logo ali, na Floripão
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Por Madalena Giostri
“Madá, onde você mora?”
“Perto da Floripão.”
Essa resposta nunca precisou de complemento. A Floripão é referência geográfica no sul da ilha
Às sete da manhã, quando o cheiro do pão quentinho atravessa a rua antes mesmo da porta abrir, eu sei que o dia começou. Com um bom dia caloroso, meu pedido nem precisa ser explicado. Vem sendo assim há muito tempo...



Frequento a Floripão desde quando ela abriu, em 2007. Isso importa, porque naquela época o Rio Tavares era outro lugar. O bairro era escasso de comércio, existindo basicamente dois pontos: a Floripão e o Rancho da Jackie, um restaurante simples de PF, com comida bem caseira. O resto ficava na Lagoa. Por isso, todo mundo acabava se encontrando lá.
Luciene Fialho Borchio e Nilceia Fontana Ramos chegaram em Florianópolis pouco antes de abrirem a padaria. Vizinhas de casa, amigas, mães de filhas pequenas, as duas se mudaram da Itália depois de muitos anos vivendo no país (apesar de morarem em cidades diferentes) com seus maridos italianos. Quando converso com elas, fica claro que a amizade veio antes da sociedade. “A gente tinha histórias muito parecidas e estava passando por uma grande mudança de vida”, me contaram. A vontade de montar alguma atividade surgiu naturalmente. Trabalhar juntas foi consequência.
A Floripão abriu as portas no dia 24 de dezembro de 2007, com uma equipe pequena de seis funcionários, além das duas fundadoras. Hoje são mais de cinquenta pessoas trabalhando ali.

Com o passar dos anos, o entorno mudou. Onde havia terrenos abandonados, surgiram outros comércios. “O cuidado com o nosso espaço acabou incentivando melhorias ao redor”, elas dizem; o bairro cresceu junto. Lu e Céia contam que viram clientes começarem a namorar entre cafés, depois casarem e terem filhos. Hoje, alguns desses filhos entram sozinhos para comprar pão.

Eu, como boa geminiana, sempre gostei de conversar e conhecer gente nova. Talvez por isso eu tenha visto tantas histórias sendo construídas na padaria, tomando meu cappuccino sem canela.
Tudo é feito com cuidado. O pão de beterraba é de beterraba mesmo. O de batata doce, de batata doce. Os doces e bolos, de frutas de verdade... Não há misturas prontas nem conservantes. A tradição da casa é oferecer sempre um produto de boa qualidade. Mas, para elas, a excelência do que vai para a vitrine só faz sentido se acompanhada pelo que acontece nos bastidores. Elas fazem questão de destacar o respeito pelas pessoas que constroem o nome da padaria todos os dias.
“Muitos de nossos padeiros, confeiteiros e gerentes iniciaram como auxiliares ou atendentes, aprenderam na prática e cresceram com a padaria. Temos, inclusive, uma funcionária no caixa e um padeiro que estão conosco desde a abertura da Floripão. Essa trajetória de reconhecimento do valor individual cria laços fortes, sensação de pertencimento e respeito. Eles não apenas trabalham aqui, mas fazem parte da construção da Floripão.”

Durante muitos anos, convites para abrir novas unidades foram recusados. Até que surgiu a unidade da Lagoa da Conceição, substituindo a padaria Pró Pão — referência para elas durante seu início. Atualmente, as duas unidades compartilham o mesmo produto e o mesmo atendimento. A do Rio Tavares mantém o ritmo de bairro; a da Lagoa mistura quem mora e quem passa.
Quando pergunto sobre o segredo dessa longevidade, a resposta vem com a serenidade de quem sabe o que planta: “Para nós, faz muito sentido preservar o que nunca sai de moda: o relacionamento humano, a confiança e o afeto. As pessoas e suas histórias foi o que nos trouxe até aqui”.
Muitas vezes, ao chegar na padaria, lembro de quando tudo era só a padaria e o Rancho da Jackie. Lembro de como o bairro era simples. A Floripão nunca foi sobre pão. Foi ali que o bairro aprendeu a ficar. E eu fiquei junto.



