regenerar os conceitos para regenerar o planeta
- há 2 dias
- 3 min de leitura
No pé do morro do Lampião, no Campeche, uma horta urbana biodinâmica — a única no Brasil com certificação internacional Demeter — ensina que os direitos da natureza e os seres humanos têm a mesma raiz. É onde o Instituto Compassos (IC) constrói, há 10 anos, um jeito consistente e rítmico de fazer a diferença, unindo inclusão social, rigor técnico e uma pedagogia que liberta
Quem nos conta essa história é Daisy Buchele, uma das co-fundadoras do Compassos. Ela fala, sem romantizar, sobre a ausência de caminhos para jovens e adultos com deficiência.
O IC nasce dessa busca por abrir espaços para esse público, ancorado na Antroposofia de Rudolf Steiner. “Aqui, o trabalho não é ocupação, é terapia social focada na integração, autonomia e dignidade, buscando harmonizar o pensar, o sentir e o agir.” Apesar do seu surgimento em 2004, foi apenas em 2016, através do projeto Ação Compassos, que a terra virou escola definitiva.

Onde antes havia um lixão, hoje cresce um organismo vivo chancelado pela ABDSUL. Colhem-se, toda semana, cerca de 35 cestas de alimentos orgânicos pulsantes de nutrientes. Mas o cultivo mais relevante, ali, é o pertencimento. O reconhecimento do projeto atravessou fronteiras, acumulando prêmios como o internacional Lush Spring Prize (Inglaterra), o Guga Kuerten e o Selo Juliana Santilli.
Não se trata de assistência, mas de presença e rotina. Todas as manhãs, o Instituto ganha vida com um grupo de profissionais, cerca de 20 pessoas — entre jovens e adultos com deficiência, equipe técnica e voluntários. No Compassos, trabalho é trabalho de verdade, meta-orientado e remunerado.



Ao trocar o rótulo pelo afeto e pela arte, o Instituto promove uma terapia artística onde pintura, desenho e o lúdico teatro de sombras focam no fortalecimento da saúde mental e na reorganização interna. Essa arquitetura social bebe de fontes revolucionárias: a rebeldia de Nise da Silveira, a pedagogia de Paulo Freire, que entende que todos se educam entre si, e o pensamento de Nego Bispo, que compreende a vida como confluência.
Lá acontece também o trabalho com a lã de ovelha, que nasceu em 2019 de uma parceria com o Núcleo de Agroecologia da UFSC. O projeto, premiado pelo Fundo Social Casa, ofereceu capacitação para aprendizes e mulheres da comunidade, propiciando a formação do Coletivo Ovelhas Azuis. É um artesanato terapêutico que resgata técnicas ancestrais de feltragem com lã orgânica e ética, conectando o artesão ao respeito profundo pelo ciclo da vida.

Essa lógica transborda os muros. Em 2023, o Instituto transformou um lixão de 900 m2, na Serrinha, em uma horta produtiva. Em 2025, chegou à Frei Damião com oficinas de impressão botânica. Em todos esses processos, os jovens com deficiência atuaram como equipe central e instrutores. Como diz Daisy:
“Aqui não existe ‘eles’. Só conjugamos o ‘nós’.”
A inovação do IC atrai olhares globais, recebendo anualmente 12 estagiários internacionais via AIESEC. “Nossa resiliência é sobre ter estrutura e intencionalidade”, declara Daisy. O financeiro, porém, é o gargalo que limita o alcance desse impacto; neste instante, o Instituto segue vivo porque pessoas escolhem apoiar. No IC, inovação é gerar valor onde o mundo vê limitação. Se a deficiência é o encontro do corpo com uma barreira, o trabalho do instituto é derrubar muros e construir pontes. Se o caminho existe, o que nos impede de caminhar juntos?

OS NÚMEROS DO INSTITUTO COMPASSOS
10 anos de atuação: Projeto Ação Compassos
Selo Demeter: única horta urbana biodinâmica certificada no Brasil
20 pessoas em atividade presencial todas as manhãs
80 participantes diretos (PCD) desde a fundação
100 litros de óleo de cozinha reciclados anualmente na saboaria
12 estagiários internacionais recebidos por ano (AIESEC)
15.000 cestas de alimentos orgânicos comercializadas
30 toneladas de composto orgânico produzido via compostagem
COMO APOIAR
A forma mais direta de apoiar o Instituto Compassos é pelo consumo consciente dos seus produtos: cestas orgânicas semanais da horta biodinâmica, saboaria feita com óleo reciclado, itens em lã de ovelha e impressão botânica. O Instituto recebe visitantes que queiram conhecer de perto o ritmo de trabalho e as atividades. Seguir e compartilhar nas redes, fazer conexões e indicar pessoas que possam se beneficiar do trabalho também são formas de fortalecer a rede rumo ao sonho do Instituto Escola.
Para adquirir as cestas e produtos, clique aqui!



