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o caçador de vírgulas

  • 23 de jun.
  • 3 min de leitura

Entre anatomias impossíveis e criaturas que poderiam existir, Walmor Corrêa constrói uma obra que habita o território instável entre ciência e imaginação. Referência na arte contemporânea brasileira, seu trabalho já percorreu museus e instituições no Brasil e no exterior, criando um universo onde o método científico encontra o delírio e onde o impossível ganha forma. Aqui, Walmor nos conta sobre a origem desse olhar

11ONZ
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Sou manezinho da ilha, com orgulho. Nascido, inclusive, na Maternidade Carlos Corrêa – o que, de certa forma, funciona como um passaporte. Cresci em uma Florianópolis muito diferente da de hoje: era uma cidade ainda mais segura, sem grandes medos, onde a gente tinha praticamente tudo como espaço de convivência e de brincadeira. Não existiam os limites que hoje o mundo nos impõe.


A primeira vez que saí de Florianópolis foi para estudar no Rio Grande do Sul, que tinha uma das melhores faculdades de arquitetura na época. Desde então, minha relação com a ilha sempre foi de idas e voltas; hoje moro em São Paulo, mas ela ainda me atravessa. Minha família está toda aqui, muito presente na minha vida, assim como meus amigos de uma vida inteira. Eu nunca deixei esse lugar.


Cresci ouvindo e vendo Franklin Cascaes, Meyer Filho, histórias e conversas de pescador. Era uma outra vivência, onde o imaginário fazia parte do cotidiano. Isso despertava em mim uma curiosidade que nunca cessou — uma vontade de entender esse universo mágico e místico e, ao mesmo tempo, questionar suas possibilidades. Já adulto, comecei inclusive a provar algumas dessas possibilidades de forma científica.


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Minha formação passou pela arquitetura e pela publicidade, embora o meu primeiro interesse tenha sido a biologia.




Pensando em quando a arte entrou na minha vida, existe uma imagem que nunca saiu de mim: meu pai tinha uma fazenda, onde passei alguns dos melhores momentos da minha infância e adolescência. Eu tinha uns nove, dez anos, e um cavalo — um petiço, pequeno, próprio para criança. Eu passava muito tempo ali, andando, observando. Sempre fui muito atento à natureza, aos animais, principalmente aos pássaros. Um dia, andando com o petiço, vi uma lebre entrando numa toca, perto de uma pedra. Um pouco mais adiante, encontrei uma coruja buraqueira, que também fazia o ninho em uma toca muito parecida. E aquilo, na minha cabeça, se organizou de forma muito clara: ali nasciam as corujas-lebres. Para mim, uma das tocas era a entrada e a outra era a saída. Essa forma de pensar nunca me abandonou.


Fonte: 11ONZ
Fonte: 11ONZ

Hoje eu não me defino por uma única linguagem. O trabalho é que me diz como ele quer existir. Eu transito entre desenho, pintura, escultura, instalação, escrita, poesia. Eu me reconheço nessa mistura: um pouco pesquisador, um pouco arqueólogo, um pouco historiador, um pouco desenhista, um pouco pintor. É tudo junto.


Costumo dizer que sou um caçador de vírgulas. Busco, em qualquer tipo de texto — de uma bula de remédio a um livro de poesia ou a um texto científico —, aquilo que me interrompe.

A vírgula é essa pausa onde eu penso: “Isso é interessante.” É ali que eu me aprofundo, e é a partir dessa pausa que o trabalho acontece, dando luz à curiosidade, à inconsistência, ao que ainda não se explica.


O nível de detalhe e precisão não é algo só do trabalho, mas é como eu sou na vida. Eu gosto de observar, de entender, de esmiuçar. Fiz terapia por mais de 30 anos — e talvez ainda volte, porque tenho essa necessidade de ir fundo nas coisas. Não consigo separar o que sou do que faço. Se existe algo que atravessa tudo, é a curiosidade, o interesse, a pesquisa. São essas as forças que despertam em mim tudo aquilo que me faz produzir.


"Amor agarradinho", da série                                        "etnografia cultural da flora mágica brasileira"
"Amor agarradinho", da série "etnografia cultural da flora mágica brasileira"

A vida pode ser fragmentada e, às vezes, opressiva. É a arte que nos permite expandir, reorganizar e resistir. Como disse Ferreira Gullar, “A arte existe porque a vida não basta.



Ao lado, a obra do artista reproduzida na versão física do OFFLINE como arte colecionável da sexta edição. Garanta a sua em um dos Pontos Oficiais OFFLINE!

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