top of page

o congresso bruxólico

  • 21 de mar.
  • 2 min de leitura

É há muito que contam, entre os contos de vó e os papos furados, da existência de um lugar no norte da ilha considerado preferido pelas bruxas da região. A dita Ponta da Feiticeira não ganha esse nome por acaso: o trecho entre as praias Brava e dos Ingleses, que abriga outros marcos como a Pedra da Feiticeira, Trilha da Feiticeira e Morro da Feiticeira, é palco antigo de acontecimentos fantásticos, luzes misteriosas e aparições inexplicáveis com frequência suficiente para serem coisa de muitas bruxas juntas. Histórias dizem que é um verdadeiro ponto de encontro.


As bruxas, vejam bem, em toda sua experiência prévia nas ilhas açorianas, são extremamente organizadas. Atadas por um voto de obediência mágica a seres superiores, existem bruxas apontadas como responsáveis por cada um dos cantos das vilas.

Fonte: Huan Gomes (sem uso de I.A)
Fonte: Huan Gomes (sem uso de I.A)

Quando escolhidas, recebem como prova de sua formação em academia bruxólica um papel enrolado igual a um novelo, marcando-as como bruxas-chefe, vindo a ser delas a responsabilidade de educar as outras durante reuniões semanais feitas, preferencialmente, em casas mal-assombradas, encruzilhadas, grutas, caminhos desertos e ranchos de pescaria. De tempos em tempos, no entanto, há de ser feita uma reunião entre bruxas-chefe, para que alinhem os ensinamentos passados adiante, recebam novas instruções e discutam os métodos necessários para manter a ilha tocada por magia.


Reza a lenda que, em uma noite de sexta-feira, saíram pai e filho para tarrafear de canoa perto dos Ingleses. Depois de muito jogar a rede e pegar pouco peixe, atracaram a canoa na praia para um cochilo à espera da maré baixa. Por volta das onze e meia da noite, perto da hora das bruxas, acordaram ao ouvir um enorme estrondo vindo de cima de uma das pedras: materializou-se um chalé incrustado nas pedras do costão, cercado por um poder visível mesmo à distância e com as paredes cobertas por todo tipo de animal peçonhento.


Na porta, uma velha bruxa guardava a passagem, enquanto ao seu lado outra marcava as horas e uma terceira iluminava o caminho. Iam chegando pouco a pouco as participantes restantes, vindas de todas as direções.

Sentindo o ar carregado de magia e vendo a trilha coberta por aranhas, os pescadores esconderam sua luz, encolhendo-se bem, para não serem vistos; entenderam que aquilo ali era um congresso, que logo fechariam as portas. Não deu outra: subitamente a noite foi cortada por um enorme morcego vermelho, assustador, que bateu a porta ao entrar, acalmando tudo. Com mais um estrondo, à meia-noite o cenário se esvaiu em fumaça; não se via mais o chalé das bruxas. No dia seguinte, o único sinal de algo diferente pela região era o movimento de vários pássaros circulando pelos ares em cima do morro.


Só as bruxas sabem de seus congressos e seus assuntos, a nós cabe apenas a curiosidade. Em caso de dúvida, se quiser visitar a praia em uma noite de sexta-feira, é melhor já ir sabendo que pode ser dia de reunião.


ESTA HISTÓRIA É TIRADA DE UM CONTO de mesmo nome encontrado no livro “O fantástico na Ilha de Santa Catarina”, escrito por Franklin Cascaes, revisado por Oswaldo Antônio Furlan e publicado pela Editora da UFSC em 2012

bottom of page