a era do corpo real
- larissashanti
- 16 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
O verão sempre foi uma estação de exposição. O calor nos convida a tirar as camadas, mostrar a pele e revelar o corpo. Por muito tempo, esse gesto natural foi carregado de julgamento, com olhares que medem, padrões que comparam, e uma indústria que transformou a beleza em um produto inalcançável.
Agora, há um novo espírito pairando no ar, nas redes, nas ruas, nas praias. É o retorno do corpo real. O corpo que existe antes da edição e da expectativa. O corpo que vive, que sente, que muda. O corpo que é.

O verão, com toda sua força solar, parece o cenário perfeito para essa virada. A luz intensa não perdoa filtros, talvez por isso esteja nascendo a estética da autenticidade. Marcas começam a abandonar a promessa do “perfeito”, campanhas celebram peles com manchas, rugas, cicatrizes, e influenciadores mostram corpos que suam, se mexem e riem sem pose. O que antes era exceção virou desejo.
Mas essa não é só uma tendência visual. É um deslocamento cultural. Depois de décadas de culto à imagem, começamos a entender que não há liberdade possível quando o espelho é uma prisão. A geração que cresceu sob o peso das comparações online começa, aos poucos, a se liberar das amarras da performance estética. Esse movimento não nasce de slogans, mas de exaustão.
O corpo real não é um conceito novo, é o corpo de sempre. Só que, por muito tempo ele foi censurado, ajustado, silenciado. Hoje, ele reaparece como resistência. Resistência à lógica do consumo, à cultura do retoque, à velocidade de um mundo que nos quer sempre melhores, mais jovens, mais “adequados”.
Ser real nesse novo tempo é um ato político. É escolher a integridade em vez da aparência. É aceitar que o corpo é cíclico e se transforma com as fases da vida, com o humor, com o clima, com as escolhas. É olhar para si com curiosidade, não com cobrança.
Nas praias e ruas de Florianópolis, esse espírito se manifesta de forma quase intuitiva. Os pés descalços, os cabelos salgados, o biquíni desbotado, a pele marcada de sol e mar. Há uma estética natural que nunca deixou de existir por aqui, apenas ganhou novo nome. O corpo real é o corpo que vive a ilha, que se entrega à vida ao ar livre, que corre, surfa, dança, cozinha, ama.
Essa liberdade tem cheiro de protetor solar e som de risada alta. É o oposto da contenção. É sobre ocupar o próprio espaço por inteiro, sem pedir licença. O corpo real não é o que “não liga para nada”; é o que se cuida com carinho, mas sem obsessão. É o corpo que sabe que saúde não tem forma única e que beleza não cabe em moldes.
Talvez este seja o verdadeiro zeitgeist do verão: a reconciliação com o corpo como território vivo, não como vitrine. O reencontro com o prazer simples de se despir do que pesa. Um convite para lembrar que somos natureza, que o corpo, como o mar, tem marés, profundezas e superfícies.
Na era do corpo real, a imperfeição é o novo luxo. E a liberdade, o novo padrão.



