cuidar da ilha que nos cuida
- há 2 dias
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Sete da manhã no Novo Campeche. Algumas pessoas ainda estavam sentadas na areia contemplando o nascer do sol, outras já se levantavam em silêncio, recolhiam suas cangas e seguiam o dia. O céu tinha nuvens dispersas, a luz era suave e o vento terral soprava leve, desenhando ondulações perfeitas nas ondas que quebravam organizadas. A linha no outside estava cheia de surfistas
A temperatura era agradável. Já não era aquele auge abafado do verão, mas também ainda não era outono. Primeiro de março parecia anunciar uma transição sutil.

Quando olhamos ao redor, a praia estava limpa, como quase sempre estão as praias de Florianópolis. Mas a limpeza, às vezes, é uma ilusão de superfície. Aos poucos, as pessoas começaram a chegar para o Mutirão OFFLINE de Limpeza de Praia – leitores, parceiros, amigos do jornal. Mais de cinquenta pessoas reunidas com um propósito simples: cuidar da ilha que nos cuida.
Nos dividimos e cada um recebeu um saco. Escolhemos direções diferentes e partimos em busca do que não deveria estar no cenário daquela praia.
Antes de começarmos, a engenheira ambiental Sara Borém, fundadora da Saracura Socioambiental, já havia nos alertado: o que mais encontraríamos não seria o lixo grande, visível, mas o micro. Em cerca de quarenta minutos, cada uma das pessoas voltou com um saco cheio: microplásticos misturados à areia, tampinhas, embalagens degradadas e muitas bitucas de cigarro.

Limpar uma praia nunca é apenas recolher resíduos, é treinar o olhar para aquilo que aprendemos a ignorar. Microplásticos permanecem no ambiente por décadas e são um dos maiores terrores dos oceanos — sendo ingeridos por peixes, aves marinhas e outros organismos. Já as bitucas, que, pequenas, parecem inofensivas, liberam substâncias tóxicas ao entrarem em contato com a água.
Na volta à estrutura do nosso mutirão, foi feita a triagem e separação do que foi encontrado. Ao final, nos organizamos em roda para ouvir. Sara evita rankings fáceis quando o assunto é sustentabilidade urbana:
“Florianópolis avançou na coleta seletiva porta a porta e na organização das cooperativas, mas dizer que somos “a capital que mais recicla” pode simplificar demais uma realidade complexa. O Brasil recicla menos de 4% dos resíduos urbanos. Florianópolis está acima dessa média, mas ainda há muito espaço para melhorar.”
Parte desse avanço, segundo ela, está diretamente ligada ao trabalho histórico da Comcap, ainda considerada referência nacional em gestão de resíduos e limpeza urbana. Mesmo com a redução do quadro efetivo e a diminuição de investimentos ao longo dos últimos anos, a companhia mantém tecnologias e estruturas que poderiam levar a cidade ainda mais longe, caso houvesse valorização contínua do serviço público.

Mas, para Sara, o diferencial mais potente da ilha está na mobilização comunitária. Quando a cidade entende, ela responde. O desafio é transformar essa resposta em política pública contínua e em comunicação ambiental voltada para dentro, formando cultura, não apenas divulgando resultados.
Outro ponto central da conversa foi o papel das cooperativas. A presença de Luciana, da Cooperativa de Catadores Renascer, deu rosto ao que muitas vezes permanece invisível: “Os catadores são a base invisível da sustentabilidade brasileira,” afirmou Sara, “sem eles, a reciclagem praticamente não existiria”. São eles que classificam materiais, reinserem recursos na cadeia produtiva e transformam o que chamamos de lixo em valor econômico e inclusão social. A própria Política Nacional de Resíduos Sólidos determina que municípios priorizem a contratação de cooperativas.
Ainda assim, mesmo em uma cidade cercada por paisagens naturais que parecem nos convidar à preservação, o descarte correto continua sendo um desafio. O morador de Florianópolis, segundo Sara, é bem-intencionado, o problema não está na falta de vontade, mas na ausência de uma cultura consolidada. Informação isolada não transforma comportamento, cultura se constrói com repetição, proximidade e exemplo — na escola, nos eventos, nos condomínios e nas escolhas cotidianas.

Garantir que o resíduo não termine no aterro depende de uma engrenagem completa funcionando: separação correta na origem; cooperativas estruturadas; políticas públicas comprometidas e empresas assumindo sua responsabilidade no pós-consumo.
A logística reversa, que é uma obrigação legal, ainda enfrenta pouca fiscalização. Embalagens, eletrônicos, pneus e outros materiais deveriam retornar a quem os colocou no mercado. Sem essa corresponsabilidade, o peso recai quase exclusivamente sobre o cidadão e o poder público. Talvez por isso Sara prefira falar em “Menos Lixo” em vez de “Lixo Zero”: “‘Menos Lixo’ é um convite possível que retira a pressão da perfeição e abre espaço para participação real.”
Entre todas as reflexões daquela manhã, uma ganhou força especial: mais da metade do que descartamos é resíduo orgânico. Quando vai para o aterro, mistura-se a recicláveis e rejeitos, gerando chorume e gases de efeito estufa que agravam a crise climática. Quando compostado, transforma-se em adubo e retorna ao solo como vida.
A ilha tem condições ideais para fechar esse ciclo: em casa, com composteiras ou minhocários; em condomínios ou ruas, com pátios comunitários ou empresas especializadas que coletam o baldinho na porta; ou através dos pátios de compostagem da Comcap, que recebem resíduos orgânicos e restos de poda transformando-os em fertilizante utilizado em praças e parques.
“O orgânico é o único resíduo capaz de renascer no próprio bairro onde foi gerado.”
Autonomia ambiental começa perto. A atuação da Saracura Socioambiental nasce exatamente dessa prática. Depois de anos transitando entre gestão pública, cultura e mobilização social, Sara percebeu o abismo entre discurso e aplicação. Projetos como o “Centro Leste Menos Lixo” demonstraram que é possível desviar mais de 90% dos resíduos de eventos culturais do aterro quando há planejamento, articulação com cooperativas e educação ambiental ativa. Sustentabilidade é como uma engrenagem.


O segundo Mutirão OFFLINE contou com marcas parceiras alinhadas a esse olhar: Brazinco, com protetores solares que cuidam da pele e dos oceanos; MAAT, a bebida regenerativa produzida com insumos orgânicos e agroflorestais; Puroverde Kombuchas, que apresentou o novo sabor de Butiá — fruta da Mata Atlântica muito tradicional em Floripa; Empório Lia Toss, que ofereceu castanhas e frutas secas; e o restaurante Cumbuca, que levantou a moral da galera com um brunch feito com ingredientes locais e nutritivos. O encontro também foi registrado em imagem e vídeo pelo fotógrafo Pedro Malamam e pela SHP Filmes, responsáveis por documentar essa manhã coletiva na praia. São presenças que reforçam que sustentabilidade se constrói em rede.



Ao final da manhã, a praia parecia a mesma: o mar continuava lindo com os surfistas ainda alinhados no outside e o vento seguia desenhando as ondas; mas quem esteve ali já não olhava mais a praia do mesmo jeito. Cuidar da ilha que nos cuida não é um slogan: é um exercício contínuo de pertencimento.
FAÇA A SUA PARTE
NA PRAIA: Não precisa esperar um evento. Se vai à praia, leve uma sacolinha e recolha o que estiver ao seu redor e depois faça o descarte correto. Se cada pessoa cuidar de alguns metros de areia, a soma é gigante.

EM CASA, SEPARE CORRETAMENTE: Tenha pelo menos 3 recipientes: orgânicos, recicláveis e rejeitos.
LAVE AS EMBALAGENS ANTES DE DESCARTAR: Não precisa usar sabão ou desperdiçar água. Uma passada rápida já evita mau cheiro, insetos e facilita o trabalho de quem vai manusear o material na cooperativa. Lembre-se: existem pessoas mexendo no seu lixo. Respeito também é sustentabilidade.
AMASSE LATAS E GARRAFAS PET: Isso reduz o volume e facilita o transporte e a triagem.

VIDRO MERECE CUIDADO: Embale cacos em papel ou coloque dentro de outra embalagem identificada para evitar acidentes com os catadores. Se possível, encaminhe os vidros para um Ponto de Entrega Voluntária (PEVs) - grandes contêineres, muitos de cor verde - espalhados pela cidade, com mais de 300 pontos disponíveis.
ORGÂNICOS NÃO SÃO LIXO: Restos de alimentos representam mais da metade do que descartamos. Compostar em casa ou aderir à coleta de orgânicos reduz emissão de gases de efeito estufa e devolve vida ao solo.
QUESTIONE AS MARCAS QUE VOCÊ CONSOME: A logística reversa é obrigação legal. Empresas precisam assumir o pós-consumo das embalagens que colocam no mercado.
NÃO DEVEM IR NA COLETA SELETIVA COMUM:
TECIDOS, ROUPAS E CALÇADOS: Se estiverem em bom estado: doar. Se estiverem danificados: buscar pontos de coleta específicos para reciclagem têxtil. A maioria das lojas Angeloni de Florianópolis possuem coletores para roupas, calçados e tecidos usados. A indústria têxtil é uma das que mais gera impacto ambiental. Prolongar o uso das peças é sempre a melhor solução.

LIXO ELETRÔNICO (Celulares, cabos, computadores, eletrodomésticos, carregadores e eletrônicos em geral): Entregar em pontos de coleta específicos, como os Ecopontos da Comcap (Itacorubi, Morro das Pedras, Canasvieiras, Capoeiras, Monte Cristo, Rio Vermelho, Ingleses, Coloninha, Costeira). Verificar se a própria loja ou fabricante oferece logística reversa (uma obrigação legal da empresa).
PILHAS E BATERIAS: Levar a pontos de coleta em mercados, farmácias ou lojas de eletrônicos. Guardar em recipiente fechado até juntar quantidade suficiente para destinar corretamente.
RECICLAGEM EM FLORIANÓPOLIS

A reciclagem depende do consumidor, da indústria, da política pública e da viabilidade econômica da cadeia. Os catadores coletam, classificam e vendem os materiais para a indústria recicladora. Se o material não tem valor de mercado mínimo, ele deixa de ser viável. Por isso, o que é reciclável pode variar ao longo do tempo.
Hoje, em Florianópolis, se recicla:
Papel e papelão (limpos e secos), Garrafas PET, Plásticos rígidos (embalagens de produtos de limpeza, shampoo etc.), Latas de alumínio, Latas de aço, Vidros (garrafas e potes, sem tampa e limpos), Tampinhas de PET ou de alumínio.
Atenção: Isopor já esteve na lista de reciclagem da cidade, mas deixou de ser viável economicamente e, por isso, por hora não é mais reciclável em Floripa.
ENTENDA DE VEZ
RECICLÁVEL: É o material que pode voltar para a indústria e virar um novo produto: papel, plásticos, alumínio, aço e vidro.
ORGÂNICO: É tudo aquilo que já foi vida: borra de café, cascas de ovos, restos de alimentos, folhas e podas.
REJEITO: É o que realmente precisa ir para o aterro, pois não pode ser reciclado nem compostado: papel higiênico, fraldas e absorventes, esponjas, espelhos, cerâmica e porcelana, papel engordurado, embalagens metalizadas (salgadinhos).



