o grito do hexa
- 23 de jun.
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De quatro em quatro anos, o Brasil muda de humor. As ruas ganham bandeiras, as conversas desviam de seus assuntos habituais e pessoas que raramente assistem a uma partida de futebol começam a discutir escalações, esquemas táticos e possíveis adversários. A Copa do Mundo tem esse poder raro de atravessar bolhas e ocupar um espaço que parece cada vez mais escasso: o do sentimento coletivo.

Vivemos uma época em que quase tudo nos separa, sejam opiniões políticas, crenças, valores ou visões de mundo; os algoritmos nos entregam versões personalizadas da realidade e, aos poucos, vamos habitando universos paralelos.
A Copa faz o caminho inverso: durante algumas semanas, milhões de pessoas voltam a olhar para a mesma direção.
Os leitores 30+ com certeza guardam lembranças que vão muito além do futebol. Pelé, Garrincha, Rivelino, Tostão, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Cafu e Roberto Carlos são nomes que despertam memórias de épocas em que os jogos paravam escolas, escritórios e bairros inteiros. A lembrança não é apenas dos gols ou das vitórias, mas da sensação de comunidade, da televisão ligada na casa dos avós, dos gritos atravessando a rua e da vizinhança inteira compartilhando a mesma ansiedade e a mesma emoção. Era como se, por alguns instantes, o país coubesse dentro de uma única sala.
Uma das maiores provas de que a Copa do Mundo continua sendo um fenômeno cultural está longe dos estádios, basta observar o que acontece com o álbum de figurinhas a cada edição: o que começou como uma brincadeira infantil se transformou em um ritual que atravessa gerações. Em Florianópolis, assim como em tantas cidades do país, não é difícil encontrar grupos reunidos em diferentes locais apenas para trocar figurinhas, e crianças negociam com a mesma empolgação de colecionadores veteranos, enquanto pais ajudam os filhos a completar páginas e acabam retomando memórias de suas próprias infâncias. O álbum cria encontros espontâneos entre pessoas que talvez nunca tivessem motivo para conversar.
A seleção brasileira também carrega uma coleção de histórias que ajudam a explicar essa paixão. O Brasil é o único país a ter participado de todas as edições da Copa do Mundo, desde 1930, e segue sendo o maior campeão do torneio, com cinco títulos conquistados em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. É também a única seleção a levantar a taça em quatro continentes diferentes. Não por acaso, algumas das imagens mais marcantes da memória coletiva brasileira nasceram em Copas: o sorriso de Pelé aos 17 anos, a irreverência de Romário, a ousadia de Ronaldo Fenômeno e a magia de Ronaldinho Gaúcho.
Agora, dias antes da estreia desta edição do jornal OFFLINE, estreia também a Copa do Mundo 2026. Neymar volta a vestir a camisa 10 da seleção e, como era de se esperar, sua convocação despertou entusiasmo em uns e desconfiança em outros – o futebol nunca foi unanimidade. Ainda assim, quando a bola rola, algo maior costuma prevalecer. A esperança encontra um jeito de se acomodar entre as diferenças.
Será bonito viver mais uma copa em Florianópolis, pois a ilha conhece bem a arte do encontro. Mesmo durante o inverno, quando os ventos ficam mais frios e os dias mais curtos, permanece, ainda que mais tímido, esse desejo de estar junto, seja nos cafés, nos bares, nas casas de amigos e nas rodas que se formam sem muito planejamento.
Talvez o hexa venha, talvez não. Mas, antes mesmo do primeiro apito existe a lembrança de que ainda somos capazes de compartilhar sonhos coletivos. E, nos tempos atuais, isso vale quase tanto quanto levantar a taça do HEXA.



