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uma ilha muito longe daqui

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
Por Rodrigo Borges

– Vô, o senhor pode contar a história daquela ilha que ficava muito longe daqui?


Ele sorriu, olhou para a neta e disse:

– Claro, minha querida. Você trouxe a escuta?

– Trouxe, vô.

– Então senta aqui.


Existia uma ilha muito bonita. Muito longe, muito longe daqui. Água por dentro e por todos os lados, vento constante, gente ativa. Uma ilha onde o corpo estava quase sempre em movimento. Quatro estações bem marcadas, boas histórias e uma certa magia no ar. Encontros no nascer do sol, festas no nascer da lua. Tudo parecia caminhar bem. Gente interessante, coragem estampada no corpo, agendas cheias. Tudo parecia lindo.


Mas quem vivia ali, e caminhava com a escuta atenta, começou a perceber algo estranho, um ruído novo. Ninguém sabia dar nome. De fora, parecia felicidade. De perto, com um pouco mais de atenção, soava diferente. Era como uma tristeza com aparência de férias. Um brilho que, ao se aproximar, revelava menos luz. Nada grave ainda. Apenas um início de opacidade.


Os mais antigos diziam que parecia que a alma daquele povo começava a se afastar do corpo. O corpo seguia bonito, ativo, performático. Mas a alma chegava atrasada.


– E como era essa ilha por dentro, vô?

– Era linda. Cheia de potência.


Havia tribos. No começo, uma tribo maior, que foi se dividindo em muitas outras. Cada uma criou sua linguagem, seus códigos, suas vestimentas, suas maneiras de mostrar poder, seus desejos, suas certezas. E quase todas, sem perceber, inventaram um jeito de matar a escuta.


Fonte: Huan Gomes (sem uso de I.A)
Fonte: Huan Gomes (sem uso de I.A)

– Escuta, – explicou o avô –, não é só ouvir o outro. É ouvir a natureza, os ritmos e, principalmente, ouvir a si mesmo.


Com o tempo, foi ficando natural que uma tribo falasse menos com a outra e mais, apenas, entre si. O que era tribo virou bolha. Como bolhas de sabão. Dava para ver por dentro, mas havia uma película transparente e frágil as separando.


– Mas por que, vô, se todo mundo tinha sonhos parecidos e vivia numa mesma ilha?

– É. – respondeu ele – Muito esquisito.

No início, as bolhas pareciam proteção. Depois, viraram modo de funcionamento. E as conversas entre tribos quase desapareceram. Quando existiam, os assuntos se repetiam. Perguntas rápidas. Respostas curtas. Aquele movimento que estava fora começou a entrar nas bolhas menores. Essas bolhas menores chamavam amizade, parceria, trabalho, relação entre pais e filhos, mães e filhas, casamento. E o silêncio da ilha grande começou a morar ali também.


Os dois ficaram em silêncio.


– Vô, é verdade que naquela ilha existiu uma grande guerreira?

– Existiu, sim.

– Meu sonho é ser uma guerreira. Será que eu consigo?

O avô sorriu.

– Você vai conseguir. Pode tudo o que quiser.

– E o que precisava pra virar uma guerreira? Precisava ser radical?

– Aquela ilha teve mulheres e homens muito fortes, admirados, respeitados. Gente que enfrentava mares enormes, dominava o vento, atravessava florestas densas. Tinham conquistado quase tudo do mundo de fora. Ele fez uma pausa. – Mas, com o tempo, essa guerreira percebeu que o mais difícil não era enfrentar as ondas, e sim os próprios pensamentos. Não era dominar o vento, mas sustentar o silêncio. Não era vencer o outro, mas ficar bem na própria companhia. Foi assim que ela entendeu que radical mesmo era conseguir passar um dia em paz. Radical era domar o pensamento e criar intimidade com o sentimento. Radical era não perder a escuta.

– Mas eu já me sinto em paz, vô. E eu já tenho escuta.

O avô a abraçou.

– Então, talvez você já seja uma guerreira. Enfrentar ondas e ventos pode ser só mais uma parte do caminho. O mais importante é não perder esse fio. Coração aberto, escuta viva, curiosidade pelo mundo e pelas pessoas.

Eles se abraçaram.


– Vô, essa história aconteceu numa ilha muito longe daqui, né?

– Muito longe – respondeu ele –, mas com belezas que parecem as belezas daqui e com problemas que parecem os problemas daqui.

– E o que a gente faz pra não acontecer aqui?

O avô respirou fundo.

– Primeiro, conhecendo histórias que deram certo e histórias que deram errado. Depois, as contando. Pro nosso povo. Pras nossas bolhas. Pras nossas relações.

– E por onde eu começo?

– Escolhe quem ainda anda com a escuta no bolso.


E, de conversa em conversa, quem sabe a gente aprende a escutar melhor a si, os outros e, sem pressa e sem pausa, a ilha inteira.



Rodrigo Borges é comunicador, artista e mediador dedicado a experiências e encontros. Criador do espetáculo e podcast "Nas Internas", da festa "Abre Caminhos" e do "Clube do Diálogo", constrói pontes entre o popular e o filosófico há quase duas décadas.
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