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a potência de ver que a cidade não vê

  • larissashanti
  • 16 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Há 13 anos, o Cidades Invisíveis atravessa morros e fronteiras sociais para transformar realidades. À frente do projeto, Samuel dos Santos, nascido em Florianópolis e criado entre amor e consciência social, revela como a fotografia, o voluntariado e a coragem de abandonar a estabilidade moldaram uma iniciativa consistente de impacto no país


VOCÊ PODERIA NOS CONTAR UM POUCO DA SUA HISTÓRIA? ONDE VOCÊ CRESCEU, COMO FOI SUA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA?

Sou de 1984, filho de Margareth e Hélio, pais sempre presentes e muito claros em seus papéis, embora nunca rígidos. Da minha mãe, lembro o colo, o afago, o cafuné. Do meu pai, a firmeza, as conversas difíceis, o porto seguro. Transitei bem entre esses dois mundos: o carinho que meu pai fazia quando eu era pequeno e a força que via na minha mãe equilibrando as tarefas da vida.


Da primeira infância, guardo mais sensações do que fatos: sobretudo a liberdade. Cresci de forma solta, em um universo lúdico, sem regras duras, mas cheio de cuidado. Quando eu tinha sete anos, meus pais decidiram encerrar o casamento. Passei a viver com minha mãe, recebendo meu pai todos os finais de semana, mesmo quando ele já trabalhava em outras cidades de Santa Catarina, nunca deixou de vir me ver e ver meu irmão.


Dessa separação, ficaram alguns traumas. Não pela ausência de nenhum dos dois, mas pelo medo da possibilidade de também ser abandonado. Na cabeça de uma criança, se eles podiam “abandonar um ao outro”, por que não poderiam me deixar também?


No ano seguinte, “dei trabalho”. Não queria ir à escola. Tentava fugir pelos corredores, driblando professores e monitores, como se o portão principal fosse uma linha de chegada. Cheguei a me esconder para ganhar tempo. Nunca consegui vencer essa corrida; por sorte, eles sempre me alcançaram.


Muitos anos depois, já pai, entendi melhor minhas reações, a decisão deles e o esforço para permanecerem presentes diante das dificuldades.


A maturidade chega quando desenvolvemos empatia real. Alteridade e altruísmo são pilares de qualquer evolução humana.


ESSE OLHAR SENSÍVEL PARA COMUNIDADES MARGINALIZADAS NASCEU DE ALGO PESSOAL, OU FOI FRUTO DE UMA CONSCIENTIZAÇÃO?

Começou quando eu era universitário. Por volta dos vinte anos, fazia trabalhos como fotógrafo e atuava como voluntário em uma creche da comunidade Cova da Onça, na periferia de São José. A creche atendia crianças em situação de vulnerabilidade, muitas órfãs.


Em uma dessas visitas, um menino tímido, de uns seis anos, buscava minha atenção. A carência afetiva era evidente. Em um dos abraços, ele me olhou e me chamou de “pai”. Eu não soube reagir na hora, mas aquilo mexeu comigo profundamente. Senti, ali, um desejo enorme de um dia ser pai.

Essa vivência voluntária, somada à fotografia, que depois se tornaria transformadora para mim, foi moldando minha jornada. Anos mais tarde, nascia o Cidades Invisíveis. Passei a conviver diariamente em favelas, ouvindo histórias que mostram o tamanho da nossa desigualdade. Eu estava presente, e as crianças me enxergavam como alguém que cuidava.


EM QUE ÁREA VOCÊ TRABALHAVA ANTES DE CRIAR O CIDADES INVISÍVEIS? COMO LIDOU COM OS RISCOS E INCERTEZAS?

Sou formado em Direito e logo fui para a área acadêmica. Com 23 anos, eu dava aula em universidades privadas, ensinando Filosofia do Direito, História do Direito Brasileiro, Introdução ao Estudo do Direito, Direito Constitucional… Foram quase 15 anos em sala de aula.


Paralelamente, trabalhava na Secretaria de Estado da Fazenda de Santa Catarina, onde fiquei cinco anos. Em 2019, com meu filho Valentim ainda bebê, pedi demissão da universidade e, depois, exoneração do cargo público. Eu tinha estabilidade, direitos e benefícios, mas não tinha tempo com ele. Percebi que precisava dedicar minha energia ao Cidades Invisíveis, que já tinha alcance nacional e muitas possibilidades de expansão.


Sabia dos riscos de empreender socialmente no Brasil, mas decidi ouvir mais a coragem do que o medo. Deu certo, e continua dando. Empreender no país é uma aventura, mas é a aventura certa para mim.


ALGUMA EXPERIÊNCIA DIFÍCIL DA SUA VIDA INFLUENCIOU SEU DESEJO DE TRABALHAR COM IMPACTO SOCIAL?

Ao contrário. Como me sinto extremamente privilegiado por ter crescido em um ambiente amoroso e com boas oportunidades, desenvolvi a sensação de responsabilidade: contribuir com quem não teve o mesmo.


Minha mãe era professora em escola pública no Morro da Caixa; meu pai, jurista e servidor público, criou programas de assistência ao egresso (pessoas presas que cumpriram suas penas e foram colocadas em liberdade), oferecendo cursos profissionalizantes e empregabilidade, o que reduziu drasticamente a reincidência criminal.


Cresci vendo ambos mobilizados por causas sociais. Isso me ensinou que, se posso, devo contribuir.


DE ONDE SURGIU O NOME CIDADES INVISÍVEIS? O QUE ELE REPRESENTA?

Começou com a fotografia. Caminhava por becos e vielas registrando pessoas, cenários e realidades que muita gente não enxerga, ou prefere não enxergar. A pobreza é um espelho do quanto ainda falhamos como sociedade.


Existem muitas cidades invisíveis dentro da nossa própria cidade. Quando passamos a vê-las e a entender as causas da desigualdade, somos impulsionados a agir pela dignidade do outro.

O PROJETO COMPLETA 13 ANOS. PODE FAZER UMA RETROSPECTIVA?

A história do Instituto começou na Comunidade Frei Damião, em Floripa. No início, nosso trabalho era assistencial: saúde, educação, recreação, datas comemorativas. Eram respostas importantes, mas pontuais. Com o tempo, percebemos que isso mitigava, mas não transformava a desigualdade. Então criamos programas recorrentes e estruturados, como o Descobrincando (aulas semanais em formato lúdico) e a Kombi Cultural, que promovia saraus, cinema ao ar livre e contação de histórias. Até chegarmos ao Programa Bonsai, que aprofunda nossa atuação cotidiana.


FALE MAIS SOBRE O PROGRAMA BONSAI.

O Bonsai é nossa atuação mais profunda dentro das comunidades. O nome vem de Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz:


“Pessoas pobres são como bonsais. Não há nada de errado com sua semente. A sociedade é que não lhes oferece espaço para crescer”.

Hoje, o Bonsai está em seis unidades, em quatro estados, com equipe multidisciplinar de 25 profissionais. É a metodologia que garante vínculo, presença e oportunidade real para cada aluno.


E QUAIS OS DESAFIOS DE MANTER O BONSAI EM FLORIPA ESPECIFICAMENTE?

Florianópolis tem desafios específicos: custo elevado de operação, espaços e logística, uma realidade social diferente das metrópoles. Em relação a Canela - RS, o contexto urbano é mais complexo. Mesmo assim, o programa se adaptou à ilha e conquistou reconhecimento pela presença contínua e qualificada.


NESTES ANOS, QUAL FOI SUA MAIOR CONQUISTA? COMO É VER O PROJETO HOJE?

A maior conquista é olhar para trás e ver onde chegamos, sempre com passos firmes e valores sólidos. É perceber quantas vidas foram impactadas, quantas passaram a acreditar em possibilidades mais dignas.


Hoje temos um time comprometido. São pessoas de trajetórias diferentes, unidas pelo propósito de transformar realidades: educadores, psicólogos, artistas, profissionais de saúde, assistentes sociais, gestores e voluntários. Alguns vêm das próprias comunidades atendidas; outros chegam movidos pelo desejo de contribuir. Essa pluralidade nos fortalece e o coração pulsa de alegria pelo que já fizemos e pelo que ainda vamos fazer.


COMO FUNCIONA O VOLUNTARIADO?

O voluntariado passa por análise de perfil, alinhamento de valores e compromisso de continuidade, para garantir que cada pessoa contribua com responsabilidade e acolhimento.


COMO O PROJETO SE VIABILIZA?

Quando fazemos algo genuíno, muita gente boa quer caminhar junto. Sempre contei com voluntários, apoiadores e patrocinadores. Hoje, nossa principal captação vem dos leilões de arte.


No primeiro, arrecadamos 50 mil reais. No sétimo, ultrapassamos 3 milhões. Isso representa milhares de vidas que podemos continuar transformando.


QUAIS SÃO OS PILARES DO INSTITUTO?

Trabalhamos sustentados por quatro eixos: educação, cidadania digital, cultura e esporte. As atividades de jiu-jitsu, yoga, informática, dança, teatro, costura, boxe, etc., nascem sempre do desejo de gerar autonomia e independência.



ALGUMA HISTÓRIA MARCANTE?

Uma das histórias mais marcantes é a de uma ex-aluna que começou nas aulas de yoga e informática, cresceu dentro do Programa e hoje integra a equipe de gestão. Tivemos também mais de cem mulheres formadas no Costura Perifa e muitos adultos ampliando possibilidades de trabalho pelo Integra Perifa.


O QUE MUDA COM A NOVA SEDE NO CENTRO DE FLORIANÓPOLIS?

Já atuamos no Monte Cristo, Morro do Mocotó, Morro da Mariquinha e outros territórios. Hoje, a nova sede no Centro Leste oferece um espaço estratégico que permite acesso unificado e estrutura mais completa. Ampliamos o número de oficinas, estabilizamos equipes e fortalecemos vínculos. Projetos como Reforço Escolar, Costura Perifa, Integra Perifa, dança, yoga, muralismo e gastronomia passam a ter calendário e estrutura anual.


A nova sede nos permite sonhar ainda mais alto.


SAMUKA, POR ELE MESMO!


“Ser pai foi o maior sonho que realizei e também o que mais me ensinou. Hoje, desejo apenas saúde e força para continuar essa construção que começou comigo carregando colchões e cestas básicas sozinho, e que, agora, caminham centenas de pessoas ao meu lado. O Cidades Invisíveis nasceu das minhas ideias, mas foi ele que me moldou, junto aos sonhos e percepções que se transformaram ao longo do caminho. Aprendi que a jornada importa tanto ou mais que o destino. Se existe um legado que desejo deixar, é que cada um de nós possa ser uma lanterna acesa na vida de alguém. E, se não soubermos por onde começar, que seja pela primeira pessoa que precisa de ajuda.”

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