NASB - Not a Standard Business
- há 5 horas
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Por Cadu Zahran
Enquanto parte da indústria criativa ainda opera em áreas separadas, um grupo no sul da ilha de Florianópolis vem misturando tudo. O resultado passa por documentários sobre Ayrton Senna, motos inspiradas em “Mad Max”, barcos transformados em cozinha, contêineres erguidos com estruturas da antiga Ponte Hercílio Luz e um ecossistema criativo onde ideias transitam livremente entre filme, produto, experiência e comunidade
Foi no início dos anos 2000 que um coletivo global de jovens criadores – reunidos em torno de um laboratório contemporâneo de comunicação onde ideias eram testadas sem o peso imediato da utilidade, mas com o compromisso da relevância – ganhou força e notoriedade. Esse laboratório, fundado em 1994 por Luciano Benetton e Oliviero Toscani, era a Fabrica, em Treviso. Ali, jovens de diferentes partes do mundo transitavam entre filmes, editoriais, design, campanhas sociais, instalações, arquitetura e moda. Além de produzir peças, operavam na intersecção entre cultura e indústria, onde experimentação e linguagem caminhavam juntas.
Anos depois, já com a lente calibrada para reconhecer esse tipo de movimento, me deparei com algo que ecoa essa mesma lógica no sul da ilha de Florianópolis. Um espaço que, à sua maneira, traduz esse espírito: um polo criativo, onde diferentes frentes coexistem e se potencializam, onde um time de marketing divide o mesmo ambiente com uma produtora audiovisual e uma agência de publicidade; projetos de tecnologia, branding e inteligência artificial se misturam com arquitetura, design e motociclismo.
Mas o mais interessante não está apenas na soma dessas áreas, e sim na ideia de reunir pessoas inquietas, multidisciplinares e criativas em torno da experimentação e da construção de trabalhos que atravessam diferentes linguagens.


A história começou em 2014, quando Pedro e Paulo trabalhavam juntos em São Paulo desenvolvendo campanhas, aplicativos e projetos digitais. Um dos primeiros pontos de virada surgiu em uma viagem solitária de moto feita por Pedro até a Patagônia. Registrando tudo apenas com um celular e uma GoPro, ele voltou com imagens que mais tarde dariam origem ao curta-documentário “Guanaco”, filme que percorreu festivais internacionais e recebeu prêmios em Hollywood. Foi ali que perceberam uma conexão mais profunda com o audiovisual documental e com histórias humanas.
Em 2020, Paulo e Pedro se mudaram praticamente ao mesmo tempo para Florianópolis. O que antes funcionava quase totalmente de maneira remota começou a ganhar presença física. Primeiro veio um contêiner de edição. Depois outro. Aos poucos, o espaço foi crescendo até se transformar no ecossistema criativo que existe hoje.
Atualmente, o Hub, localizado ao pé do morro do Lampião, reúne produtora audiovisual, agência de publicidade, branding, estratégia, tecnologia, inteligência artificial e projetos autorais dentro de um mesmo ambiente. Essas áreas não funcionam de maneira isolada, e tudo parece se cruzar o tempo inteiro – um filme influencia um projeto de design, uma ideia nascida dentro da produtora acaba virando estratégia de marca, um objeto criado quase como experimento passa a despertar interesse comercial.
A lógica ali nunca foi apenas esperar trabalhos aparecerem, mas criar oportunidades próprias, desenvolver iniciativas internas, testar conceitos, construir narrativas e produtos a partir das próprias inquietações.
Essa filosofia também aparece na formação da equipe. Em vez de buscar apenas currículos prontos, eles passaram a procurar pessoas dispostas a aprender, executar e resolver problemas de forma criativa. No ano passado, essa visão deu origem a um Hackathon realizado dentro do próprio complexo: uma maratona criativa onde participantes receberam briefings reais e precisaram desenvolver soluções ao longo de um único dia. Algumas dessas pessoas acabaram entrando para a equipe depois da experiência.
Dentro desse universo nasceu também a NASB — sigla para Not a Standard Bike. A ideia surgiu da relação do Pedro com o motociclismo e de sua vivência cruzando as Américas — uma jornada que começou em São Paulo, desceu até a Patagônia e subiu até a Califórnia. As primeiras customizações tinham uma estética à lá “Mad Max”: motos adaptadas para estrada de terra, expedições, trilhas e travessias longas. Durante um período, a customização de motos chegou a operar comercialmente. Hoje, o foco passou a estar menos na customização comercial e mais nas conexões, viagens, experiências e iniciativas que nasceram dessa comunidade formada ao redor da NASB.
Outro bom exemplo da mistura entre design, improviso e funcionalidade é um um antigo barco de madeira transformado em cozinha. Tudo começou quando Pedro decidiu aposentar um Sharpie, um modelo olímpico, que ficava parado na Lagoa da Conceição. O barco foi levado para dentro do terreno e, em algum momento, surgiu a ideia de transformá-lo em uma cozinha completamente funcional. O resultado virou praticamente uma obra de arte habitável: pia, fogão, geladeira, gavetas, água e energia integrados ao casco original. A NASB ganhava outro desdobramento - Not a Standard Boat.
Depois de finalizar esse protótipo, convidaram o velejador Beto Pandiani, um dos nomes mais importantes da vela oceânica brasileira, para assinar e licenciar o próprio nome ao barco. Um vídeo simples publicado por ele acabou viralizando em páginas internacionais de design e arquitetura, gerando contatos vindos de países como França e Japão. Hoje, o objetivo do grupo é finalizar a produção fabril. A parte artesanal e conceitual eles sentem que já conseguiram provar; o desafio agora é escalar a produção e logística sem perder o caráter autoral que tornou a criação tão singular.

O barco-cozinha fica inserido em uma casa construída a partir de dois contêineres de doze metros, que acabou virando uma espécie de showroom vivo da estética da NASB e é outro elemento que ajuda a consolidar a identidade visual do lugar. Inspirado em construções nórdicas, o projeto foi erguido combinando madeira, vidro e grandes vãos internos à base metálica, que carrega uma curiosidade escondida: uma parte das vigas utilizadas veio da antiga Ponte Hercílio Luz, encontradas em um ferro-velho e reaproveitadas na construção. É nesse mesmo ambiente que também nascem alguns dos trabalhos audiovisuais mais ambiciosos do grupo. Eles estão produzindo um documentário sobre Ayrton Senna — ou melhor, sobre “Beco”, como o piloto era chamado pela família e pelos amigos próximos. Diferente das narrativas tradicionais focadas na Fórmula 1, o filme mergulha na dimensão íntima e humana do personagem.
O trabalho ganhou força especialmente através da história de Paula Senna Lalli, neta de Neyde Senna e sobrinha de Ayrton. Depois de décadas convivendo diariamente com o legado do filho, dona Neyde comentou sentir dificuldade em lembrar de Ayrton como filho, e não apenas como ídolo. O pedido para “trazer o Beco de volta” acabou se transformando em uma escultura hiper-realista criada por Lalalli — hoje instalada no Autódromo de Interlagos — e também o ponto de partida emocional do documentário.
Ao longo da produção, a equipe teve acesso a mais de cinquenta mil fotografias, fitas VHS nunca digitalizadas e materiais inéditos do acervo da família. A previsão é que o filme seja lançado entre o final de 2026 e início de 2027. acompanhado por uma websérie com histórias paralelas e conteúdos inéditos que deverá ser veiculada no YouTube.
Junto ao trabalho sobre Senna nasceu também outro documentário: “The Therapist”, centrado em Josef Leberer, responsável pela preparação física e mental de pilotos da Fórmula 1 durante décadas, e uma das pessoas mais próximas de Ayrton dentro do paddock. Apesar de extremamente respeitado no universo da Fórmula 1, Josef permaneceu durante muito tempo distante dos holofotes. O filme pretende justamente apresentar ao público um personagem que viveu por dentro de alguns dos ambientes mais competitivos e emocionalmente intensos do esporte mundial.

A iniciativa não deve parar no documentário. O grupo também vem estruturando experiências imersivas ao lado de Josef, incluindo encontros em meio à natureza e temporadas em Urubici, na Serra Catarinense. A proposta é criar pequenos grupos de convivência onde os participantes possam ouvir histórias inéditas, trocar experiências sobre alta performance, pressão emocional, liderança e disciplina.
O que existe hoje no sul da ilha é um espaço onde diferentes linguagens convivem em estado permanente de experimentação.
Em tempos onde a criatividade é um bem precioso, que precisa ser estimulado e mantido vivo a todo custo, a NASB contribui para a necessária abertura de olhares e oportunidades para que o fluxo criativo corra solto e seja, ao mesmo tempo, solidamente apoiado em um lugar onde um simples briefing pode virar filme, objeto, arquitetura, produto ou experiência.



