ondas que duram
- há 2 dias
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longevidade no mar
Por Guga Arruda
O que acontece fora d’água define quanto tempo você vai durar dentro dela. Muitos interpretam isso apenas como preparação física ou alimentação, fatores fundamentais, mas o que desejo realmente transmitir é que, para ter longevidade no mar, o fator primordial é um mindset de evolução contínua
É preciso acreditar que o surfe pode ser aprimorado em qualquer idade, rompendo as barreiras mentais que o tempo tenta nos impor.
No meu caso, após os 50 anos cultivei uma visão clara de como agir fora da água para colher os frutos dentro dela. Digo isso porque eu mesmo enfrentei momentos de desânimo. Houve um instante em que parecia que eu já tinha atingido meu ápice e que, a partir dali, restaria apenas o declínio. Esse tipo de mentalidade mina a motivação: afinal, por que se dedicar tanto a algo que você fará cada vez pior?

A virada veio do entendimento que o conhecimento faz a diferença, especialmente no que tange ao equipamento: pranchas e quilhas tornaram-se meu foco de estudo obsessivo. Cada vez entendo melhor os detalhes hidrodinâmicos e percebo mudanças drásticas na performance com uma simples troca de quilhas. Muitas vezes, ainda jovem e no auge da forma física, errei manobras por pura falta desse conhecimento.
Até que, ao trocar a quilha de uma prancha que eu já conhecia, tudo se encaixou: a rasgada saiu redonda, potente e perfeita. Isso provou que o conhecimento vale muito mais do que a força bruta.
Se o ajuste do equipamento faz essa diferença toda, o quanto pode fazer o conhecimento técnico e a metodologia de treinamento? Com certeza tanta diferença quanto, ou até mais. Eu e meus amigos, a grande maioria surfistas profissionais, sempre discutimos qual seria a porcentagem de importância para a performance. A maioria concorda que é 50% técnica e 50% equipamento, e essa mentalidade me colocou em uma jornada de busca contínua por evolução. Baseado em outros esportes que pratiquei, como ginástica olímpica, capoeira, yoga e artes marciais, desenvolvi uma metodologia onde construo a postura e os movimentos fora da água. Realizo exercícios de solo e os mesmos movimentos sobre o skate, tanto no vertical quanto no simulador. Não tenho dúvida de que, quanto mais repito os movimentos, mais fáceis e automáticos eles ficam. Meus amigos frequentemente dizem que estou surfando melhor hoje do que aos vinte e tantos anos.
Sou treinador de surfe e sei avaliar minha performance nos vídeos; eu realmente melhorei pontos importantes nas minhas manobras, na minha harmonia e no meu estilo. Além disso, dou aéreos com giro aos 52 anos, coisa rara nessa faixa etária. Se consegui fazer isso em ondas comuns, imaginei o que poderia fazer nas melhores ondas do mundo.

Durante o tempo em que me dediquei à fabricação de pranchas fiquei alguns anos sem ir para o Havaí e para a Indonésia. Depois, voltou a viajar e passei temporadas mais longas com mais maturidade na visão estratégica. Peguei os melhores tubos da minha vida em Pipeline, Green Bush e Padang Padang depois dos 47 anos. Trabalhando como coach, entendi a importância de estar ao lado de pessoas que sabem mais do que eu. Fico feliz em citar Alexandre Ribeiro, grande amigo, que considero meu coach em ondas de consequência na Indonésia – seu conhecimento me ajudou a pegar algumas das melhores ondas da minha vida. Basicamente, estamos falando de paciência e do respeito ao mar e à hierarquia de cada lugar para pegar “a” onda da vida.
Por fim, não vou subestimar a importância da saúde física, mental e espiritual. Com essa motivação de surfar cada vez melhor, venho me dedicando a uma alimentação baixa em carboidratos, lido bons livros e praticado yoga. A musculação se tornou fundamental não só para o corpo, mas para a mente de alguém que, sentindo-se mais disciplinado, tem mais autoconfiança. Não posso deixar de citar o valor de ser um pai surfista e poder compartilhar não somente a cultura do surfe com meus filhos, mas também a resiliência, a perseverança e a fé nos sonhos. Tenho sido recompensado por essa mentalidade: hoje tenho o prazer de surfar as melhores ondas do mundo com meus filhos na água. Vejo a Marina surfando com um estilo lindo e perco muitas baterias para o Tuco, mas também venço algumas e a “tiração de onda” entre nós é saudável.
Não tenho dúvida de que estou no auge da minha carreira e da minha vida. Sou mais calmo, tenho mais controle das minhas emoções e vivo uma gratidão enorme. Deus sabe o que faz. A vida entrega o que precisamos e nos solicita o que podemos fazer.




