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reflorestando de propósito

  • larissashanti
  • 16 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

O modelo de negócio que transforma degradação em regeneração


Passando pelas estradas sinuosas do sul de Minas Gerais, as curvas entre morros verde claro de todas as alturas são uma constante que nos faz lembrar das paisagens que eram representadas em embalagens de leite. Mas o ritmo desacelerado e a paz que se sente nesse cenário não condiz com a verdade que ele esconde.


Áreas de pasto como essas já foram florestas de Mata Atlântica, lar de inúmeras espécies e uma peça extremamente importante no delicado quebra-cabeça do equilíbrio ambiental e da regulação climática. Para os pastos existirem, as árvores precisam ser eliminadas e o caminho deve ficar livre para o capim subir e as vacas caminharem. Dessa forma, a região se tornou o berço da produção de laticínios no Brasil, transformando florestas em pastos.


Para completar, a produção de leite de vaca é um modelo de negócio falido, pois, além de degradar o solo, que perde sua capacidade produtiva com o tempo, depende de subsídios e ainda mantém fazendeiros, como os que ocupam essa região mineira, em uma situação de pobreza, mesmo com trabalho constante. Isso acontece porque não são os produtores que definem o preço de venda do leite, mas os grandes laticínios que o compram. Essa relação disfuncional foi criada uma vez que os fazendeiros dependem da pasteurização oferecida por esses laticínios para conseguir vender seu produto, já que o Brasil proíbe a venda de leite cru. Além disso, são essas mesmas grandes empresas que fornecem muitos dos insumos necessários para a produção de leite, e o valor é descontado do pagamento final feito ao produtor, que nunca ganha o suficiente para sair desta situação.


Por isso, em 2021, uma recém-lançada marca de leite vegetal buscou, em Minas, uma terra para comprar e testar formas de regenerá-la, revertendo esse processo de degradação ambiental e humana tão normalizado pela indústria do leite. A empresa, que usa a aveia como matéria-prima, se propõe a fazer ativismo; seu nome carrega o peso dessa postura e remete ao seu produto: Naveia.


Transformar pastos degradados em florestas de Mata Atlântica e agroflorestas em um modelo de negócio viável e escalável como alternativa à produção de leite é um desejo ousado, mas a Naveia vem mostrando que pode se tornar realidade. A Floresta Naveia é a prova.


“A gente pode testar e falhar, nossos vizinhos que produzem leite não têm condição pra isso”,

diz Guiga Pirá, Head de Ativismo da Naveia, que desenvolve e supervisiona as iniciativas de impacto da empresa. Dos 220 hectares do projeto, 10 estão alocados pra implantação de sistemas agroflorestais (onde a floresta produz alimento) enquanto os 210 restantes estão em processo de regeneração natural ou com o auxílio de mudas e bombas de semente (também conhecidas como muvucas).


As agroflorestas na Floresta Naveia já ocupam 5 hectares e produzem dezenas de variedades de hortaliças, frutas, legumes, tubérculos, madeiras e, até, café. Nessa produção, a mandioca se destaca com cerca de 25 toneladas produzidas. Já a promessa fica por conta do café, que viabilizará a sustentabilidade financeira do projeto. Apesar de todo o cultivo variado, a matéria-prima da Naveia não vem de lá, pois a marca aposta que a aveia produzida no clima gaúcho é de melhor qualidade.



“Por enquanto, ainda temos mais perguntas que respostas, mas tudo indica que, em breve, poderemos oferecer soluções para os fazendeiros da região que queiram migrar de um sistema de produção que degrada sua terra, produzindo leite de vaca, para um que a regenere através de uma produção diversa de alimentos vegetais”, conclui Guiga. A ideia é que a Naveia possa oferecer capacitação, implementos e garantia de compra da produção aos que deixarem de usar vacas para produzir leite, protejam parte da terra com floresta nativa e optem por implementar agroflorestas.


A Naveia foi fundada para revolucionar a indústria do leite, e sua atuação multilateral faz com que, enquanto a empresa concorre com o leite de vaca no mercado produzindo produtos que substituam laticínios convencionais, consiga oferecer uma saída aos produtores de leite na outra ponta. Assim, ativismo deixa de ser uma ação, ou campanha de ESG, e passa a ser o negócio em si.

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