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mutirão Offline

  • larissashanti
  • 16 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

cada página vira floresta

Entre morros verdes e o canto dos pássaros, um grupo formado por leitores, amigos e parceiros do Jornal OFFLINE se reuniu no Sítio FlorBela, no sul de Florianópolis, para um dia de trabalho em comunidade, com propósito simples e profundo: regenerar a terra através do plantio de mudas de árvores



A ideia do Mutirão OFFLINE nasceu do desejo de retribuir à ilha tudo o que ela nos dá: o ar, a paisagem, a inspiração. Desde o início do jornal, tínhamos consciência de que imprimir em papel deixa rastros, e que seria justo devolver à natureza um pouco do que tiramos dela.


O jornal OFFLINE é impresso em papel pólen que apresenta notáveis benefícios ambientais em comparação com papéis convencionais: redução de 19% na emissão de carbono, economia de 12% no consumo de água e diminuição de 24% no consumo de recursos fósseis.

Pesquisamos diversas formas de compensar nossa pegada de carbono, mas quase todas as iniciativas disponíveis aconteciam longe daqui, em áreas de reflorestamento em Minas Gerais ou na Amazônia. Queríamos algo enraizado no mesmo chão onde o OFFLINE nasceu e circula: a Ilha de Santa Catarina.


Foi então que conversamos com Júlia Maggion e Lucas Olivella, amigos que caminham nesse propósito de reconectar pessoas à natureza e fundadores da Maat Agroflorestal. Eles disseram na hora: “Vamos plantar juntos. Aqui, na Ilha”. Assim surgiu o primeiro Mutirão OFFLINE, realizado no dia 9 de novembro de 2025.


O dia começou cedo, com crianças, famílias, risadas, mudas nas mãos e alguns pés descalços na lama. A oportunidade de uma roda de conversa abriu o momento: Elaine e Sérgio, guardiões do sítio FlorBela, guiaram, junto às pessoas, uma explicação sobre o funcionamento da agrofloresta, a história do sítio e o sentido daquela ação. Depois, partimos para o plantio das mudas que iriam se enraizar não só no solo, mas na consciência de quem participava.



“Quando a gente planta junto, não está só plantando árvores”, disse Sérgio, organizando os grupos, “Estamos plantando relações, consciência e futuro”.


“Somos plantadores de floresta e se quisermos ampliar nossa estada por aqui, precisamos nos reconectar com nossa essência.” Elaine, Sítio FlorBela

A FLORESTA QUE VOLTOU A FALAR


Quando Elaine e Sérgio chegaram ao Sítio Flor-Bela, em 2013, o que se via era um pasto exaurido, um rio assoreado e um solo cansado. O lugar que hoje pulsa vida, era então uma terra que havia esquecido o que é ser floresta.


Vieram movidos pelo desejo de uma vida mais simples e saudável, de produzir o próprio alimento e viver próximos à natureza. A primeira ação foi construir um viveiro de mudas e plantar 300 palmeiras-juçara. Resultado: todas morreram. Depois vieram morangos, hortas orgânicas, outras tentativas e novos erros. Até que, em 2016, assistiram a um vídeo que mudou tudo: “Da Horta à Floresta”, do projeto Agenda Goethe. Ali, conheceram os Sistemas Agroflorestais, ou SAFs, uma forma de fazer agricultura baseada nos mesmos princípios que regem a floresta: diversidade, sucessão, cooperação e abundância.


Começaram o primeiro experimento nas áreas mais degradadas do sítio, em formato de curso, junto de mestres como Juã Pereira, Nat Muguet e Namastê Messerschmidt, referências nacionais em agroflorestas. Foi ali, no chão antes estéril, que a vida começou a voltar. Em dois anos, uma nascente reapareceu.


“Perceber as nascentes ressurgindo e o rio se redesenhando foi como ouvir a natureza voltando a falar”, conta Elaine. “Nos encheu de esperança e também, de humildade, porque entendemos que somos parte disso tudo. A humanidade precisa voltar a ser colaboradora da floresta.”


Hoje, o antigo estábulo do terreno foi reconhecido como Área de Preservação Permanente, tamanha é a regeneração do entorno. Com a água que voltou a brotar, as crianças que participaram do Mutirão puderam mergulhar e brincar no rio que agora corre vivo. Um símbolo do que se reconstrói quando a mão humana trabalha a favor da terra.


O QUE É, AFINAL, UMA AGROFLORESTA?


Uma agrofloresta é mais do que plantar árvores. É plantar relações. É observar o tempo e o ritmo da natureza e trabalhar junto com ela. Cada espécie tem seu papel: umas precisam de mais luz, outras crescem à sombra; umas vivem pouco e nutrem o solo, outras se tornam árvores de décadas.


“Na floresta, nada vive sozinho”, explica Elaine. “Tudo coopera, tudo se transforma. Quando pensamos de maneira sistêmica, cuidamos da vida como um todo: do solo, da água, dos animais, das pessoas.”

Lucas, da Maat Agroflorestal, complementa essa visão:


“A agrofloresta é um método de produção de alimento em que o ser humano, entendendo as dinâmicas da floresta, aplica essa sabedoria às técnicas agrícolas, mimetizando a natureza”.


Enquanto a agricultura convencional depende de insumos e empobrece o solo, os sistemas agroflorestais fazem o oposto: a cada colheita, o solo se torna mais vivo, fértil e estruturado.


É uma forma de produzir regenerando, como os povos originários fazem há séculos, unindo árvores, frutas, raízes e ervas em um mesmo espaço.


“É a agricultura que devolve mais para a natureza do que retira”, diz Lucas. “Resultado? Sequestro de carbono, estocagem de água no solo, recuperação de nascentes, retorno da fauna nativa e resiliência climática.”


No Mutirão OFFLINE, foram plantadas mais de 200 mudas nativas da Mata Atlântica, o bioma da Ilha de Santa Catarina. Jabuticaba, grumixama, cabeludinha, ipê e palmeiras-juçara voltaram a habitar aquele pedaço de chão. Espécies que, no passado, foram quase dizimadas e que agora voltam a se multiplicar.


“Essas árvores nativas alimentam a fauna, equilibram o clima e sustentam a estrutura viva das florestas que regulam as águas”, explica Lucas. “Apesar do valor ambiental e cultural, ainda são pouco conhecidas e merecem voltar a ser protagonistas.”


“Quando plantamos pensando na sucessão da vida, tudo muda. A natureza é movimento e cada espécie prepara o caminho para a próxima. É plantar hoje pensando no que floresce daqui a dez, vinte ou cinquenta anos.” Lucas Olivella - MAAT

COM QUEM SE PLANTA, CRESCE JUNTO


A força do Mutirão também veio dos parceiros que ajudaram a tornar essa ideia possível.


A Maat Agroflorestal, primeira bebida regenerativa do Brasil, foi a articuladora da ação, trazendo sua experiência com sistemas agroflorestais e sua visão de futuro baseada na regeneração da terra e das relações humanas.



“Hoje, temos diversas empresas olhando para a regeneração e investindo em insumos agroflorestais. Qualquer pessoa pode ser incentivadora desse processo, como consumidor você está legitimando e potencializando o trabalho dessa cadeia toda”, diz Júlia, fundadora da MAAT.


A Viva Regenera também se uniu ao Mutirão OFFLINE. Seus produtos, feitos com matéria-prima cultivada em florestas vivas, traduzem na prática a ideia de que a comida pode ser, também, uma forma de cuidar da terra.


A SweetHearted Pirates Films (SHP), acompanhou cada detalhe da ação com um olhar sensível, registrando o dia em imagens que captam o que nenhuma planilha de carbono mostra: o encantamento no rosto das crianças, a alegria de quem planta, a beleza simples da cooperação.


E o restaurante Cumbuca completou o ciclo oferecendo um almoço delicioso e simbólico, preparado com alimentos da própria terra, muitos colhidos por Rodrigo, Ana (proprietários do Cumbuca) e seu filho Thomáz, dias antes da ação, no próprio sítio.


“Plantar, cuidar da terra, é um ato de amor e aposta no futuro”, diz Rodrigo. “Ao saber dessa ação do jornal, topamos de pronto participar, pois colocar a mão no solo é lembrar que somos parte da natureza e o Cumbuca tem isso no seu DNA.”


A união desses parceiros mostrou que regenerar não é um ato isolado, é movimento coletivo. Quando produtores, cozinheiros, famílias, empresas e leitores se encontram em torno de um bem maior o impacto se multiplica. O Mutirão OFFLINE nasce dessa soma e da força que existe quando cada parte contribui com seu talento e sua visão de mundo.


É dessa energia que o OFFLINE se alimenta desde o início: fortalecer o senso de comunidade e reconexão com o que é essencial. Porque, no fim das contas, o jornal também é uma semente. E se ele nasce do papel, que o papel volte a nascer em árvore.



PLANTANDO O FUTURO DA ILHA

O Mutirão OFFLINE é o primeiro de uma série de encontros que o jornal pretende realizar ao longo do ano, nem sempre para plantar árvores, mas sempre para plantar consciência. A ideia é que cada edição do jornal inspire uma ação coletiva pela Ilha: seja um plantio, uma limpeza de praia, uma doação comunitária ou um gesto de cuidado com o território.

MUTIRÃO OFFLINE • 09/11/2025
LOCAL: Sítio FlorBela – Sul da Ilha
AÇÃO: Plantio em agrofl oresta
MUDAS: +200 nativas da Mata Atlântica
PARTICIPANTES: +70 pessoas
IMPACTO: Regeneração da área • Conexão
comunitária • Educação ambiental
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