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o equilíbrio é um estado transitório

  • 21 de mar.
  • 3 min de leitura

Caminhar sobre uma fita a centenas de metros do chão exige mais do que força física ou técnica. Exige presença, escuta e uma relação íntima com o risco. É nesse espaço em que Rafael Bridi se equilibra com maestria. Atleta profissional de highline – e um dos principais nomes do esporte no Brasil e no mundo –, o manezinho leva o slackline das praças e costões de Florianópolis a cenários extremos e projetos de alcance internacional, sempre investigando os limites do corpo e da mente


AO FAZER UMA TRAVESSIA EM UM NOVO LOCAL, QUANDO VOCÊ ESTÁ A CENTENAS DE METROS DE ALTURA, O QUE PASSA PELA SUA CABEÇA? 


Na primeira travessia, o foco é absoluto. Aquele momento concentra todo o esforço, a dedicação e a batalha que foi montar aquele highline. Depois que faço a primeira travessia sem quedas, entro em um estado mais contemplativo, mais atento aos detalhes. É um privilégio enorme estar ali em cima, vendo a natureza de um lugar que normalmente só os pássaros conseguem enxergar, com liberdade e autonomia.


Fonte: Valentin Rapp
Fonte: Valentin Rapp

QUAL EXPERIÊNCIA MAIS TE EMOCIONOU? 


É difícil escolher uma, mas a Venezuela ocupa um lugar especial. Foi a realização de um sonho cultivado por mais de dez anos: montar um highline no Salto Ángel, no Parque Nacional de Canaima. A expedição exigiu dias de caminhada até o topo do Ttepui e resultou em um recorde mundial. Foi especial ficar cerca de quinze dias desconectado da tecnologia, mas profundamente conectado a quem eu realmente sou. Silenciar o excesso de informação do mundo hoje é um respiro de sanidade.



COMO COMEÇOU NO SLACKLINE? 


O slackline surgiu de forma lúdica, na universidade. Fiquei encucado com o fato de não conseguir atravessar uma fita de dez metros. Comecei a treinar para melhorar meu equilíbrio e acabei me aprofundando até chegar ao highline e à profissionalização.



VOCÊ VIVE NA CORDA BAMBA? O QUE TIRA SEU EQUILÍBRIO NA VIDA? 


Acho que todo mundo vive na corda bamba. O equilíbrio é um estado transitório, porque estamos sempre fazendo escolhas que nos tiram dele. O problema é viver no automático, sem consciência dessas escolhas. Quando isso acontece, o desequilíbrio vem.


COMO VOCÊ LIDA COM O RISCO EM SITUAÇÕES EXTREMAS? 


O cálculo do risco acontece antes da caminhada. O estudo, a preparação e as decisões prévias são o que trazem paz de espírito. Na hora de caminhar, faço apenas a checagem dos sistemas. Em ambientes de alta exposição, acidentes não acontecem por um erro isolado, mas por uma sequência de descuidos. Por isso seguimos protocolos, sistemas de backup e, principalmente, mantemos a calma. Nunca tive nenhum acidente ou incidente grave.



EM FLORIPA, QUAL TRAVESSIA MAIS TE MARCOU? 


A primeira que abri na Lagoinha do Leste, que batizei de Baleia Franca. Era uma linha curta, mas enfrentava o desconhecido: fazer o primeiro furo na pedra e montar todo o sistema. Foi extremamente desafiador e motivador. Também me orgulho muito do highline do Secret, ali ao lado do Gravatá, com 270 metros de distância. Era meu aniversário, mas acabou sendo um presente para a comunidade.


COMO VOCÊ VÊ O FUTURO DO SLACKLINE E DO HIGHLINE EM FLORIPA? 


Existe um trabalho de base muito forte aqui, de construção de locais, comunidade e conhecimento. A ideia agora é voltar a produzir conteúdos, documentários e eventos para fortalecer Floripa como um destino internacional de highline.



O QUE MAIS TE MOVE: RECORDES OU EXPERIÊNCIAS? 


Os recordes não são o principal motivador. Eles funcionam como reconhecimento social. O que realmente me move são as experiências, os encontros com pessoas, as histórias construídas ao longo dos projetos.



PARA QUEM QUER COMEÇAR, POR ONDE IR? 


Slackline é para todas as idades e corpos. O melhor lugar para começar é na praça, em encontros abertos. A comunidade é ativa e acolhedora. Quem quiser pode me procurar, trocar ideia, aprender sobre equipamento, técnica e autonomia. Aprender a se equilibrar na fita ajuda também a se equilibrar na vida.



Recordista mundial com registros no Guinness World Records, Bridi é conhecido por travessias de grandes distâncias e projetos que expandem os limites do highline em ambientes naturais extremos. Mais do que recordes, seu trabalho investiga o risco como linguagem e o equilíbrio como estado passageiro, dentro ou fora da fita.

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