Moriel Costa: o som que vem do invisível
- larissashanti
- 25 de jun.
- 9 min de leitura
Atualizado: 26 de jun.
Algumas vozes atravessam o tempo. Como ondas do mar, vão, voltam, quebram em rochas novas, sempre trazendo algo que ficou. A voz de Moriel Costa é uma dessas. Não é só o timbre que marca, é o jeito de cantar o que é nosso, com aquele sotaque que não se afasta nem quando viaja o Brasil inteiro. Moriel é mais do que o vocalista da banda mais querida de Florianópolis, é o tradutor da ilha. Daquele que dança nos carnavais de Santo Antônio, que reza nas pedras da Mole, que se esconde em trilhas da restinga e se revela no batuque da vida simples. O encontro com Moriel aconteceu na Ponta das Almas. Ele chegou como quem já faz parte do cenário: sorriso aberto, pele dourada de quem acabou de sair do mar, olhar atento e aquela energia boa que todos sentem de longe. Saímos de lá com muito mais que suas palavras, o que Moriel nos deu foi imagens, sensações, silêncios que falam. Conversamos sobre música, espiritualidade, transformações, paternidade, cidade, silêncio e amor. Abaixo, os trechos desse encontro que ainda ecoam.
por: Cadu Zahran
fotos por: Thiago Mangrich
Antes de tudo, a Ilha:
“Com os pés na areia e o cheiro de restinga, volto ao útero da ilha”

Existe algum lugar da ilha em que você vá para se reconectar com você mesmo?
O canto direito da Praia Mole, na areia da praia, naquele ponto onde a Mata Atlântica encontra o Oceano Atlântico. Ali, minhas frequências se alinham e minhas intenções se conectam com a minha essência. É como se eu fosse reintroduzido ao útero da Ilha.
O que você sente que há de invisível em Florianópolis?
Aquilo que deveria ser prioridade, mas que não é percebido. Os manguezais, as restingas… áreas que sustentam a vida da ilha, mas que parecem invisíveis aos olhos do poder público e da ocupação desordenada. Junto com esses espaços, também fi ca invisível a cultura que vive neles: o saber dos pescadores antigos, dos extrativistas do mangue.
Você acredita que a música também tem um lado espiritual? Já sentiu compor algo que parecia vir “de outro lugar”?

Com certeza. A ilha te entrega muita coisa pronta. A música “Galheta”, por exemplo, fala desse mundo invisível que habita a Ilha: bruxas, sacis, piratas, fantasmas, espíritos. Na letra da música, uma mãe sente que o fi lho está em alto-mar, com uma tempestade vindo. Ela pega lenha seca, acende o fogo, reza com fé. A fumaça da chaminé sobe com tanta força que muda o vento. O maral vira terral. Esse vento, esse momento mágico, é o que os surfi stas aproveitam. A Ilha oferece essa harmonia o tempo inteiro. É só entender e colocar melodia.
Como você vê a transformação da ilha nos últimos 30 anos?
Foram muitas substituições. Onde tinham engenhos de farinha, hoje têm prédios. Onde tinha cultura viva, hoje tem especulação imobiliária. A Praia Brava virou condomínio. Os manguezais foram esquecidos. Isso é fruto de uma capital sem plano diretor, com uma câmara que não protege o que deveria. A maior riqueza da ilha é onde a mata encontra o oceano, e justamente aí é que se constrói. O resultado disso? Falta de cuidado com o lixo, degradação cultural. Claro, é bom ter gente de todo lugar, ter mistura, mas isso também vem tirando a originalidade da Ilha.
A voz do tempo:
"Nasci no meio de milhares de pinheiros, mas eu saquei que eu sou uma goiabeira".
Qual foi a primeira música que você compôs que te fez pensar “isso é meu”?
Foi “Cubo”: “O meu compromisso com a minha natureza é de não ser igual. Nasci no meio de milhares de pinheiros, mas eu saquei que eu sou uma goiabeira.” Fiz essa música pensando nas pessoas ditas com defi ciência, mas também sobre como todos nós temos nossas limitações. É essa autenticidade que nos difere e nos conecta com os outros.

O que a tua geração carrega que você acha que se perdeu? E o que a nova geração te ensina?
Perdemos a liberdade de brincar na rua até tarde; aquele medo saudável da noite. Mas também deixamos para trás o que precisava ser deixado: farra do boi, caça, queimadas nos morros. O que a nova geração me ensina é a urgência de cuidar. Essa galera precisa de verde, precisa de segurança. Se a gente pensasse a cidade para uma criança de 10 anos, já estaríamos correndo para despoluir a Lagoa da Conceição e as baías.
O tipo de som que você busca hoje é o mesmo que te movia no início?
Sempre curti Bob Marley, Caetano, Gil… Mas também Ney Matogrosso, Cazuza, Lenine. A música brasileira é um universo, tem tantas regiões, estilos, sons. Me alimentei muito de capoeira, de chorinho. Claro, não dá pra citar todos aqui, mesmo de Floripa tem gente gigante: Daniel Lucena, Luiz Henrique Rosa, Luiz Meira… Também gosto muito do que tá vindo: trap, rap, samba moderno, o que os DJs estão criando, as releituras, as batidas novas... Gosto de Lineker, de Hungria, das sacadas da nova geração. Mas, acima de tudo, o que mais me toca é a música que transforma. Música que é arte, não artifício. Porque tem muita gente famosa que não diz nada… e muita gente pouco conhecida com recados poderosos.
O som que não toca no rádio:
“A música tempera nossa vida, que seria sem graça se não tivesse a arte para nos acender”

O que você acha que o silêncio pode ensinar para um músico?
O silêncio é a parte mais importante da música. É na pausa que você dá o recado, deixa a espera, prepara o terreno pro que vem. No processo criativo, o silêncio serve pra zerar o HD, pra limpar a mente, pra inspirar.
Como você lida com o digital (as redes sociais)? O Moriel do Instagram é você mesmo ou uma versão?
Tenho duas redes sociais: uma pro meu personagem, mané Darci e outra pro Dazaranha. Tento sempre traduzir, com o humor e com a música, aquilo que foi materializado com dedicação. Claro que sigo algumas pessoas, tendências, me informo, dou risada... mas nunca esqueço que o celular é só um eletrônico, e que o botão de desligar existe. Aqui em casa até rola uma cobrança: “Ô, maluco, sai daí!”. É isso: a gente tem que brincar com as redes, não deixar que elas brinquem com a gente.

Dazaranha:
"Tem aquela coisa de entender que tudo muda, e tá tudo bem".
Daza marcando gerações. Fale um pouco sobre isso!
O Daza chegou numa cena que já tinha muita gente marcando território: artistas incríveis, músicas fortes, caminhos abertos. Nós viemos para somar, dar continuidade à construção cultural da cidade. E é lindo ver como as gerações se encontram nas nossas músicas: gente que nasceu ouvindo, casou, se emocionou. É emocionante ver um pai passando a banda pros filhos, ver criança cantando as músicas.
O Daza tem mais de 30 anos de estrada. Qual música da banda você sente que envelheceu junto com você e continua dizendo coisas novas?
A música “O Mané”. Fiz há mais de 20 anos, mas parece que foi ontem. Ela fala da nossa origem, da honestidade como filosofia, da maré alta e maré baixa que a vida é. Tem aquela coisa de entender que tudo muda, e tá tudo bem. Floripa é ilha, é turística, é acolhedora. Essa música fala disso: de porta aberta, de receber com carinho. E, pra mim, ela segue atual porquê fala da essência, da nossa verdade.
Em que momento da carreira você sentiu: “Agora isso aqui virou algo maior que a gente”?
Foi quando começamos a fechar ruas. Quando o público passou a ser maior que os espaços. Teve um show marcante, em Curitiba, em uma festa da Town & Country, junto com o Marcelo D2. Lembro de ver o rosto das pessoas impressionadas com o som da banda. Mas foi no sul de Santa Catarina que a gente virou, de fato, uma banda catarinense. Criciúma, Urussanga, Araranguá, essas regiões nos abraçaram, nos deram o status de banda do estado inteiro. Isso foi gigante.
Que lugar fora da ilha mais te surpreendeu com a recepção da banda?
Blumenau! Quando lançamos o disco “Afinar as Rezas”, o primeiro sem a voz do Gazu. A resposta do público foi absurda. Cantaram alto, com força, com entrega. Aquilo reafirmou a nossa estrada, nos deu segurança para seguir. Foi uma noite emocionante.
Existe alguma ideia de música ou disco que nunca saiu, mas que ainda está viva dentro de você?

Tem sim. Tenho três desejos grandes:
• Um álbum de samba, com as músicas do Daza nessa levada;
• Um álbum remix, com um DJ bom, trazendo nova textura pras nossas faixas clássicas;
• Um álbum infantil, com músicas pra criançada cantar e crescer ouvindo boas ideias.
Surf, skate, voo livre, vela, capoeira. Em qual tribo o Daza transitou com mais intimidade na sua história?
A capoeira foi e é fundamental. Eu e o Gerry somos mestres. Muita coisa do Daza nasceu dos ritmos, da espiritualidade, da força da capoeira. Mas o surf também é parte disso tudo; porque falar de surf é falar da praia, do costão, da galera, da ilha como ela é.
Qual sua música favorita do Daza?
“Cama Brasileira”. Ela fala da nossa brasilidade, da arte que acende, do quanto a música é nosso cobertor, nosso travesseiro, nosso abrigo.
Palco, coração, família:
“O inesperado acontece; o que a gente pode fazer é buscar leveza.”
Fala um pouco sobre vulnerabilidades, amor e legado.
Vulnerabilidade é parte da vida. Todos somos e seguiremos sendo vulneráveis. O inesperado acontece; o que dá para fazer é ter discernimento, buscar caminhos de prazer, conforto, leveza. E o amor é o agente transformador. É o que te leva para essas praias lindas da vida: alegria, realização, paz. O amor é a essência da existência. Meu legado é deixar muita música, muita piada, muito recado bom. Ser lembrado como alguém que “chegava pra cima”, que trazia coisa boa.
O que te emociona hoje em dia?

Ver meus filhos crescendo mexe comigo. Eles são, de certa forma, minha imortalidade. O Ícaro, meu primeiro filho, que fez 30 anos em maio, é, sem dúvida, uma das pessoas mais importantes da minha vida. O nascimento dele foi a virada mais verdadeira que eu já vivi. Foi quando o ego e o egoísmo, que às vezes a gente nem percebe que carrega, começaram a ceder espaço pra algo muito maior: a paternidade. Hoje, o Ícaro é meu norte. Conversar com ele é como olhar pra frente com mais clareza. Ele tem uma capacidade rara de interpretar a vida, de me guiar, de me ensinar. E eu aprendi a escutá-lo. Ele é meu técnico, meu coach, meu mestre. Essa habilidade de aprender com os filhos não vem de um dia pro outro. Ela nasce da entrega, da convivência, do amor que vai se construindo com o tempo e se tornando troca verdadeira. E isso é um privilégio.
Existe alguma música que você nunca consegue cantar sem sentir um nó na garganta?
“Carretão.” Fala das crianças em situação de rua no Brasil. Esse nó não é só na garganta, é no peito, na alma, na história desse país. Essa música fala de um Brasil que ainda precisa acordar. As crianças precisam de conforto, comida, escola, cuidado. Nós, adultos, precisamos dar as mãos e mudar isso.
O que você espera que as pessoas sintam quando ouvem tua voz?
Voz é frequência. Quero que minhas canções fertilizem a consciência, que provoquem sensibilidade, que ajudem a construir um mundo mais harmônico. Se eu alcanço alguém e ajudo a melhorar o olhar dela pro mundo, já valeu a pena.
Se o Moriel de hoje cruzasse com o Moriel de 20 anos atrás, qual seria um conselho que você daria?
Eu me diria: “Te alimenta melhor. Cuida da saúde. Come menos açúcar.” Ser mais preventivo. Observar o corpo, escutar o coração. Também me incentivaria a continuar: capoeira, surf, música… Tudo isso me construiu. Me considero uma pessoa maravilhosa por hoje estar bem comigo mesmo, realizado em muitas áreas. Os traumas, os percalços da vida, me fizeram valorizar o que tenho: minha cama, minha comida, minha esposa e minha existência.
MANÉ DARCI

Criado a partir das lembranças da Costa da Lagoa, o personagem Mané Darci nasceu do encantamento de Moriel Costa com a linguagem viva, veloz e única dos moradores da região. É mais que humor: é resistência cultural. Com sua língua solta, o Darci escancara o que muitos preferem calar; e isso liberta. “Ele pode zoar quem quiser”, diz Moriel, sorrindo, mas consciente de que essa liberdade tem propósito. Darci não romantiza o que não deve: é contra a farra do boi, contra o que machuca. Mas também é um canal de luz. Como em uma noite em que arrancou gargalhadas de uma senhora que, segundo a neta emocionada, não sorria há tempos. Talvez seja isso: usar o riso como cura. E o personagem, como ele mesmo diz, vira ferramenta de conscientização. Ele, com irreverência, preserva o espírito da ilha e planta, no rastro da piada, uma semente de afeto, identidade e reflexão.
Vale acompanhar o @manedarci no Instagram, ou cruzar com ele em suas andanças por Floripa.
UMA COINCIDÊNCIA QUE SÓ A ILHA EXPLICA
Quando decidimos que Moriel Costa seria a capa desta edição do OFFLINE, ainda não sabíamos que ele carregava tantas histórias – como o lendário Seu Waldir, o Monstro da Lagoinha, personagem da nossa coluna Mané Curioso, nesta mesma edição. Pois é. Como se guiado por uma daquelas forças invisíveis que sopram sobre a ilha, Moriel nos contou, em meio à entrevista, das vezes em que dormiu no barraco do Seu Waldir. Lá, ele pescou uma corvina enorme com tarrafa e ouviu, com aquele sotaque manezinho afiado, lições inesperadas como: “Quantas não tinham, pra pegar só uma?” — uma tirada do Seu Waldir que ele não esqueceu até hoje. Se você, assim como a gente, ficou curioso para saber quem é essa figura lendária, mergulhe na história do Monstro da Lagoinha. Porque no Jornal OFFLINE a magia da ilha faz tudo se cruzar e os encontros nunca são por acaso.