top of page

da era da qualidade à era das experiências

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Foi dentro do Hotel Fuso, depois de experienciar um café da manhã delicioso, com o céu azul, o brilho do mar de Jurerê ao fundo e o canto dos sanhaços, que ouvimos Carlos Ferreirinha costurar um raciocínio revelador. A palestra, organizada pela Incorporadora Milano, a convite da Duda Tonietto, partia do universo do luxo, mas não daquele luxo óbvio, de vitrine ou logotipo; falava de luxo como uma forma de observar o mundo antes que ele se torne consenso. Em determinado momento, ele lançou a frase que ficou reverberando: “o mundo não mudou apenas de fase, ele mudou o critério pelo qual atribuímos valor às coisas”. E quando o critério muda, não adianta insistir nas mesmas fórmulas. Ou você revisa o que considera importante, ou o próprio mercado faz isso por você.


Ferreirinha nos lembrou o que nos trouxe até aqui: a chamada “Era da Qualidade”. Um tempo em que o “bom” era raro, o serviço parecia quase mágico por simplesmente funcionar. Quando consertar era um diferencial, não o mínimo. Botões caíam, ferros queimavam, pneus furavam, sempre sendo levados por uma promessa de comércio quase paternal: “se der problema, a gente resolve”.


Mas a qualidade venceu. Os processos evoluíram, a tecnologia refinou o básico, os produtos ficaram mais confiáveis, os serviços mais eficientes. Aquilo que ontem era extraordinário virou padrão. Se o padrão sobe, a diferenciação muda de endereço.


Fonte: Huan Gomes (sem uso de I.A.)
Fonte: Huan Gomes (sem uso de I.A.)

É aí que começa a virada que define o nosso tempo: saímos de uma lógica transacional para uma lógica experiencial. Não basta mais entregar bem, é preciso tocar. Não basta resolver, é preciso marcar. Existindo no mundo tantas boas opções, a disputa não é mais por fidelidade automática, mas por uma preferência que se torna enraizada no emocional.


A experiência deixa de ser um enfeite, passa a ser estratégia. Ela transforma uma padaria do Rio Tavares em ritual, um hotel como o Fuso em refúgio, um restaurante no Centro em palco, uma marca em companhia. Não compramos, apenas, coisas; compramos atmosferas, estados de espírito, memórias.



Muitas vezes o caminho se inverte: não é mais o produto que nos leva à experiência, é a experiência que desperta o desejo pelo produto.

Nesse novo cenário, cresce tudo aquilo que oferece escapismo, pausa, descompressão ou refúgio. Não à toa, Floripa, hoje, é referência nacional quanto à qualidade de vida. Depois de anos “trabalhando no modo alerta”, hiperconectados, sobrecarregados, atravessados por crises simultâneas, buscamos espaços que funcionem como suspensão do ruído.


Esse tempo também carrega seus paradoxos. Produzimos mais do que nunca, mas absorvemos menos. Temos mais opções do que nunca, mas decidimos com mais dificuldade. O excesso de escolha paralisa. A velocidade esvazia. Por isso, marcas, projetos, espaços que realmente se destacam não são apenas os que resolvem problemas, são os que simplificam a vida, que antecipam, que acolhem, que devolvem tempo.


Ferreirinha chama isso de hospitalidade – não como setor, mas como postura. Um jeito de dizer “eu pensei em você antes”. Um gesto que reduz atrito, que suaviza, que cria pertencimento. Como aquele atendimento despretensioso no restaurante do Ribeirão da Ilha, quando, ao final do almoço, o chá de erva-baleeira com hortelã chega à mesa depois de um comentário sobre dor de cabeça. Um cuidado simples, mas impossível de esquecer.


O Outono é a estação perfeita para essa conversa, porque ele nos convida a reorganizar o ritmo, a recalibrar o olhar. Se a qualidade nos trouxe até aqui, o que nos leva adiante é a coragem de ser singular, de declarar com clareza onde mora a nossa diferença, de sustentar isso nos detalhes, nos gestos, na experiência.


Aqui, nessa ilha cercada de água por todos os lados, isso fica ainda mais evidente. Não se trata mais do que você vende, trata-se do tipo de mundo que você cria ao redor disso e de como ele faz as pessoas se sentirem quando atravessam a ponte, decidindo ficar um pouco mais.

bottom of page