ganhar as ruas, pertencer à cidade
Por Mariana Velasquez
E se a gente parasse para entender a corrida de rua como uma ferramenta de reencantamento com a cidade? Afinal, a Floripa que atravessamos de carro não é a mesma que conhecemos correndo
Sob a moldura de uma janela, a cidade passa mais rápido e os detalhes escapam aos olhos. A sensação é de que conquistamos depressa cada quarteirão. Já sob o ritmo dos próprios passos, mais do que conquistar as ruas, parece que voltamos a pertencer a elas.
Os detalhes de luz e sombra de cada horário, as pessoas que se deslocam rumo às suas próprias vidas, trabalhos e afazeres cotidianos; no ritmo da corrida, dá tempo de contemplar a paisagem, ver as cores do céu e olhar nos olhos de quem cruza a nossa frente. Dá até pra escutar os sons e cheiros diferentes de cada bairro. Correndo, a gente redescobre que cada rua tem sua própria luz, sua própria vida.

E, enquanto corremos, uma pergunta pode ecoar em nossa mente: “Será que algo em mim também muda conforme muda o território por onde piso?” Certamente, pois são diferentes as corridas que acontecem na areia da praia do Campeche, no asfalto da Beira-Mar, na pista do Parque de Coqueiros, nas trilhas do norte da ilha ou até mesmo pelo cenário urbano do centro da cidade. Toda corrida provoca algo diferente, e é por isso que a corrida vivida “do lado de fora” consegue trazer tanta coisa para dentro de nós. Ao longo de alguns quilômetros percorridos com a nossa própria força de vontade, vendo o horizonte se transformar à frente, fica quase impossível voltar para casa da mesma forma que saímos.
Vivemos um tempo em que quase tudo tenta nos empurrar para dentro demais – de casa, do escritório, das telas e até do próprio ego – e, nesse ritmo de viver tudo com tanta pressa, a cidade também vem se adaptando para facilitar o deslocamento dos carros. Nós, por consequência, passamos rapidamente pelas vias expressas, quase sempre presos dentro de algum meio de transporte enquanto respondemos alguma mensagem.
Por isso, a corrida tem sido revolucionária: é uma prática esportiva que nos permite, com intenção, colocar nossos corpos para fora.
Apenas com um par de tênis (e às vezes nem isso), podemos voltar a pertencer à cidade em que vivemos, pisar nas calçadas, redescobrir ruas esquecidas e ir de um ponto a outro com nossas próprias pernas.
Mas o fenômeno mais interessante acontece, talvez, quando percebemos que não somos os únicos fazendo esse movimento, que as ruas de Floripa estão cada vez mais cheias de nós, corredores, e que esse esporte, que por muito tempo era vivido de forma individual e até solitária, passou a ser também um ponto de encontro.

A corrida é, tecnicamente, uma prática individual – ninguém pode correr por você, o esforço é seu, o cansaço é seu, a distância é sua –, mas isso nunca significou que ela precisaria ser solitária. As ruas da cidade agora não só estão cheias de corredores, como também de grupos, assessorias ou running clubs, com muita gente fazendo disso um ato social.
Correr também nos torna testemunhas da cidade, pois começamos a perceber aquilo que antes passava despercebido pela janela: a calçada que termina de repente, a obra com irregularidade, o ponto de ônibus sem cobertura, a faixa de pedestre apagada e aquela praça que poderia estar mais viva. É justamente aí que deixamos de apenas passar e começamos a entender que temos alguma responsabilidade sobre o lugar onde vivemos. Afinal, quem se sente parte também cuida, reivindica, ocupa e participa.
Vida longa à corrida de rua. Vida longa ao movimento de ganhar as ruas da cidade com as próprias pernas e, no caminho, voltar a sentir que fazemos parte delas.




