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Eduarda Tonietto, entre hospedar e ser uma eterna visitante

há 2 dias
10 min de leitura
Por Cadu Zahran

A arquiteta, mente brilhante por trás da direção criativa do Fuso Hotel e da Milano Incorporadora, traz para seus projetos uma ideia de luxo, com menos excessos e mais natureza, privacidade e experiências. Em uma conversa sobre arquitetura, hospitalidade, viagens e o privilégio de se sentir em casa em Florianópolis, Duda revela também, em seu próprio jeito de viver, essa combinação entre sofisticação e simplicidade


A DUDA

Quem é a Duda, no seu próprio espaço?


Eu sou uma pessoa muito curiosa e inquieta. Estou sempre observando, pesquisando, viajando, querendo entender por que determinados lugares nos fazem sentir alguma coisa e outros não. Gosto de arquitetura, design, arte, gastronomia, natureza, bem-estar, hospitalidade, e acho que meu trabalho acabou se tornando justamente um encontro de todos esses universos.


Sensível e introspectiva, gosto de entrar no meu próprio mundo, pensar, estar na natureza e deixar que ela me recarregue. Além de tudo isso, sou movida por criar e sentir que existe uma ideia nova sendo construída.


Como nasceu sua relação com a arquitetura? Houve algum momento em que você percebeu que queria seguir esse caminho?


A arquitetura sempre fez muito sentido para mim porque reúne muitos de meus interesses — estética, comportamento, criatividade, funcionalidade e a possibilidade de transformar a maneira como as pessoas vivem. Com o tempo, percebi que meu interesse estava em pensar o todo: o conceito, a experiência, a marca, a maneira como aquele lugar é percebido e vivido.


O que você guarda dos ambientes da sua infância? Existe alguma memória afetiva que ainda aparece nos seus projetos?


Existe uma memória muito antiga que talvez tenha sido um dos meus primeiros encontros conscientes com a potência de um espaço. Nasci em Caxias do Sul, e lembro da sensação de entrar na Igreja de São Pelegrino e olhar para as pinturas de Aldo Locatelli: aqueles tetos, completamente tomados por imagens, conduziam meu olhar para cima e faziam com que eu me sentisse muito pequena diante da magnitude daquele espaço.


Acho bonito perceber hoje que uma das primeiras coisas que a arquitetura me ensinou foi justamente isso: um espaço pode alterar a nossa percepção, a nossa escala e o nosso estado emocional sem precisar nos explicar nada.

Depois, como minha família se mudou algumas vezes, comecei a desenvolver uma relação muito particular com o meu quarto: a cada nova casa aquele era o meu pequeno universo, e acho que foi aí que surgiu uma curiosidade mais consciente pela arquitetura, com o começo desse sentimento de que eu não era indiferente ao lugar onde vivia.


Durante a faculdade, você já imaginava seguir por esse universo da arquitetura autoral e da hotelaria ou esse caminho foi acontecendo naturalmente?


Foi acontecendo naturalmente. Durante a faculdade eu ainda enxergava a arquitetura de uma maneira mais tradicional e uma virada muito importante foi ter estudado por um tempo em Bordeaux, na França, onde o contato com a escola europeia de arquitetura mudou a minha maneira de entender o processo de projeto. O que mais me marcou foi a profundidade da etapa anterior ao desenho: existia um estímulo muito grande para primeiro compreender o lugar – estudar o território, o entorno, as pessoas, a história, observar referências, construir repertório e educar o olhar –, e o primeiro risco no papel vinha muito depois.


A hotelaria também teve um papel muito importante nisso. Quando começamos a desenvolver o Fuso, percebi que um projeto poderia envolver vários universos como parte de uma mesma narrativa.


PROCESSO CRIATIVO

Hoje você atua como diretora criativa de diferentes empreendimentos. Como essa visão mais ampla influencia a forma como você desenvolve seus projetos?


Influencia completamente. Eu tenho muita dificuldade de olhar um projeto de maneira fragmentada. Para mim, tudo deveria nascer de uma mesma ideia, então participo desde as discussões muito iniciais até as que falam dos ajustes finais de um projeto, de detalhes como gastronomia, uniformes, música, aroma e operação.


É quase como construir um universo. E acho que a consistência aparece justamente quando todas essas decisões contam a mesma história.

A posição que ocupo é particular: eu estou do lado da incorporadora, mas minha formação é em arquitetura, e isso me permite fazer uma espécie de ponte entre mundos que não conversam tanto quanto deveriam. Tenho muita dificuldade em abrir mão de algo em que acredito simplesmente porque seria mais fácil ou mais rentável fazer de outra maneira. Algumas escolhas, quando ferem essa convicção, acabam ferindo também valores meus como pessoa.


Como funciona seu processo criativo? A história vem antes do espaço ou o espaço inspira a história?


Os dois podem acontecer. Às vezes um terreno é tão potente que praticamente entrega a primeira pista do projeto. Em outros casos, começamos por uma pergunta: “Que vida queremos que aconteça aqui?”


Eu pesquiso muito e depois existe um processo de edição, mas a parte mais interessante e difícil é descobrir qual é a essência daquela ideia e ter disciplina para protegê-la até o final. Outro ponto que influencia muito na criação é a consciência do legado que deixamos para as cidades que estamos projetando; pensar que um produto que criamos hoje irá impactar um lugar por tantas gerações futuras traz um senso de responsabilidade muito grande.


Existe alguma característica que você considera a sua assinatura nos projetos?


Talvez minha assinatura seja justamente não querer que exista uma assinatura estética óbvia – não gostaria que pensassem que meus projetos são iguais –, mas existem princípios que se repetem: uma relação muito forte com a natureza, materialidade, arquitetura que envelheça bem, atenção aos detalhes e uma busca constante por experiências mais sensoriais. Também gosto muito do contraste entre sofisticação e simplicidade, que cria um luxo que não precisa ficar o tempo inteiro tentando se provar.


Você costuma dizer que projeta experiências, não apenas ambientes. O que faz um espaço realmente acolher alguém?


O acolhimento acontece quando um lugar foi pensado para o ser humano, e não somente para a fotografia. São centenas de pequenas decisões que, isoladamente, talvez ninguém perceba, mas juntas interferem na nossa saúde mental e física, alterando até a maneira como nos relacionamos com as outras pessoas. Existe uma dança muito interessante entre arquitetura e personalidade, e acho que nós transformamos os espaços tanto quanto eles nos transformam. Quando você parte desse entendimento, cada decisão ganha outra importância.


Um projeto realmente bom é aquele em que a pessoa talvez nem consiga explicar por que está tão bem ali. Ela simplesmente quer ficar.

HOTEL FUSO

O Hotel Fuso representa um marco importante na sua trajetória. Como foi ver aquele projeto finalmente pronto, depois de tanto tempo de pesquisa, desenvolvimento e dedicação?


Foi muito emocionante porque o Fuso passou muitos anos existindo primeiro na nossa imaginação, e existe uma distância enorme entre imaginar uma experiência e conseguir materializá-la. Quando vi as pessoas vivendo aquilo que durante tanto tempo existiu em plantas, referências e conversas, acho que senti principalmente realização. Mas o mais interessante é que um hotel nunca fica realmente “pronto”. Quando ele abre, começa uma segunda etapa do projeto e você passa a observar como as pessoas usam aquilo que você criou e continua aperfeiçoando a experiência.


Como nasceu a ideia de unir natureza, arquitetura e um luxo silencioso em uma experiência tão particular?


A natureza já era a grande protagonista daquele lugar e seria um erro competir com ela, então o projeto foi sendo construído a partir dessa ideia de pertencimento. Queríamos uma arquitetura muito conectada à paisagem e uma experiência de luxo que não dependesse de excessos. O Fuso tem apenas 13 bangalôs, a maioria com piscina privativa, e desde o início existia essa possibilidade de trabalhar a exclusividade de uma maneira muito íntima. Para mim, o verdadeiro luxo ali é acordar cercado de natureza, ter privacidade, silêncio, tempo, um serviço muito atento e a sensação de que tudo foi pensado.


Depois do Fuso, sua forma de pensar arquitetura mudou? O projeto transformou também a Duda?


Muito. O Fuso me ensinou que existe uma diferença enorme entre projetar um espaço e projetar aquilo que acontece dentro dele. Na hotelaria você recebe um feedback quase imediato: as pessoas dormem no que você projetou, tomam banho, comem, caminham, descansam, reclamam, elogiam. Isso traz uma dimensão muito humana para a arquitetura, e comecei a levar essa lógica também para outros projetos.


LUXO E FLORIANÓPOLIS

Na sua opinião, o que significa luxo nos dias de hoje?


O luxo mudou muito. Durante muito tempo ele esteve associado à ostentação, à quantidade e a símbolos muito evidentes de status.


Hoje o luxo está muito mais relacionado a tempo, privacidade, silêncio, natureza, espaço, saúde, personalização e experiências genuínas; são coisas extremamente simples e, ao mesmo tempo, cada vez mais raras.

É o luxo de ter menos, mas ter melhor. Isso muda completamente a maneira de pensar hotelaria, arquitetura e mercado imobiliário de alto padrão.


Como você enxerga o mercado de alto padrão em Florianópolis?


Florianópolis está vivendo um momento muito interessante de amadurecimento. Existe um público cada vez mais sofisticado chegando à cidade e também um público local que viaja muito, conhece excelentes referências internacionais e aumentou seu nível de exigência. Consequentemente, não basta mais colocar materiais caros dentro de um empreendimento e chamá-lo de alto padrão. Esse movimento é muito positivo, porque obriga o mercado a evoluir de um alto padrão baseado em especificações para um alto padrão baseado em experiência.


A ilha vive um momento de grandes investimentos: marina na Beira-Mar Norte, novos hotéis, revitalização do Centro, entre outros projetos. Como você imagina Florianópolis daqui a dez anos?


Eu espero ver uma Florianópolis mais cosmopolita, mas que tenha inteligência para não perder aquilo que a tornou desejável. Temos uma combinação muito rara: natureza exuberante, praias, lagoas, montanhas e, ao mesmo tempo, uma cidade com tecnologia, gastronomia, arquitetura e uma economia muito dinâmica. O grande desafio dos próximos dez anos será crescer preservando essa identidade.


O que Floripa oferece que atrai tantos empreendimentos ligados ao luxo, à arquitetura e à hospitalidade?


Qualidade de vida. Essa é a grande moeda de Florianópolis: você pode trabalhar, ter uma vida urbana interessante e, poucos minutos depois, estar no mar, numa trilha ou cercado de natureza. As pessoas estão buscando lugares onde consigam viver melhor, e não simplesmente consumir mais. Florianópolis entrega algo que não pode ser fabricado por um empreendimento, que é a própria ilha; a arquitetura precisa potencializá-la, e não tentar substituí-la.


A ILHA DA MAGIA

Você vive, trabalha e frequenta diferentes regiões da ilha. Muita gente diz que Florianópolis é formada por várias cidades dentro de uma só. Você concorda? Como enxerga as diferentes tribos e regiões da ilha, e de que forma elas dialogam entre si?


Isso é uma das coisas mais interessantes de Florianópolis – você muda de região e parece que mudou não apenas de paisagem, mas de ritmo e até de estilo de vida.


Dependendo do que você está buscando em um dia, Floripa pode ser praia, natureza, uma experiência mais urbana de eventos e vida social, esporte, trilhas ou simplesmente silêncio. Essa liberdade de adaptar a cidade ao momento da sua vida é muito especial.

Também existe uma combinação que pesa cada vez mais: qualidade de vida, sensação de segurança e proximidade com grandes centros. Muita gente já percebeu que sucesso não precisa significar escolher entre a carreira ou viver bem. A vida é justamente a tentativa de equilibrar essas coisas.


Como é um dia perfeito para você em Florianópolis?


Um dia perfeito provavelmente começa sem muita pressa, perto da natureza. Na Lagoa não importa muito se é segunda-feira ou domingo: você acorda com os passaros, com a natureza ao redor. Gosto de ter esse primeiro momento para mim — meditar, olhar a paisagem, criar minhas intenções para aquele dia, movimentar o corpo, colocar uma música e tomar café da manhã com calma. Depois, um dia perfeito pode ter uma volta na Praia Brava, um passeio com a minha cachorra, um almoço sem pressa em algum lugar olhando para o mar ou para a Lagoa e, se possível, terminar vendo o pôr do sol.


Você viaja bastante. O que as viagens acrescentam ao seu olhar sobre arquitetura, design e hospitalidade? Pode citar exemplos?


Viajar é provavelmente uma das minhas maiores fontes de pesquisa. Uma das experiências que mais formou meu olhar profissional foi a imersão que fiz pelo Sudeste Asiático durante o processo de criação do Fuso, onde durante aproximadamente quatro anos viajei muito pesquisando hotelaria. Mas não queria conhecer só como hóspede: sempre que era possível, procurava também entender os bastidores. Para mim, o Sudeste Asiático é uma das grandes escolas de hospitalidade de luxo do mundo. E o mais impressionante é como isso aparece nos menores detalhes: a arquitetura pode ser extraordinária, mas quase nunca tenta se sobrepor ao lugar; existe respeito pela natureza, pela cultura, pelos materiais, pela história.


Já aconteceu de chegar a um lugar sem grandes expectativas e sentir uma conexão muito maior do que imaginava?


Parece clichê responder Bali, mas mesmo indo com uma expectativa alta saí surpreendida. Me encantou uma característica que me lembra Florianópolis: você se desloca e cada região parece ter sua própria personalidade. Mas o que realmente ficou comigo foi a capacidade que eles têm de criar lugares extraordinários sem depender de grandiosidade. E o nível da hotelaria de luxo é uma aula. Não por acaso, uma das marcas que mais admiro no mundo, a Aman, nasceu do olhar do indonésio Adrian Zecha. Acho que Bali reforçou em mim uma ideia que carrego até hoje:


a sofisticação não está necessariamente no que é ostensivo. Muitas vezes ela está na precisão, na sensibilidade e no cuidado quase obsessivo com aquilo que poderia passar despercebido.

Depois de conhecer tantos lugares, onde fica o seu verdadeiro sentimento de casa?


Hoje, em Florianópolis. Viajar é uma parte muito importante da minha vida e do meu processo criativo – gosto de sair, descobrir referências e experimentar outras culturas –, mas também gosto muito da sensação de voltar. Talvez viajar tenha me feito enxergar ainda melhor o privilégio que é viver aqui.


OLHANDO PARA FRENTE

Se pudesse conversar com a Duda que estava começando na arquitetura, o que diria a ela?


Diria para confiar mais na própria intuição e não ter tanta pressa para definir exatamente o que queria ser. Durante muito tempo somos ensinados a escolher uma profissão, uma especialidade, um caminho muito específico, mas hoje percebo que as coisas que mais me interessavam fora da arquitetura acabaram enriquecendo meu trabalho dentro dela. Então talvez diria: continue curiosa. Viaje, observe, estude coisas que aparentemente não têm nenhuma relação entre si; em algum momento elas se conectam.


Para onde apontam os seus caminhos? O que vem por aí?


Tenho me interessado cada vez mais pela relação entre arquitetura, hospitalidade, natureza, saúde e bem-estar. Acredito muito que os próximos anos vão transformar nossa relação com a casa: as pessoas estão mais conscientes sobre qualidade do ar, da água, da iluminação, do sono, do contato com a natureza e da saúde física e mental. Para mim, wellness é pensar o ambiente inteiro como uma ferramenta para viver melhor.


Temos aprofundado muito essa visão na Milano. O UM Milano, na Beira-Mar Norte, é um exemplo desse movimento, reunindo arquitetura, paisagismo, design e wellness dentro de uma proposta residencial muito exclusiva. Queremos também seguir criando produtos inovadores que modifiquem toda a região que estão inseridos e tragam praticidade pra vida das pessoas, como foi na época o projeto do Pátio Milano e do Cidade Milano. No Fuso também vejo um universo enorme para explorar e, mais do que simplesmente crescer, me interessa aprofundar aquilo que construímos: hospitalidade, experiências, wellness e uma forma muito própria de interpretar o luxo.


Profissionalmente, acho que meus caminhos apontam cada vez menos para uma categoria específica e cada vez mais para aquilo que sempre me interessou, que é criar lugares e experiências que transformem, mesmo que por algumas horas, a maneira como as pessoas vivem e se sentem.

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