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tecendo a liberdade

  • 23 de jun.
  • 4 min de leitura

Ao ser o primeiro homem rendeiro da ilha, Dinho desafiou o preconceito e transformou a própria história. Passou de vergonha a símbolo, tecendo, entre a dor e a superação, uma vida inteira de liberdade


Aos 15 anos, Dinho descobriu a renda. Por volta de 1970, no tradicional Pântano do Sul, podemos imaginar que isso não aconteceu como tradição herdada com naturalidade. Era um segredo: aprendeu escondido, espiando a prima enquanto ela trabalhava, esperando o momento exato em que a casa ficava vazia. Quando alguém voltava, era preciso esconder tudo – a almofada, os bilros, o desejo. Às vezes, até jogar nas dunas o que não podia ser visto. Muito além do simples movimento de aprender uma arte ou um ofício, era sobre existir em silêncio.


Naquele tempo, um menino fazendo renda já era motivo de estranhamento; um menino gay, então, era alvo de dois julgamentos ao mesmo tempo. Dinho sentiu isso na pele. Sentiu tanto que, aos 18 anos, deixou Florianópolis carregando nas costas uma palavra que ninguém deveria carregar: vergonha. Não a que ele sentia de si mesmo, mas a que atribuíam a ele. Foi embora, então, com uma promessa íntima: um dia voltaria por cima.


O mundo o recebeu sem roteiro, sem garantias. Em São Paulo, fez de tudo: garçom, faxineiro, virou o que fosse preciso para seguir. Viveu também no Canadá, onde foi bailarino de lambada, experimentou outras paisagens, outros silêncios, outras possibilidades.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes
Mas, curiosamente, deixou para trás justamente aquilo que mais tarde o salvaria: a renda.

Foi só em 1998 que voltou ao Pântano. E voltou como quem retorna ao próprio chão, mesmo depois de ter sido expulso dele de tantas formas invisíveis. Ali assumiu o volante de uma ambulância e, durante 13 anos, conduziu quem precisasse entre consultas, exames e tratamentos. Até que a vida, mais uma vez, puxou o tapete: a ambulância se foi; um amigo muito próximo partiu. E o que ficou foi um vazio difícil de nomear. Dinho entrou em um estado que hoje ele reconhece como uma depressão. Foi no consultório de um psiquiatra que teve de escolher entre medicamentos ou tentar primeiro outro tipo de tratamento, como focar em uma atividade que lhe daria prazer e trouxesse propósito – melhor ainda se fosse um trabalho com as mãos.


As mãos lembraram antes da cabeça e a renda voltou. O que era segredo virou cura. O que era vergonha virou remédio.


Ele começou com a proposta de um mês; já se passaram dez anos e Dinho nunca precisou de medicamento algum além dos fios, dos bilros e do tempo paciente do fazer manual. “Meu remédio tá aqui”, diz, apontando para a almofada.


Mas a história não para na superação individual. Ela ganha corpo quando encontra o coletivo. Em 2020, quando um curta-metragem sobre sua vida ficou pronto, Dinho fez questão de estrear no Pântano do Sul: era ali que tudo precisava ser dito, era ali que as palavras engasgadas precisavam finalmente respirar. O silêncio do público parecia um velório, mas era, na verdade, um renascimento. Gente chorando, não de tristeza, mas de reconhecimento, de reparação. O menino que um dia foi motivo de vergonha voltava como espelho.


O mais bonito é que Dinho nunca quis provar nada para o Pântano; ele queria provar para o mundo (e, principalmente, para si mesmo) que ser quem se é nunca foi erro. “Ser homossexual não é defeito, não é doença. O que tem que existir é respeito.”, diz com a simplicidade de quem transformou dor em princípio.



Fonte: arquivo pessoal
Fonte: arquivo pessoal

Muito antes de ser reconhecido como artesão, Dinho já ocupava outro lugar de expressão no Pântano do Sul: o carnaval. Entre blocos improvisados, festas e encontros, foi um dos que ajudaram a dar forma à alegria popular da comunidade — muitas vezes se travestindo, brincando com os limites já estabelecidos e abrindo espaço para que outros também pudessem experimentar essa liberdade. O que começou como uma “bagunça” despretensiosa cresceu a ponto de reunir multidões; um dos carnavais chegou a receber cerca de 30 mil pessoas no Pântano, sem planejamento, sem estrutura, só movidos pela energia do encontro. Em um tempo de rigidez, sua presença era provocação e convite e, como ele mesmo diz, sempre sustentada pelo respeito.


Esse respeito foi construído com uma coerência rara. Entre momentos de irreverência e liberdade existe uma linha invisível que ele nunca cruza: a do cuidado com o outro. “Eu faço toda essa palhaçada, mas nunca encostei o dedo em ninguém, nunca me passei.” Dinho é um guardião de histórias. Um corpo vivo de resistência. Um símbolo de inclusão num lugar onde, por muito tempo, o diferente era silenciado.


Em relação às rendas de bilro, Dinho, assim como outras rendeiras, muitas vezes dedica uma semana inteira de trabalho a uma única peça que será vendida por algo em torno de R$ 50; uma injustiça sem tamanho diante de um mundo que paga milhares por produtos industrializados, mas ainda não aprendeu a reconhecer o valor de algo feito à mão, com alma.


Para Dinho, a renda é joia. É herança açoriana, é energia que entra na casa das pessoas. “Tu tá levando uma coisa feita com muito carinho e empenho.”, ele diz. E nisso existe quase uma filosofia: o que é feito com as mãos carrega o estado de quem faz. Por isso, nos dias ruins, ele nem se senta para trabalhar. Se recusa a contaminar o que deve nascer leve.


Hoje, aos 70 anos, Dinho carrega diplomas de mestre artesão, viagens pelo Brasil representando Florianópolis, histórias que atravessaram oceanos e uma certeza simples:


“Seja homem, seja mulher, seja quem for, faça o que quiser. Mas faça com amor. No fim, é isso que fica.”

No meio dos fios entrelaçados, das voltas que a vida dá, dos nós que apertam e dos que se soltam, Dinho tece algo que tem cara tanto de renda quanto de liberdade.


PARA ADQUIRIR AS RENDAS DE DINHO, acesse seu instagram (@asrendasdedinho) ou visite o Armazém da Renda — um espaço cultural e comercial focado na preservação da renda de bilro.


LOCALIZAÇÃO: Box 78 do Mercado Público de Florianópolis.

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