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circular é preciso

há 2 dias
3 min de leitura

Durante muito tempo, comprar uma peça usada esteve associado a uma questão econômica. Hoje o mercado de segunda mão ganhou outro significado, e é caracterizado por peças de grandes marcas, itens raros, roupas que atravessam temporadas e um consumidor que passa a valorizar mais curadoria, exclusividade, qualidade e trajetória do que simplesmente novidade. E tem uma contradição interessante aí: será que o verdadeiro luxo é comprar algo novo ou encontrar algo que ninguém mais tem?

É uma pergunta que acompanha quem vê de perto essa transformação, como Anaía Brognoli, à frente do Mercado Circular, na Lagoa da Conceição. Apaixonada por antiguidades, feiras de rua e pelo prazer de garimpar coisas com história, ela viu esse movimento crescer enquanto viajava pela Europa: lojas se multiplicando, franquias surgindo, um jeito novo de consumir ganhando espaço. Ficou clara para ela a oportunidade de um negócio contemporâneo, construído com base na curadoria.


O que transforma uma peça antiga em objeto de desejo é a memória, a estética e aquilo que ela tem de único, como um corte bem resolvido, um tecido especial ou uma marca querida. A ideia nunca é vender roupa velha, e sim encontrar aquela capaz de provocar uma pergunta: como alguém abriu mão disso?


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

Segundo Anaía, o público mudou, e hoje circulam por esses espaços mulheres de perfis muito diferentes: as brechozeiras de coração, as que já carregam um olhar atento sobre sustentabilidade e as que estão começando a repensar seus hábitos. Ainda existe um resquício de preconceito com o usado, mas ele vem se dissolvendo aos poucos e não é raro que uma cliente chegue para uma primeira compra e, com o tempo, passe a enxergar o consumo de outra maneira.


Essa mudança de olhar dialoga diretamente com a forma como se entende o luxo hoje. O processo ainda está amadurecendo, mas a valorização da exclusividade, do passado e da qualidade cresce a cada ano: é encontrar uma peça única, vintage, bem construída, que pode carregar muito mais significado do que qualquer lançamento; algo que mais ninguém tem, algo bem feito que, anos depois, ainda faz sentido.


Curiosamente, a cliente costuma se apaixonar pela peça antes de olhar a etiqueta, o que só reforça a importância de um bom garimpo. Jeans, jaquetas, vestidos e bolsas costumam liderar a procura,


mas o que realmente fica são as histórias por trás de cada desapego: um vestido usado no Baile da Vogue, o vestido de casamento de uma mãe que decidiu deixá-lo para as próximas mãos.

Carregada de memória, a peça deixa de ser apenas roupa de brechó, passando a carregar afeto e abrindo espaço para uma nova possibilidade.


Do outro lado do balcão também há uma reflexão mais madura sobre o que realmente merece ficar no armário. Abrir mão virou quase um exercício de atenção, pois perceber que uma peça parada pode voltar a circular e ganhar uma nova dona transforma a relação com o próprio guarda-roupa — um dos aspectos mais poderosos de todo esse movimento.


“Precisamos parar de tratar a moda circular como uma tendência”, resume Anaía. Para que ela vire hábito natural, e não alternativa, é preciso educação, acesso e mudança cultural. Comprar menos por impulso, escolher com cuidado, consertar, trocar, doar, comprar de segunda mão; a virada acontece quando o usado deixa de ser visto como “menos” e passa a ser entendido como uma escolha, a mais consciente de todas.


Consumir melhor é comprar com intenção, não apenas trocar uma compra nova por uma usada e manter o mesmo ritmo compulsivo. Eu realmente preciso disso? Vou usar? Tem qualidade para durar?

Para a moda como um todo, o aprendizado é maior. Circularidade não pode ser discurso de marketing, precisa estar no modelo de negócio. Pensar no ciclo completo de uma peça, desde como é produzida, quanto dura, como será cuidada, revendida e reutilizada, é o caminho para um consumo com sentido de verdade. Uma roupa não precisa ter uma única vida, ela só espera a próxima pessoa capaz de enxergar isso. Será que pode ser você?


DICAS OFFLINE:


Moda circular pela Ilha


Centro

J’amei Secondhand

Peça Rara Floripa

Leste da Ilha

O Mercado Circular

Norte da Ilha

AR Brechó – Jurerê



Região Central / Trindade

Desapega Floripa

Sul da Ilha

Banauá Brechó

MAB Moda Circular

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