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com quantos paus se faz uma canoa?

  • 21 de mar.
  • 3 min de leitura

Dote nasceu em 15 de outubro de 1953, Dia do Professor – talvez não por acaso. Filho de família nativa do sul da ilha, carrega no corpo e na fala um tipo de conhecimento que não se aprende em livro, mas na vida vivida no meio da natureza. Cresceu no José Mendes e, há mais de três décadas, vive na Costeira do Pirajubaé, território que conhece de olhos fechados


Caçula de cinco irmãos, teve uma infância atravessada pelo mar. Enquanto os mais velhos iam trabalhar, ele ajudava o pai organizando material de pesca. Aos 7 anos, antes mesmo de entrar na escola, já sentava quieto no fundo de uma canoa de um pau só, entre o patrão e o proeiro, sentindo o mundo balançar.


Aprendeu cedo que existem dois mares: o de dentro, voltado para o continente, e o de fora, voltado para o Oceano Atlântico, aberto; foi no de dentro que encontrou em seu pai, nos tios, nos vizinhos e nos pescadores seus maiores mestres. Com eles, aprendeu a ler o tempo:

Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

• Lua nova não limpa o tempo.

• Noroeste na costa, sul na resposta.

• Vento sul com terra molhada dá três dias de vento.

• Saracura cantando forte no manguezal também anuncia água.

• Trovoada de leste vem com chuva.


Até hoje, seus filhos confiam mais nas previsões dele do que nas da televisão.


Seu nome está ligado a uma das tecnologias mais antigas da ilha: a canoa de um pau só.


Um único tronco, escavado com paciência, atenção e respeito. Elas cortam as ondas com segurança, com autoridade, entendendo o mar e obedecendo ao corpo de quem rema. Cada uma carrega a história da árvore que foi e das mãos que a moldaram.

Depois que uma árvore vira canoa ela não morre, continua viva na memória de quem rema.
Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

Durante muitos anos, Dote também trabalhou no Carnaval de Florianópolis, ajudando a construir e decorar carros alegóricos. Mais tarde, por ser profundo conhecedor da região onde hoje está a Reserva Extrativista do Pirajubaé, foi convidado a integrar o conselho como representante da população tradicional e pescador artesanal. Desde então, tornou-se referência para pesquisadores, estudantes e curiosos que buscam entender esse território.


Para Dote, o garapuvu e a canoa nasceram um para o outro. Durante décadas, foi dessa árvore que saiu a canoa de um pau só, mas em 1992 o garapuvu foi declarado árvore-símbolo de

Florianópolis e seu corte passou a ser proibido. A decisão foi fundamental para a preservação, marcou, no entanto, a cultura da pesca artesanal.


Dote entende a proteção da árvore, mas sente a perda do vínculo: para ele, depois que uma árvore vira canoa, ela não morre, continua viva no balanço, no movimento, na memória de quem rema. “Não dá pra separar corpo e alma”, costuma dizer. Olhar uma canoa é, assim, olhar a própria árvore.


Seu trabalho mais delicado é restaurar canoas antigas. Não é apenas madeira que ele conserta, são memórias. Cada reforma envolve contações de histórias sobre o pai, o avô, sobre pescarias que já não existem mais. Às vezes, vêm lágrimas junto. Ele sabe que ali não é só madeira: é sentimento.


O mar ensinou quase tudo a Dote. E se ele ainda não sabe tudo, é porque, como diz com um sorriso manso, faltou a muitas aulas.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

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