o ronco da esperança
- larissashanti
- 16 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Depois de mais de dois séculos, o som do bugio-ruivo volta a ecoar nas matas da ilha, marcando uma vitória da conservação e da ciência catarinense
Depois de quase 260 anos de silêncio, um som grave e inconfundível voltou a se espalhar pelas matas de Florianópolis. É o ronco do bugio-ruivo, um grito ancestral da natureza que retorna para lembrar que a vida encontra caminhos, mesmo diante das maiores adversidades. O retorno desse primata, desaparecido em Santa Catarina desde 1763, vítima da caça e do desmatamento que avançaram sobre a Mata Atlântica, é resultado de um projeto pioneiro de reintrodução. A iniciativa, conduzida pelo Instituto Fauna Brasil, e pela ONG Silvestres de SC, com apoio de órgãos ambientais, devolveu à capital catarinense um dos sons mais simbólicos da Mata Atlântica.
JARDINEIROS DA FLORESTA
Os bugios-ruivos (Alouatta guariba) são considerados um ícone da fauna brasileira por desempenhar um papel vital no equilíbrio da floresta. Se alimentam de folhas e frutos e dispersam sementes, através de suas fezes, enquanto se deslocam entre as árvores (um processo essencial para a regeneração natural da vegetação).
Por isso, os cientistas costumam chamá-los de “jardineiros da floresta”. Sem eles, diversas espécies de árvores teriam dificuldade em se reproduzir, comprometendo o futuro da mata nativa.
Muitas sementes necessitam passar pelo trato gastrointestinal do macaco para germinar, garantindo a biodiversidade da floresta. Atualmente, os grupos reintroduzidos vivem em áreas protegidas, como o Monumento Natural Municipal da Lagoa do Peri (MONA Peri), no sul da Ilha, e o Parque Estadual do Rio Vermelho, no norte. Desde o início do projeto, em 2024, os resultados têm sido animadores: os animais se adaptaram bem, formaram famílias estáveis e até tiveram novos filhotes.

O SOM QUE MARCA TERRITÓRIO
O ronco dos bugios, que pode ser ouvido a até 5 km de distância, é a forma que eles têm de marcar território, manter o grupo unido e evitar conflitos com outras famílias. Os grupos são pequenos, geralmente compostos por 2 a 12 indivíduos, entre machos, fêmeas e filhotes, que passam boa parte do dia descansando nas copas das árvores. Essa vida tranquila é estratégica: como se alimentam de folhas, precisam economizar energia.
DESAFIOS DA CONVIVÊNCIA COM A CIDADE
Apesar do sucesso do projeto, os bugios ainda enfrentam desafios. A expansão urbana de Florianópolis cria barreiras entre as áreas de mata, dificultando o deslocamento dos animais. Outro risco são os fios de energia elétrica, que podem causar acidentes graves, e a febre amarela, doença que pode exterminar toda uma população de bugios, exigindo vacinação e monitoramento constante. Os pesquisadores reforçam que a conscientização é a chave para mitigar esses riscos, sendo a colaboração da comunidade fundamental.
O futuro do Alouatta guariba na Ilha reside na responsabilidade comunitária. Moradores podem contribuir informando aos órgãos ambientais sobre avistamentos e vocalizações, evitando perturbar as áreas de soltura e, futuramente, criar corredores ecológicos funcionais.
UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA
O ronco que hoje ecoa sobre as florestas da Ilha é mais do que um som da natureza: é um símbolo de renascimento. Ele representa a força resiliente de um ecossistema que, mesmo fragmentado, encontrou apoio na ciência e na mobilização das pessoas. Cada morador pode se tornar um guardião dessa história, ajudando a garantir que os bugios continuem a viver e a roncar nas matas de Florianópolis. A volta do bugio-ruivo é, antes de tudo, o retorno da esperança e um convite à reflexão: a conservação é um processo ativo e contínuo, uma prova viva de que, quando o homem se alia à natureza, ambos podem prosperar.
ERIKA GUISANDE ROJAS é bióloga, mestre em ecologia e doutora em biodiversidade pela Unesp - SP. Atualmente atua como professora de Biologia. Amante da natureza, mãe, surfista e moradora do Rio Tavares há aproximadamente 10 anos.



