aquilo ainda causava estranhamento. Não faz questão de receber mérito por isso – o que a deixa feliz é ver outras mulheres pescando hoje, conquistando espaço e vivendo do mesmo ofício. Diz que, se ajudou a tirar alguns espinhos desse caminho, já valeu a pena.


Além disso, segundo ela, “O mar limpa a alma”. Conta que basta sentar na areia, olhar para o horizonte e esperar alguns minutos que a raiva vai embora, as preocupações diminuem e parece que alguma coisa invisível coloca tudo de novo no lugar.

Mesmo contando sobre as dificuldades que enfrentou – um incêndio em 2017 que destruiu o restaurante, o filho que perdeu durante a pandemia –, ela não altera o tom da voz e faz uma analogia com uma partida de futebol: diz que, antes de bater uma falta, o jogador sempre dá alguns passos para trás, e que “Às vezes a gente também precisa dar dois ou três passos para trás para conseguir ir mais longe.” E foi exatamente isso que fez. Com a ajuda da comunidade, dos antigos clientes e de pessoas que conheciam sua história, reconstruiu o restaurante praticamente do zero.


Ao longo da conversa, uma frase volta várias vezes: “Hoje em dia, se tem muita comida e pouco amor.” Ela explica que, quando era menina, muitas vezes havia pouco para comer. Mesmo assim, ninguém pensava primeiro em si. O peixe era dividido entre a família, sempre começando por quem mais precisava e, se sobrasse menos para os outros, tudo bem. O que importava era que ninguém ficasse sem. “A gente queria sempre ver o outro melhor do que a gente. Hoje parece que a gente quer ver a gente melhor.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

Falando sobre Florianópolis, ela diz que a Ilha pode crescer, receber mais moradores, inovar, mas nunca esquecer de cuidar daquilo que a tornou especial. Defende saneamento, transporte público de qualidade e a preservação das histórias de quem sempre viveu aqui.


Quando perguntamos o que faz uma vida inteira de trabalho valer a pena, ela não fala do restaurante, dos programas de televisão em que apareceu, nem das milhares de pessoas que passaram por suas mesas. Fala da simplicidade. “Se a gente não é feliz consigo mesmo, não consegue dar felicidade para o outro. E felicidade não custa dinheiro.


PARA CONHECER DONA ZENAIDE E PROVAR SUA TRADICIONAL TAINHA COM FEIJÃO: Visite o restaurante Pedacinho do Céu, no Pântano do Sul. Ao chegar à praia pela entrada principal, siga à direita e caminhe cerca de 200 metros pela areia.

Para mais informações, acesse @pedacinhodoceurestaurante, no Instagram.

bottom of page