top of page

a pergunta que parece só sua pode estar na cabeça de muita gente

22 de set.
6 min de leitura
Por Isabel Machado

Oito jovens de Florianópolis formularam perguntas que nunca tiveram coragem de fazer a alguém da própria idade e depois refletiram sobre as perguntas uns dos outros. O resultado é uma reflexão sincera sobre futuro, identidade, relações e o que é crescer no mundo de hoje

Quando fui convidada a colaborar com esta matéria, uma pergunta me veio imediatamente: como falar sobre jovens sem escutá-los antes? Se a nossa intenção era criar uma conversa que realmente chegasse até eles, queria que estivessem no centro dela, que pudessem falar sobre o que vivem, o que pensam, o que os inquieta e, principalmente, que pudessem fazer as perguntas que gostariam de ouvir de outros jovens.

Decidimos, então, enviar um questionário a oito jovens de 16 a 21 anos, moradores de Florianópolis, convidando-os a formular perguntas que já estiveram em algum momento em suas cabeças, mas que talvez nunca tivessem tido a oportunidade de fazer a alguém da mesma idade. Perguntas sobre futuro, escolhas, identidade, relações, internet, o mundo e sobre eles mesmos.


Depois, selecionamos algumas dessas perguntas e as devolvemos aos próprios jovens, para que respondessem uns aos outros. Nós, adultos, muitas vezes dizemos: “Eu já fui adolescente. Eu sei como é.” E é verdade, também tivemos nossas inseguranças, descobertas, conflitos, desejos e perguntas. Algumas questões atravessam gerações porque fazem parte da experiência humana, mas o mundo em que fomos jovens já não é o mesmo. Por isso, precisamos abrir espaço para a escuta, trocar algumas de nossas certezas por curiosidade e fazer perguntas antes de chegar com a resposta.


E foi assim que, quando olhamos para as perguntas que foram feitas, começamos a enxergar pistas sobre o que está passando na cabeça dessa geração.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

Antigamente, perguntava-se para jovens ou até mesmo para crianças o que eles queriam ser quando crescessem. Como se, até lá, ainda não fossem alguém. Nós já nascemos sendo alguém e, conforme o tempo passa, vamos fazendo escolhas, mudando de ideia, experimentando, errando, descobrindo coisas sobre nós mesmos e nos transformando. A questão não é descobrir quem vamos ser, mas entender como queremos seguir construindo e lapidando quem já somos.


Por isso, o tema do “futuro” aparece de um jeito diferente através dos jovens que contribuíram para essa matéria:


  • “COMO EU DESCUBRO O QUE REALMENTE QUERO FAZER DA VIDA SEM SENTIR QUE ESTOU FICANDO PARA TRÁS?” (B., 18 ANOS)
  • “É NORMAL MUDAR COMPLETAMENTE DE PLANOS PARA O FUTURO VÁRIAS VEZES?” (B., 18 ANOS)
  • “COMO TER CERTEZA DO QUE EU QUERO FAZER DA MINHA VIDA?” (Y., 18 ANOS)
  • “PRECISO TER TUDO DECIDIDO AGORA OU POSSO IR DESCOBRINDO COM O TEMPO?” (Y., 18 ANOS)

Quatro perguntas atravessadas pela sensação de que existe um momento certo para saber, escolher e seguir; como se não ter certeza fosse uma espécie de atraso. Mas basta olhar para a nossa própria vida para perceber que não funciona assim: pessoas mudam de carreira aos 40, voltam a estudar aos 50, começam projetos novos, abandonam caminhos que já não fazem sentido. A vida não entrega um roteiro pronto e tampouco existe uma idade em que finalmente teremos todas as respostas.


A., 21 anos, respondeu isso de forma simples: “Se permita errar e mudar de ideia. É assim que você evolui como pessoa.” Afinal, é nas escolhas que vamos descobrindo de que somos feitos, e cada escolha também vai modificando a pessoa que fará a próxima. E então, aparece uma questão ainda mais comum: quem é a pessoa que está fazendo todas essas escolhas?


  • “AO SE OLHAR NO ESPELHO, QUAL É A VERDADEIRA VISÃO QUE VOCÊ TEM? VOCÊ CONSEGUE SE ENXERGAR? ESSE É VOCÊ, MESMO?” (I., 20 ANOS)
  • “É NORMAL SENTIR QUE NINGUÉM REALMENTE CONHECE QUEM VOCÊ É?” (B., 16 ANOS)
  • “COMO SABER SE ESTOU SENDO INFLUENCIADO OU SE ESSA ESCOLHA É REALMENTE MINHA?” (B., 18 ANOS)

Faz parte da vida reconhecermos as vozes que influenciam as nossas escolhas: família, amigos, escola, redes, experiências e pessoas que admiramos. Não escolhemos isolados de tudo isso; o que muda é o que fazemos com essas influências.


Fonte: Huan Gomes
Fonte: Huan Gomes

V., 20 anos, respondeu de forma clara: “Cada pessoa conhece uma versão minha e todas são reais ao mesmo tempo.” E sim, há pessoas com quem nos sentimos mais livres, outras que despertam partes nossas que nem conhecíamos. Algumas relações nos aproximam de quem somos, outras nos fazem duvidar disso.

As relações também entram nessa conversa:


  • “VOCÊ ESTÁ FELIZ COM SEU CICLO DE AMIGOS?” (G., 17 ANOS)
  • “COMO SABER SE VOCÊ ESTÁ EM RELAÇÕES SAUDÁVEIS QUE FAZEM BEM PARA VOCÊ?” (G., 17 ANOS)
  • “O AMOR VERDADEIRO EXIGE QUE A GENTE MUDE QUEM É POR ALGUÉM, OU O AMOR REAL É JUSTAMENTE O ESPAÇO ONDE NÃO PRECISAMOS MUDAR NADA?” (A., 21 ANOS)

A pergunta toca um ponto presente em muitas relações: até onde nos transformamos com alguém e em que momento começamos a abrir mão de partes importantes de nós mesmos? Essa fronteira nem sempre é fácil de perceber. Por isso, dizer “não” também pode ser um desafio:


  • “POR QUE É TÃO DIFÍCIL DIZER ‘NÃO’ SEM SENTIR CULPA?” (B., 16 ANOS)
  • “POR QUE A GENTE TEM TANTO MEDO DE DECEPCIONAR OS PAIS?” (B., 16 ANOS)

A., 21 anos, traz uma perspectiva: “Dizer ‘sim’ para os outros quando a sua vontade é dizer ‘não’ significa, na prática, dizer ‘não’ para você mesma.”


Uma perspectiva não precisa ser uma resposta definitiva de algo, ela pode simplesmente deslocar o nosso olhar. Quando eu escuto o que o outro está pensando, posso até não encontrar uma resposta para a minha questão, mas posso enxergar por um novo ângulo que amplie a minha visão. Isso pode ganhar ainda mais importância quando olhamos para o mundo à nossa volta, com o excesso de informação, notícias, fake news, redes, violência, política. Somos atravessados por diferentes versões da realidade o tempo inteiro e, por isso, ter acesso a outros pontos de vista, escutar, questionar e ampliar o próprio olhar passa a ser também uma forma de se fortalecer e compreender o que está passando ao nosso redor.

É através desse cenário que A., de 21 anos, traz uma inquietação profunda:

“COMO MANTER A FÉ NO SER HUMANO E O EQUILÍBRIO ESPIRITUAL QUANDO SOMOS BOMBARDEADOS DIARIAMENTE POR NOTÍCIAS TÃO PESADAS SOBRE O MUNDO?”

Como você, leitor, responderia? J., 17 anos, respondeu: “É complicado. Ainda não achei a resposta.”


Eu também não tenho certeza de que saberia responder. Não temos todas as respostas. E nem precisamos ter. Mas, se o mundo chega até nós o tempo inteiro pelas telas, como decidimos o espaço que queremos dar a tudo isso? E essa não é uma questão que diz respeito apenas aos adultos:


  • “SE VOCÊ FOSSE MÃE OU PAI NO MUNDO DE HOJE, DARIA ACESSO ILIMITADO À INTERNET PARA OS SEUS FILHOS?” (M., 17 ANOS)

Entre os oito jovens que participaram desta reportagem, apenas um disse que daria acesso ilimitado à internet aos filhos, enquanto todos os outros responderam que não. É interessante perceber que quem cresceu com a internet também está entendendo que estar conectado o tempo todo pode ser prejudicial.

Mas as perguntas não ficam só no que acontece do lado de fora. Existem também outras inquietações:


  • “VOCÊ SE SENTE MELANCÓLICO SEM MOTIVO APARENTE? SERÁ QUE ISSO É ‘SÓ A ADOLESCÊNCIA’ E VAI PASSAR, OU NÃO?” (M., 17 ANOS)
  • “QUANTAS VEZES VOCÊ PARA E REFLETE SE A VIDA REALMENTE FAZ SENTIDO?” (I., 20 ANOS)
    • B., 16: “Infinitas.”
    • M., 17: “Todos os dias.”
    • Y., 18: “Poucas.”

Cada um responde a partir do lugar em que está, e uma das coisas mais interessantes que essas vozes trazem é justamente a possibilidade de não concordar.


Quando olhamos para todas essas perguntas juntas, elas parecem revelar algo que vai além do que está escrito. O que existe por trás delas?


Parecem todas perguntas sobre quem somos, sobre como funcionamos, sobre como viver a vida e, principalmente, sobre uma coisa muito simples: será que aquilo que acontece comigo também acontece com você? Para Bruno Kiraly, psicólogo que trabalha com jovens e adolescentes, há algo importante antes mesmo de encontrarmos uma resposta: a possibilidade de compartilhar a pergunta. “Existe um lugar de ter as perguntas, existe um lugar de buscar as respostas, mas existe um lugar, talvez mais fundamental, que vem antes, que é o da troca.”


Falar, escutar, reconhecer no outro algo que também existe em nós ou perceber justamente aquilo que é diferente pode mudar a forma como enxergamos o que estamos vivendo. Muitas vezes, ficamos sozinhos com nossas perguntas, dores e angústias, sem perceber o quanto elas são mais comuns do que imaginamos. Em uma época em que a vitrine ganhou mais espaço do que os bastidores, falar sobre nossas vulnerabilidades pode ser um exercício de coragem. Escutar o outro também.


O quanto estamos dispostos a deixar de lado nossos julgamentos, ouvir de verdade e sustentar uma conversa sem precisar chegar rapidamente a uma resposta? Fica aqui mais uma pergunta sobre a qual vale a pena refletir depois de virar esta página.



Isabel Machado (@inner_academy_) é empreendedora social, idealizadora da Inner Academy e apaixonada por criar experiências que transformam pessoas e fortalecem comunidades. Formada em Gestão de Impacto Social e pós-graduada em Psicopedagogia, desenvolve projetos de impacto para jovens há mais de seis anos.
bottom of page