a capitã, o céu e o mar
Chegamos ao Pântano do Sul no começo da tarde de uma sexta-feira. Enquanto o movimento do restaurante estava tranquilo, dona Zenaide olhava atentamente para a praia e para o mar. Filha de pescador, uma das primeiras mulheres a pescar tainha e fundadora do tradicional restaurante Pedacinho do Céu, ela aprendeu que algumas respostas só aparecem quando a gente desacelera

Antes mesmo de começar a entrevista, dona Zenaide resolveu fazer uma observação, dizendo que nunca teve estudo, mas sempre gostou de aprender. Assiste às reportagens, acompanha o que acontece no mundo e, aos 81 anos, faz questão de não perder a curiosidade. Depois, falou sobre uma cena que, segundo ela, se tornou comum demais: “Às vezes, hoje, a gente está com o restaurante cheio, famílias inteiras reunidas, e ninguém conversa. Está todo mundo olhando para o celular. A gente precisa de gente.”
Era a primeira resposta de uma entrevista cuja primeira pergunta ainda nem havia sido feita. Percebemos aos poucos que dona Zenaide não responde perguntas, ela conta a vida.
Nasceu em 1944 e nunca saiu do Pântano do Sul. Filha de pescador, cresceu aprendendo que o mar exige respeito. Era a filha mais velha, ajudava o pai a fazer redes, preparar os materiais de pesca, organizar tudo antes de sair para o costão, e com ele aprendeu a pescar; com a mãe e com a avó aprendeu a cozinhar, fazer renda, lavar roupa e transformar trabalho em afeto.

Anos depois, já separada e com oito filhos pequenos, precisou aprender outra forma de sobreviver. Foi então que montou um pequeno quiosque na praia. Não havia dinheiro sobrando, mas havia disposição para trabalhar: “Eu nunca tive estudo, nem tinha dinheiro, mas tive muito amor.”, diz ela, em uma frase simples que talvez explique mais sobre o Pedacinho do Céu do que qualquer receita do cardápio.
Aliás, o nome do seu restaurante também nasceu em um instante silencioso. Ela conta que estava sentada olhando para o céu, e o mar estava tão parado que seu pai diria que parecia um pasto; naquele momento, decidiu que aquele lugar só poderia se chamar Pedacinho do Céu. Nunca mais mudou.
Já a “Capitã” surgiu por acaso, quando um dos filhos lhe deu um boné para usar no trabalho. No fim da tarde, quando fechava o quiosque e atravessava a praia empurrando um carrinho de mão, os turistas argentinos começaram a gritar: “Comandante! Comandante!” Ela riu, e o apelido ficou. Vieram outros bonés, presentes de clientes de diferentes lugares do Brasil e do mundo. Hoje, muita gente chega ao restaurante sem saber seu nome verdadeiro, perguntando apenas pela Capitã.

Embora tenha construído sua vida servindo comida, dona Zenaide fala muito mais do mar do que da cozinha. Foi uma das primeiras mulheres do Pântano do Sul a pescar tainha, em uma época em que aquilo ainda causava estranhamento. Não faz questão de receber mérito por isso – o que a deixa feliz é ver outras mulheres pescando hoje, conquistando espaço e vivendo do mesmo ofício. Diz que, se ajudou a tirar alguns espinhos desse caminho, já valeu a pena.
Além disso, segundo ela, “O mar limpa a alma”. Conta que basta sentar na areia, olhar para o horizonte e esperar alguns minutos que a raiva vai embora, as preocupações diminuem e parece que alguma coisa invisível coloca tudo de novo no lugar.
Mesmo contando sobre as dificuldades que enfrentou – um incêndio em 2017 que destruiu o restaurante, o filho que perdeu durante a pandemia –, ela não altera o tom da voz e faz uma analogia com uma partida de futebol: diz que, antes de bater uma falta, o jogador sempre dá alguns passos para trás, e que “Às vezes a gente também precisa dar dois ou três passos para trás para conseguir ir mais longe.” E foi exatamente isso que fez. Com a ajuda da comunidade, dos antigos clientes e de pessoas que conheciam sua história, reconstruiu o restaurante praticamente do zero.
Ao longo da conversa, uma frase volta várias vezes: “Hoje em dia, se tem muita comida e pouco amor.” Ela explica que, quando era menina, muitas vezes havia pouco para comer. Mesmo assim, ninguém pensava primeiro em si. O peixe era dividido entre a família, sempre começando por quem mais precisava e, se sobrasse menos para os outros, tudo bem. O que importava era que ninguém ficasse sem. “A gente queria sempre ver o outro melhor do que a gente. Hoje parece que a gente quer ver a gente melhor.”

Falando sobre Florianópolis, ela diz que a Ilha pode crescer, receber mais moradores, inovar, mas nunca esquecer de cuidar daquilo que a tornou especial. Defende saneamento, transporte público de qualidade e a preservação das histórias de quem sempre viveu aqui.
Quando perguntamos o que faz uma vida inteira de trabalho valer a pena, ela não fala do restaurante, dos programas de televisão em que apareceu, nem das milhares de pessoas que passaram por suas mesas. Fala da simplicidade. “Se a gente não é feliz consigo mesmo, não consegue dar felicidade para o outro. E felicidade não custa dinheiro.”
PARA CONHECER DONA ZENAIDE E PROVAR SUA TRADICIONAL TAINHA COM FEIJÃO: Visite o restaurante Pedacinho do Céu, no Pântano do Sul. Ao chegar à praia pela entrada principal, siga à direita e caminhe cerca de 200 metros pela areia.
Para mais informações, acesse @pedacinhodoceurestaurante, no Instagram.



