o delicado desencontro com o solo
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Por Madalena Giostri
Voar de parapente é aprender a habitar o céu. Em um voo sobre a Praia Brava, Madalena Giostri, diretora comercial do OFFLINE, descobriu que voar exige menos audácia e muito mais escuta. Abaixo, seu relato da experiência:
Desde o mito grego de Ícaro, que desobedeceu o pai, voou perto demais do sol e derreteu suas asas de cera, a humanidade tenta decifrar esse impulso de tocar o céu. Séculos depois, no norte da Ilha de Santa Catarina, descobri que o voo livre de hoje substituiu a audácia cega do mito por uma técnica paciente. Antes de tirar os pés do chão, a gente aprende a olhar – um olhar atento, como quem pede permissão. Foi assim o meu primeiro contato com a equipe da Ovni Parapente, liderada pelo experiente piloto Mosquito, que batizou o próprio filho com o nome de Ícaro.

Receptivos e bem-humorados, eles me ensinaram primeiro a observar os urubus, que desenhavam círculos largos no céu, sem pressa ou esforço aparente. Diferente da nossa urgência humana de lutar contra o vento, as aves conversam com ele; sobem em espirais invisíveis, sustentadas por correntes térmicas. Antes da decolagem, percebi que voar exige sensibilidade e escuta. O céu não era um espaço proibido; era um convite.
Mas o romantismo cede espaço à adrenalina nos minutos que antecedem a partida. Há um silêncio interno esquisito antes de atravessar o limite do horizonte, logo interrompido pelos comandos práticos do instrutor: “Segura o braço ali.”; “Corre.”; “Joelho pra cima.”; “Agora senta!”
Não houve tempo para hesitar. Corri, entregando-me ao vento. Ao contrário do que a minha imaginação previa, a decolagem não dá a sensação de queda. É, na verdade, um desencontro delicado com o solo. Como se, de repente, o chão simplesmente deixasse de existir e o corpo passasse a pertencer ao ar.
Entrevistar alguém em pleno voo exige um tipo diferente de presença. O vento interrompe os raciocínios longos e o horizonte distrai. Mosquito, contudo, parecia totalmente em casa.
Enquanto subíamos, a Praia Brava se desenhava abaixo de nós em transições impressionantes de azul e verde. Quanto mais alto íamos, mais Florianópolis se revelava. Mosquito apontava para as nuvens explicando que os grandes cúmulos — formações que lembram bombas atômicas — anunciam instabilidade. “Cúmulos no ar, piloto no bar”, brincou, citando o ditado que serve como regra de sobrevivência entre os pilotos para evitar turbulências.
Foi lá em cima que Mosquito me contou sobre sua maior façanha: um voo de dez horas seguidas entre Málaga e Ronda, na Espanha, sustentado apenas pelo vento e por uma intimidade com o céu que, para quem olha de baixo, parece milagre. Pilotos não medem a vida em anos, medem em tempo de permanência no ar. O céu, que antes parecia inacessível, tornou-se familiar. Eu poderia ter ficado ali por horas, esquecendo que não nasci com asas; mas a gravidade sempre cobra o seu preço, e logo chegou a hora de pousar.

Antes dessa experiência, eu imaginava o voo livre como um enfrentamento. Hoje, entendo o parapente como uma conversa entre corpo, vento e silêncio. O Ícaro da mitologia desafiou o céu e caiu; o Ícaro real, filho do Mosquito, aprende com o pai a arte de passar dez horas nele, apenas sabendo ouvir.



